Os dias, as semanas e os meses passam, mas o cenário permanece o mesmo. O que era para ser uma das obras mais importantes de Santa Cruz do Sul hoje coleciona histórias de desalento e desesperança. Três anos após o início dos trabalhos, a duplicação do trecho urbano da BR-471 deixou de ser motivo de comemoração para dar espaço a questionamentos e incertezas.
Às margens da rodovia, um dos principais acessos ao município, empresários lidam com as dificuldades e os desafios de uma obra parada no tempo. De acessos bloqueados no início das intervenções a estradas secundárias tomadas por buracos e pontos de alagamentos, impera a dúvida sobre o futuro e o desenvolvimento do projeto. Para muitos, o que pode parecer ideal no papel nem sempre encontra funcionalidade na prática.
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Sob jurisdição do Município desde 2014, a partir de um convênio com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), o trecho urbano da rodovia apresenta uma expansão populacional e industrial latente. Naquela época, aliás, foi isso que motivou a busca pela municipalização, a partir de um movimento do então prefeito Telmo Kirst, com vistas à viabilização da duplicação. A demanda, que parecia estar muito perto de se tornar realidade, é discutida e aguardada há mais de década pela comunidade.
Dois meses sem acesso à oficina
Ao longo do trecho urbano da BR-471, no qual a duplicação teve início, os relatos desgostosos se multiplicam entre aqueles que convivem diariamente com o cenário. O empresário Felipe Jackisch consegue elencar uma série de pontos falhos durante as obras e agora, quando as incertezas rodam pelo asfalto.

“A situação tem sido muito ruim. Quando chove, há um acúmulo de água que impede o trânsito, sem falar que a estrada fica toda cheia de buracos.” Com o empreendimento na região há mais de três décadas, ele espera que os próximos capítulos sejam diferentes. “No início das obras, nós ficamos dois meses sem conseguir entrar na oficina”, lembra.
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“Não estamos confortáveis”
Desde que o processo de licitação foi suspenso pela Procuradoria-Geral do Município, em fevereiro, o secretário municipal de Planejamento e Mobilidade Urbana, Vanir Ramos de Azevedo, afirmou que ainda não houve outros encaminhamentos.
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“Essa é uma decisão absolutamente jurídica. Agora estamos nessa fase de análise. Embora isso não dependa de nós, acredito que, pela demanda e pela necessidade, em poucos dias possa estar concluído”. Ainda segundo ele, essa é uma demanda que preocupa o governo. “Nossa expectativa é resolver o quanto antes. Não estamos confortáveis com a situação, mas neste momento estamos de mãos amarradas.”
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No cronograma
Até que haja novos desdobramentos em relação aos trâmites legais, o Município afirma estar “ciente da responsabilidade pela manutenção do referido trecho”. Conforme nota encaminhada pela assessoria de comunicação, a área “se encontra inserida no cronograma de intervenções da Secretaria Municipal de Obras e vem sendo executada de forma rotineira, assim como ocorre em diversos outros pontos da cidade”.
Um teste de paciência
Entre os empresários que têm vivenciado o drama da BR-471 está Guilherme Waechter. Há mais de 40 anos, a empresa, fundada pelo pai, ocupa a paisagem da região. Mas foi em março de 2023, quando as obras tiveram início, que o sonho da duplicação se transformou em pesadelo.

