Direto da redação 09/02/2019 09h40

As tragédias não nos esquecem

Em uma época de importantes avanços tecnológicos, desenvolvidos e operados por tantos “especialistas”, ficamos perplexos com a sequência de desastres

A cada grande acidente ou tragédia, seja por evento da natureza ou ação direta do homem, nos perguntamos por que a situação não foi prevista, para se evitar o pior ou pelo menos reduzir as consequências. Em uma época de importantes avanços tecnológicos, desenvolvidos e operados por tantos “especialistas”, ficamos perplexos com a sequência de desastres, de variados tipos. Atrás das possíveis causas, enquanto acompanhamos o sofrimento dos que ficam, apontamos coisas como a busca pelo lucro fácil, a complacência do poder público, que fiscaliza pouco, ou a falta de investimentos em infraestrutura, que salta aos olhos especialmente se o evento é natural.

Não que essas situações não sejam reais. Certamente há organizações que, ao fazerem o balanço dos custos, concluem ser mais barato jogar com a sorte do que investir em medidas preventivas, para fazer frente a eventos que talvez nunca ocorram. É provável que haja tecnologia para construir estruturas que jamais se rompam, por exemplo, porém a um custo elevado demais para se justificar. Para esses casos, há uma máxima que diz: “Se você acha a prevenção cara, experimente um acidente.” Mas também podemos pensar que acima da simples matemática haja uma tendência humana a contar que eventos catastróficos não vão acontecer.

Por alguma estranha razão, ignoramos a prevenção aos nos fecharmos para a ideia de possíveis incidentes e até acidentes e seus nefastos efeitos. É uma aversão a pensar em “coisas ruins”, com medo de que elas, assim, realmente aconteçam. É uma crença de que se nos “esquecermos” das tragédias, elas também esquecerão de nós. É uma confiança cega na tecnologia – ela torna a nossa vida mais fácil e nos leva a virar as costas aos riscos e a não nos prepararmos para eles. Qualquer que seja a resposta, ou uma combinação delas, não há dúvida que algo une as grandes tragédias, como o rompimento da barragem em Minas Gerais e as mortes desta semana no Rio de Janeiro: a ideia de que nada de ruim vai acontecer porque esse é o nosso desejo. Como a natureza – e especialmente a vida – não liga muito para nossos desejos, o pior geralmente está à espreita, só aguardando uma brecha.

E tudo pode mudar de forma muito negativa em apenas um instante. Por que razão a aversão ao sofrimento não nos leva a tomar mais medidas preventivas, preservando não só a nossa vida, mas também a de outros, é mais um grande mistério. Como resultado disso, a dor imensa que experimentam todos os que perderam pessoas em Brumadinho, um local que ainda revela seus horrores à medida que mais corpos saem da lama. A eles se juntam os que choram pelas vidas desperdiçadas esta semana no Rio de Janeiro.