Em janeiro de 2026, o debate sobre a inteligência artificial na adolescência deixou de ser pedagógico e passou a ser clínico. No segundo semestre de 2025, uma sequência de crises de ansiedade coletiva em escolas privadas de São Paulo, associada ao uso intensivo de aplicativos de inteligência artificial (IA) de companhia, expôs uma mudança profunda de comportamento.
O problema já não é o acesso à tecnologia. É a dependência funcional e emocional criada por sistemas desenhados para ocupar o lugar do esforço, do conflito e, em muitos casos, da convivência humana.
O dado mais perturbador do último ano passou quase despercebido. Em 2025, aplicações de IA com personalidades simuladas superaram redes sociais tradicionais como principal destino de tempo de tela entre adolescentes. Não se trata apenas de troca de plataforma. Trata-se de troca de função.
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A máquina deixou de mediar relações para se tornar a própria relação, sempre disponível, sem frustração e sem exigência de reciprocidade. Em um país marcado pela solidão urbana, esse deslocamento produz efeitos diretos sobre o desenvolvimento emocional.
Os levantamentos da Pesquisa sobre o Uso da Internet por Crianças e Adolescentes no Brasil (TIC Kids Online Brasil) 2025 confirmam o avanço acelerado do uso de IA entre jovens de 9 a 17 anos. O erro recorrente é tratar esse número como neutro. Ele não é. Em escolas privadas, a IA aparece como tutora personalizada, apoio à organização do estudo e reforço de conteúdo.
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Em grande parte da rede pública, a ausência de mediação pedagógica adequada transforma a tecnologia em substituta do esforço de leitura, escrita e síntese, empurrando estudantes para a terceirização precoce do pensamento. Em 2026, consolida-se um apartheid cognitivo, não por escolha individual, mas por omissão estrutural.
A promessa de produtividade cumpre o que entrega. Mais rapidez, menos atrito, respostas imediatas. O custo, porém, é silencioso. Ao pular a etapa do erro, da dúvida e da construção do argumento, o adolescente deixa de treinar habilidades que sustentam a autonomia intelectual. Não estamos apenas facilitando tarefas. Estamos enfraquecendo a tolerância à frustração e reduzindo a capacidade de sustentar raciocínios próprios. O pensamento se torna mais rápido, mas também mais raso.
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O impacto emocional segue a mesma lógica. Relatórios recentes sobre o que especialistas já descrevem como “solidão programada” indicam que adolescentes que passam mais de 4 horas diárias interagindo com IAs de companhia apresentam redução significativa da empatia prática com pares reais.
Um chatbot não contraria, não exige negociação e não impõe limites. Ele responde para agradar. Esse tipo de vínculo unilateral pode aliviar momentaneamente, mas empobrece a experiência relacional e adia o amadurecimento emocional.
A responsabilidade por esse cenário tem endereço. As grandes plataformas operam dentro da chamada economia da dopamina, em que engajamento prolongado se converte em lucro. Em 2025, produtos de IA generativa voltados a jovens foram lançados sem protocolos robustos de segurança infantil, sem avaliações públicas de impacto psicológico e com coleta intensiva de dados sensíveis. A ausência de regras claras transformou adolescentes em campo permanente de experimentação tecnológica.
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A reação internacional mostra que não se trata de exagero retórico. Estados Unidos e União Europeia avançaram sobre práticas que exploram vulnerabilidades emocionais de menores. No Brasil, a discussão sobre a implementação do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) ganhou centralidade, e o edital de R$ 100 milhões do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) sinaliza preocupação institucional.
O movimento é relevante, mas insuficiente se não vier acompanhado de exigências objetivas para produtos comerciais, como avaliações independentes, transparência e limites de uso. Há ganhos reais no uso responsável da IA.
A personalização do ensino, a ampliação do acesso à informação e o apoio a serviços públicos são exemplos concretos. O risco surge quando a conveniência vira substituição e quando afeto simulado ocupa o lugar do vínculo humano. Educação midiática e digital crítica precisa integrar o currículo escolar de forma estruturante, não como atividade acessória. Empresas que lucram com adolescentes devem responder pelos impactos que hoje tratam como externalidades.
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A tecnologia pode ampliar oportunidades. Sem regulação e preparo crítico, amplia desigualdades e fragiliza subjetividades. Tratar uma máquina como melhor amiga de um jovem não é inovação pedagógica nem avanço social. É a terceirização do desenvolvimento humano a sistemas que não educam, apenas retêm. A geração do pensamento delegado já está entre nós. A pergunta é se haverá disposição institucional para enfrentar esse custo antes que ele se torne permanente.
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