Segundo o comerciante, os trabalhos, nas proximidades da Rua Coronel Oscar Jost, foram executados sem considerar o fluxo de veículos e de pessoas. “Dos 12 meses, nove eu passei no vermelho devido às obras. Todo o comércio local sofreu, pela forma como as coisas foram executadas.”
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Para ele, o grande problema é que “não houve diálogo nem interesse em saber como as obras atingiriam o comércio local e a rotina dos moradores. Tivemos que criar um caminho com paletes para que fosse possível atravessar até o outro lado”. Já após a paralisação, devido à Operação Controle, Waechter afirma que só houve regularização dos acessos a partir da destinação de recursos próprios. “Na obra passada foram disponibilizados apenas dois pontos e ambos com restrição para o Bairro Várzea. O fluxo era denso, formando gargalos e muita confusão”.
Para o futuro, Waechter espera que haja mais planejamento, afetando o mínimo possível quem empreende ou reside na região. “Na atividade passada, fizeram a vala em frente a minha empresa com a promessa de que não passaria de 45 dias. Já o acesso levaria 15 para estar pronto. Mas tudo se estendeu por nove meses”, afirma.
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O que a Gazeta já noticiou sobre o assunto
- 2 de junho de 2021
- O setor empresarial de Santa Cruz do Sul lançou oficialmente a campanha “Duplica 471” para viabilizar a duplicação do perímetro urbano da BR-471.
- 10 de julho de 2022
- Conheça os detalhes da duplicação da BR-471. No texto, sob o título que dá início a este parágrafo, a Gazeta apresentou detalhes do projeto inicial, que era dividido em quatro etapas. Segundo previsões, duas delas seriam entregues até 2024. Com um investimento que deveria chegar a mais de R$ 100 milhões, trazia a promessa de se tornar “uma das maiores obras públicas de Santa Cruz”. Além da ampliação da via, o projeto previa a implantação de passarelas e novas rotatórias. Segundo o plano da Prefeitura, na época, as quatro etapas alcançariam toda a extensão de nove quilômetros entre o trevo do Gaúcho Diesel e o Distrito Industrial. A intervenção seria o cartão-postal da gestão da prefeita Helena Hermany.
- 18 de março de 2023
- A cerimônia de assinatura dos termos de início das obras foi realizada no entroncamento da rodovia com a Rua Afonso Bartz, no Bairro Independência.
- 23 de março de 2023
- Os primeiros trabalhos tiveram início junto à rodovia, a 100 metros do trevo da RSC-287.
- 27 de março de 2023
- Começavam os movimentos para duplicar novo trecho da BR-471. A intenção era priorizar a parte considerada com maior fluxo de veículos e com mais problemas, ou seja, do trevo do Bom Jesus até o entroncamento do Santa Vitória. A previsão era de que a licitação ocorresse até o fim daquele ano. Na época, as empresas vencedoras atuavam entre o trevo do Gaúcho Diesel e a Rua Afonso Bartz, e da Rua Afonso Bartz até o cruzamento com a Rua Coronel Oscar Rafael Jost.
- 22 de maio de 2023
- Engenheiros do Dnit visitaram o trecho 3, que iria do trevo do Bom Jesus até a ponte existente sobre o Arroio das Pedras, logo após o Hospitalzinho.
- 8 de junho de 2023
- A duplicação avançava rapidamente. Na ocasião, trabalhos estavam concentrados entre o trevo do Gaúcho Diesel e o entroncamento da rodovia com a Rua Coronel Oscar Jost, no Bairro Avenida. Na época, a Associação das Entidades Empresariais de Santa Cruz do Sul (Assemp) arrecadou R$ 323 mil junto ao empresariado para financiar a contratação do projeto.

- 4 de janeiro de 2024
- Com mais da metade das obras de duplicação do lote 2 concluídas, os trabalhos foram suspensos após uma orientação da Procuradoria-Geral. O motivo foram as investigações da Operação Controle, desencadeada pelo Ministério Público, que alegava fraudes em licitações e contratos na cidade.
- 28 de janeiro de 2025
- A Prefeitura recebeu a equipe do Dnit para discutir a retomada das obras. Na ocasião, o prefeito Sérgio Moraes ressaltou a importância do andamento dos trabalhos: “É crucial para o desenvolvimento da nossa região, melhorando a infraestrutura e garantindo mais segurança.”
- 29 de janeiro de 2025
- Em entrevista à Rádio Gazeta FM 107,9, Sérgio Moraes disse que a possibilidade de devolução do trecho municipalizado ao governo federal foi apresentada ao Dnit. O combinado prevê que isso ocorra após a conclusão dos trabalhos no trecho já iniciado, entre a RSC-287 e a Rua Coronel Oscar Jost.
- 10 de abril de 2025
- O prefeito Sérgio Moraes revelou que as obras, em 2023, tiveram início sem a autorização do Dnit. Na ocasião, o político também reforçou a intenção de finalizar a parte já iniciada, com a realização de nova licitação. Conforme o político, o custo da duplicação chegaria a R$ 2,5 bilhões.
- 24 de abril de 2025
- A Prefeitura reuniu empresários estabelecidos às margens da BR-471, no trecho em que se iniciou a duplicação, com o objetivo de explicar a situação e ouvir sugestões.
- 16 de dezembro de 2025
- A Prefeitura noticiou a publicação do edital de licitação, para contratação da empresa que daria andamento à elaboração do projeto de duplicação.
- 16 de fevereiro de 2026
- A licitação para o projeto de duplicação da BR-471 foi suspensa pela Prefeitura após apontamento de irregularidades. O edital previa contratação de empresa para orientar a retomada das obras, mas a construtora Avantte Engenharia e Participações Ltda. alegou que trechos já estavam com trabalhos executados.
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