Perdi meu pai muito cedo para os parâmetros de expectativa de vida de hoje. Ele tinha 72 anos. Deveria ter vivido mais duas, três décadas, no mínimo. A mãe, amável até neste quesito, continuou conosco alguns anos mais e nos deixou aos 80. Ambos abriram um vazio enorme em nossas vidas, porque pais não são pessoas comuns. Eles são referência em meio à incerteza, refúgio na hora do perigo ou da dor, abrigo e aconchego até quando precisamos apenas de um afago.
É muito doloroso sentir-se órfão. Invejo amigos, contemporâneos meus, que ainda me dizem que almoçam com a mãe, que recebem visita do pai na casa de praia, que fazem viagens juntos para conhecer novos lugares. Puxa vida! Eu não tive tempo e oportunidade de levar os meus pais para a praia, de recebê-los e aconchegá-los na casa definitiva que enfim conseguimos construir, nem de passar alguns dias com eles na chácara. Ficaram tantos vazios para trás que hoje se preenchem de saudade.
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Eu sei, a começar por mim, que pais não são seres perfeitos. Mas são origem, razão de ser, alicerce sobre o qual se constroem novas vidas em família, histórias que nem sequer eles podem imaginar como vão terminar. Por conceito, a sociedade deveria reproduzir em escala e dimensão maior um modelo de vida similar. Um modelo que reconheça referências por sabedoria, por estatura moral, capacidade de liderança, reconhecimento e respeito. Que identifique pessoas iluminadas ou não, mas que inspirem, orientem e apontem caminhos, nem que seja somente pela experiência de vida. Ou que, simplesmente, sejam “pais” para nós cidadãos, no sentido mais amplo da palavra.
Faço um esforço, mas não encontro esses personagens. Não com essas características! Em campo algum.
E não é porque não identifique um líder político que me contagie, me inspire, que desperte o melhor que há em mim por uma causa, o meu País. Até porque a política e os que nela militam – esta é a minha opinião – não são causa, mas consequência, o triste resultado do fracasso que somos como sociedade. Ela potencializa o que de pior conseguimos produzir, porque, ao mesmo tempo em que nos rebelamos contra as aberrações que ela oportuniza em diferentes escalões, somos nós que avalizamos os mandatos dos que nos deveriam representar, no Legislativo e no Executivo.
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Insisto: talvez o cerne do problema nem esteja na política. Porque sobre ela temos alguma ingerência e, graças a isso, ainda podemos contar com algumas pessoas que nos representam com dignidade e coerência. Mas quando a Justiça, nos seus mais altos escalões, encoberta pelas togas da prepotência, é balizada por ideologia e pelo ativismo político; quando até em igrejas se subverte a fé, se relativiza a verdade e os valores cristãos para sustentar uma narrativa; quando nas universidades e na produção cultural, artística, literária se exclui quem não reza pela cartilha de uma doutrina e se nega o direito a uma visão plural e até ao contraditório, é porque já somos órfãos de cidadania e de mínimo respeito à democracia há tempo e nem sequer nos damos conta. Sentir-se órfão dói e exige superação. Às vezes demora, mas precisa e vai acontecer.
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