Está escrito que a quarta-feira é de cinzas, mas tenho dúvidas. Terça de Carnaval também é, porque já contabiliza alguns foliões desanimados, exauridos, profundamente cansados e começando a perceber que a vida pede passagem para continuar a existir.
Na última terça-feira de Carnaval, saí cedo para minha habitual caminhada. A cidade estava praticamente vazia. Alguns operários da construção civil carregavam pedras e barras de ferro, empurravam carrinhos sonolentos, farmácias iluminadas, todas elas funcionando, porque muito necessárias para reparar fígados e também corações machucados, alguns passeando com seus pets, pardais irrequietos catando comida, gatos retornando de suas incursões noturnas, as ruas ausentes de motos e carros barulhentos. Nem os catadores habituais de resíduos compareceram.
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Passei por dentro da praça da prefeitura e ali, num banco solitário, estava sentada uma moça pensativa. Os dois tênis, brancos, ao lado dela, um olhar vago, fatigado se estendia ao longo dos sonhos que ela emitia. Perseguindo essa trilha de luz que seus olhos projetavam, captei atento algumas mensagens. O sol, com raios tímidos, iluminava a cena. Ela revisava fragmentos de sua existência, pensava em momentos e histórias de sua vida.
A primeira delas remetia ao conto da Cinderela, que o francês Charles Perrault e os irmãos Grimm preservaram e nos legaram. A princesa conseguiu ir à festa, mas teria que voltar antes da meia-noite. Chegada a hora, saiu apressada, perdendo um de seus sapatinhos de cristal. Foi esse sapatinho maravilhoso que ela perdeu, quando fugia do baile do rei, que lhe proporcionou a oportunidade de ser feliz para sempre. O filho do rei, o príncipe, varreu o território em busca da moça mais linda do reino, a única em cujo pé serviria aquela joia abandonada na fuga pressurosa. Após muita procura, eis que a dona era a encantadora Cinderela. Casaram e viveram felizes para sempre.
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Vendo aqueles tênis brancos e a moça serenamente aflita, deduzi que esperava o príncipe com quem se encontrara na noite anterior e que se perdera na multidão. Projetava o futuro dos dois, a vida maravilhosa que teriam, uma casa encantada, viagens inimagináveis, festas regadas a ternura e paixão. Ele era alto, musculoso, tinha várias tatuagens, o cabelo desgrenhado até lembrava o Milei, a camisa multicolorida da folia, um olhar meio vago, um moreno digno de certa atenção. Foi nisso que pensava enquanto acariciava aqueles tênis de branco irretocável.
Desembarcando desse devaneio, chegou mais perto da realidade. A mãe rezando em casa, o pai, irritado, nervoso, pensando em acionar a polícia, os vizinhos igualmente aflitos, solidários, um desarranjo total na família, no bairro. Onde é que essa guria se meteu, questionavam. Várias hipóteses foram levantadas, tentando compreender o tamanho do enredo. E a princesa ali, na praça, serenamente acariciando seus tênis brancos, misturando sonhos com a realidade.
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Os últimos acordes das marchinhas ainda ressoavam em seus ouvidos, mas aos poucos se evaporavam, a agitação, o ruído, tudo tornado ecos distantes. A claridade do dia gradativamente ia deslustrando sua fantasia. Tudo poderia virar pó na manhã seguinte, pensava. Mesmo assim, valeu a pena. Afinal, divertir-se tempera a vida. Pode até distrair tanto, que até nos esquecemos de ir para casa. Mas, um bom banco de praça pode também ser um espaço acolhedor e possibilitar sonhos de princesa.
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