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PELO MUNDO

Berlim: a cidade que dividiu o mundo

Foto: Arquivo Pessoal

Aspecto do Muro de Berlim na paisagem urbana no início dos anos de 1980

“A fauna ensandecida do Ocidente digitando em frente ao Metropol.” (da canção Berlim, Bom Fim, de Nei Lisboa e Hique Gomes)

Na madrugada de 13 de agosto de 1961, soldados da Alemanha Oriental ergueram 43 km de barreiras e cercas, cortando ruas e praças da capital Berlim. Era o início da mais infame linha divisória do mundo moderno. Inusitadamente, a parte cercada era justamente a região da cidade conhecida como Berlim livre, ou Berlim ocidental, criando uma ilha política no centro da Alemanha comunista.

Como as cercas de arame farpado eram superadas de forma relativamente fácil, seguiu-se a construção de um muro de 3,6 metros de altura. Em 1965, ele já atingia 106 quilômetros de extensão e incluía barricadas, campos minados e centenas de postos de observação, com ordem expressa de atirar em quem tentasse atravessar. Um muro lamentável, que dividia não somente Berlim, mas também a Alemanha e o mundo.

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Com o final da Segunda Guerra Mundial, os aliados vencedores passaram a controlar a Alemanha e a Áustria, com o espólio de guerra dividindo ambos os países, bem como as capitais Berlim e Viena. A Áustria se reunificou rapidamente, assim como os três quartos da Alemanha alocados para França, Reino Unido e Estados Unidos, que se tornaram a República Federal da Alemanha.

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Os soviéticos, contudo, tinham outros planos para seu quinhão. Foi criada a República Democrática da Alemanha (DDR), integrante do Pacto de Varsóvia, bloco de países satélites da URSS isolados do ocidente pela chamada “cortina de ferro”.

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A capital Berlim, contudo, se viu em situação ímpar, já que o tratado pós-guerra também dividia a capital entre os aliados. França, Reino Unido e Estados Unidos tinham um reduto ocidental no meio de um país comunista e autoritário, de onde os cidadãos da Alemanha Oriental não podiam sair sem permissão oficial. Porém, até a construção do muro, bastava atravessar uma rua em Berlim para estar na Alemanha “livre” e, de lá, partir em um trem ou ônibus através do corredor que ligava a cidade à Alemanha Ocidental.

Até 1961, 3,5 milhões de cidadãos – 20% da população – haviam deixado a Alemanha Oriental. Da construção do muro até 1989, em torno de cerca de cinco mil pessoas ainda haviam conseguido escapar, usando túneis, balões, escondidos no estofamento de lendários Trabants, entre outras táticas. O Museu Checkpoint Charlie (antigo ponto de entrada no setor americano de Berlim) ressalta ainda as mais de cem pessoas que foram fuziladas ao tentar transpor o muro.

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No final dos anos 80, a cortina de ferro começou a ruir e movimentos pela liberdade passaram a tomar as ruas do leste europeu. No dia 9 de novembro de 1989, o governo da Alemanha Oriental, em um erro de comunicação do porta-voz Günter Schabowski, anunciou em cadeia de rádio e televisão a decisão de facilitar as permissões de saída do país. 

No mesmo dia, milhares de pessoas se aglomeraram nos pontos de fronteira do muro de Berlim. Os guardas, assustados, tiveram que abrir os portões que davam acesso a Berlim ocidental. Motivados pelos acontecimentos, cidadãos dos dois lados passaram a destruir partes do muro com martelos e marretas. A unificação alemã tornou-se inevitável, e aconteceu oficialmente em outubro de 1990.

Na cidade e no país, outra muralha ainda levaria anos para ser derrubada, e talvez jamais caia por completo: o chamado Muro na Cabeça (Mauer im Kopf) seguiu dividindo a Alemanha culturalmente, e ainda surte efeito na alma de berlinenses e alemães. 

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Na minha cabeça, durante a primeira visita a Berlim poucos meses após a unificação, ecoavam histórias de meu pai sobre suas visitas à antiga Berlim oriental, além da canção Berlim, Bom Fim, sucesso gaúcho do final dos anos 1980, época em que eu morava no bairro porto-alegrense do Bom Fim. 

Caminhando pela atual capital alemã, eu via fascinado semelhanças culturais com o bairro da capital gaúcha, quando me deparei com a discoteca Metropol, no prédio onde antes ficava a Neues Schauspielhaus, antiga opereta do período nazista. Por ali, avistei a “fauna” de frequentadores. No meu imaginário, a Rua Motzstrasse e a Praça Nollendorf se conectavam à Avenida Osvaldo Aranha e ao Parque da Redenção.

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Ainda inspirado pela letra de Nei Lisboa e Hique Gomes, o muro de Berlim se fundia ao (igualmente vergonhoso) Muro da Mauá. Um deles, construído para apartar um povo. O outro, para separar a cidade de suas águas. Ambos, por sinal, falharam miseravelmente em seu propósito. Em Porto Alegre, por falta de manutenção e negligência. Em Berlim, pela força de uma nação que jamais viu sentido na divisão. (continua)

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