A busca por uma sociedade mais inclusiva e acessível reuniu dezenas de pessoas na manhã desse sábado, 20, na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Santa Cruz do Sul. A instituição realizou a aula inaugural do projeto “Mãos que Falam: capacitação em Libras para inclusão social e profissional”, iniciativa desenvolvida em parceria com a empresa Viver Libras e financiada pelo Fundo Social do Sicredi Vale do Rio Pardo.
A procura superou as expectativas dos organizadores. Inicialmente planejado para receber cerca de 30 participantes, o curso encerrou as inscrições com aproximadamente 75 interessados. Diante da alta demanda e da relevância do tema, a Apae decidiu ampliar o número de vagas e acolher praticamente todos os inscritos.
A capacitação terá duração de seis meses, com encontros quinzenais realizados aos sábados pela manhã. Serão dois encontros por mês, com duas horas de aula cada, voltados ao ensino básico da Língua Brasileira de Sinais (Libras).
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Segundo a instituição, o objetivo é oferecer conhecimentos que permitam uma comunicação cotidiana com pessoas com deficiência auditiva, abordando conteúdos como abecedário, números, dias da semana, meses do ano e sinais utilizados em situações rotineiras.
A vice-presidente da Apae, Gerturd Henn, explicou que a ideia do projeto surgiu a partir da contratação de duas colaboradoras surdas pela instituição no ano passado. Segundo ela, a convivência diária evidenciou desafios de comunicação que poderiam ser minimizados por meio da capacitação dos profissionais e da comunidade.
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“Quando contratamos duas pessoas surdas, percebemos que existiam dificuldades de comunicação dos dois lados. Em uma conversa, uma delas comentou que tinha dificuldade de se comunicar conosco. E nós também percebemos que tínhamos dificuldades para nos comunicar com ela. Foi a partir dessa reflexão que nasceu o projeto”, relatou.
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A proposta inicial era oferecer a formação apenas para profissionais da instituição, mas o interesse despertado pelo tema fez com que o curso fosse aberto à comunidade. “Estamos muito felizes por poder proporcionar esse momento de evolução, inclusão e aprendizado. Queremos que as pessoas aprendam a se comunicar melhor e compreendam a importância dessa linguagem”, destacou.
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Inclusão como direito
A programação também contou com a participação do produtor cultural, audiodescritor e consultor em acessibilidade Fernando Pozzobon da Costa. Ele abordou a importância da acessibilidade cultural e das tecnologias assistivas voltadas a pessoas com deficiência visual, auditiva e outras condições.
Especialista em projetos culturais acessíveis, ele apresentou recursos como audiodescrição, legendagem descritiva e estratégias de acessibilidade utilizadas em eventos culturais, festivais de cinema e atividades artísticas. Durante sua fala, destacou que a inclusão vai além da eliminação de barreiras físicas e deve contemplar também aspectos comunicacionais e atitudinais.
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Segundo Fernando, a construção de espaços verdadeiramente inclusivos exige não só adaptações estruturais, mas também a preparação das equipes e a participação efetiva das pessoas com deficiência nos processos sociais e culturais.

Muito além da Língua Brasileira de Sinais
Embora a capacitação tenha como foco principal a Língua Brasileira de Sinais, a aula inaugural foi dedicada a uma reflexão mais ampla sobre acessibilidade. Paula Saccol, assessora de comunicação institucional da Apae, explicou que a intenção do primeiro encontro foi apresentar diferentes formas de inclusão e sensibilizar os participantes para as necessidades de pessoas com diferentes tipos de deficiência.
“A nossa ideia é mostrar que a acessibilidade não envolve apenas a Libras. Existem várias tecnologias assistivas e diferentes formas de tornar os ambientes mais acessíveis. Queremos que as pessoas saiam daqui refletindo sobre como podem contribuir para tornar seus espaços mais inclusivos”, afirmou.
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Segundo ela, muitas vezes a deficiência é transformada, pela própria sociedade, em uma barreira social que impede a interação quando, na realidade, existem recursos capazes de aproximar as pessoas.
“Queremos que os participantes olhem para as pessoas com deficiência primeiro como pessoas. Que pensem em como podem facilitar essa interação no dia a dia e tornar a comunicação mais acessível”, ressaltou.
Um dos diferenciais da capacitação é a metodologia. Conforme explicou a intérprete de Libras e sócia da Viver Libras, Cíntia Adam, as aulas são ministradas por professores surdos, enquanto os intérpretes atuam como mediadores da comunicação com os participantes ouvintes.
Segundo ela, a proposta busca garantir o protagonismo das próprias pessoas surdas no processo de ensino. “A gente não dá o curso de Libras. Esse é o papel do surdo. Nada melhor do que aprender com quem vive essa realidade e tem a Libras como sua primeira língua”, frisou. “Nós estamos ali para assessorar, auxiliar quem ainda não conhece a língua e fazer essa ponte de comunicação. O protagonismo é essencialmente do surdo.”
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A professora Cláudia Barroso, que atua na formação de novos usuários da Língua Brasileira de Sinais, destacou que o aprendizado de Libras representa um passo fundamental para reduzir barreiras enfrentadas diariamente pela comunidade surda.
“Isso é muito importante. Os ouvintes precisam aprender Libras. Precisam entender que, em qualquer lugar, a pessoa surda deve conseguir se comunicar”, afirmou. “Se ela entra em uma loja, por exemplo, deveria encontrar alguém capaz de entender o básico.”

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