Bolsonaro poderá ir para casa, quando o hospital o dispensar. Lá ficará preso, por pelo menos 90 dias, pela condenação de 27 anos por “tentativa de golpe de estado”. Quem festeja o alívio na prisão é realista, mas embarca numa nuvem que encobre a realidade. As ilegalidades de não ter o juízo natural, o devido processo legal, o amplo direito de defesa – mesmo sem entrar nos fatos julgados – mostram que o Supremo agiu como pregava o ministro Barroso: Tribunal Político. Uma época que ainda espera um acerto com o Direito, a Justiça e a História. Embora seja uma notícia relevante do ponto de vista humanitário, a decisão de prisão em casa não pode abafar a eloquência dos documentos e fatos que envolvem juízes que julgaram Bolsonaro, principalmente os gritantes contrato de 129 milhões e os aportes de milhões no Tayayá.
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Uma criança de sete anos consegue ver os fatos com mais clareza que um adulto. Quanto mais vividos, mais nos metemos num brete que vai nos limitando, pondo-nos antolhos, como nos cavalos de tração. São as convenções, os costumes, os respeitos, as etiquetas… Uma criança que soubesse que um escritório de advocacia da família de um juiz influente fora contratado por 129 milhões de reais, logo concluiria que no mesmo dia em que se revelou o acordo com o Master, o juiz deveria renunciar, a menos que sua família estivesse ocultando dele o compromisso, exposto por Malu Gaspar em 9 de dezembro. Mas, para a rotina do Supremo, isso nada mudou. E o juiz continua decidindo, como agora na prisão domiciliar. E assim cambaleia o Brasil adulto, carecendo da visão clara e simples de uma criança.
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A menininha, curiosa, perguntaria se o melhor advogado do Brasil receberia um contrato de 3,6 milhões mensais em honorários. O menininho indagaria: se o escritório não fosse da família de ministro do Supremo, teria o contrato milionário? E se o Tayayá – que não é uma joia caribenha – não fosse de Toffoli, teria aportes de 35 milhões do Master, de 25 milhões da J & F? Se Guido Mantega não fosse ligado a Lula e indicado por Jacques Wagner, seria contratado pelo Master por 1 milhão por mês? Se o Master não fosse amigo dos governadores do PT da Bahia, teria exclusividade no CredCesta? Se Lewandovski não tivesse sido ministro do Supremo, seu escritório teria consultoria de 5 milhões do Master? Se Nunes Marques não fosse ministro do Supremo, sua irmã, seu filho e a Consult teriam recebido do Master e da J & F 18 milhões? Se Lulinha não fosse filho do presidente teria aportes de Roberta Luchsinger e da Agência de Viagens Vulcano? Crianças logo desconfiariam da compra do Master pelo BRB, ou sobre fundos de aposentadoria aplicados no Master. Presentes de Papai Noel?
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Se a uma criança fosse permitido saber mais de festas em Trancoso ou degustações etílicas em Londres, certamente perguntaria se foram de aniversário. Não foram. O objetivo era apenas criar intimidade via promiscuidade, como se consegue também ofertando jatinhos e eventos com tudo pago em lugares atrativos do mundo. Estamos diante de fatos claros para uma criança, mas ainda na expectativa de ver tudo, pois estamos submetidos aos antolhos da hipocrisia. Já fica claro para uma criança, mas nós, adultos, em respeito à vida num estado organizado, esperamos a investigação, as provas, as confissões, as denúncias e os julgamentos.
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As imagens das festas vorcarianas estão sob sigilo. É justo, pois há crianças na sala. Mas não é justo que representados não saibam como se comportam seus representantes e seus servidores. Nesses 50 anos de Brasília, vejo e revejo que a impunidade estimula a corrupção e que, na hora do voto que pode extirpar o mal e eleger o bem, os adultos não conseguem distinguir a diferença. Poderiam ter o olhar de criança, que tem o dom de perceber. Não foram as crianças que elegeram e escolheram os que estão no elenco desse teatro trágico do Master, que está em cartaz no ano eleitoral. Os adultos, portanto, é que terão oportunidade de repetir os erros ou mostrar arrependimento.
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