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FORA DE PAUTA

Entre o bem e o mal

O grande primeiro dilema do meu último dezembro foi a pilha de roupas sujas para lavar. Em determinado momento do mês, afazeres dos mais diversos impediram que eu fizesse uma ação simples: carregar o cesto e esvaziá-lo enquanto preenchia a máquina de lavar. Pode parecer exagero, mas lembro que os dias chegavam e se despediam sem que eu pudesse dar fim ao monte que se multiplicava a cada dia de primavera e verão. 

A agonia era grande. Mas o fato é que foram tantas, tantas e tantas atividades, e chuvas, e fins de semana de atendimento, que eu não conseguia fazer o básico. Sempre correndo, tentando dar conta do recado. E aquele monte de peças de roupas continuava a me assombrar, como se fosse o derradeiro atestado de mais um ano louco prestes a findar. 

Em meio à aflição, me perguntava: chegará o dia em que poderei lavar roupas novamente? A chuva irá cessar? Estarei livre num dia de sol? Como vou me vestir para ir trabalhar? E lá pelas tantas, prestes a sair de casa, eu lembrava do vestido amado, escondido na eterna pilha de roupas, longe de mim.

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Há poucos dias, enquanto estendia as peças da última remessa de roupas lavadas, veio o estalo. Sob o sol dos primeiros dias de janeiro, entendi que o martírio havia se encerrado. De uma hora para outra, sem que eu me desse conta, a pilha zerou. O problema estava resolvido. Assim, fácil, sem maiores prejuízos. E todas aquelas preocupações de outrora não chegaram a se materializar. Assim, enquanto colocava os prendedores no varal, me vi sorrindo e pensando: “realmente, não há mal que dure para sempre. É só saber esperar”.

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Quisera eu, afinal, que o cesto ultragigante de roupas sujas tivesse sido o maior dos dramas de dezembro. Na última semana do ano, a família paterna se viu em meio às dores de uma despedida: os últimos dias de vida de minha amada avó Lydia. Aos 94 anos de idade, três meses antes dos 95, ela dava início à sua despedida, comprovando que, não importa a idade ou as circunstâncias, jamais estaremos preparados para o último suspiro.

E quando o martírio teve início, no dia 29 de dezembro, os dias pareciam mais longos que o normal. A dor parecia não ter prazo para cessar. As incertezas eram muitas. Apenas em menor número se comparadas às lágrimas. As preocupações sobre o futuro, então, se aprochegavam, configurando um fim de ano marcado pelos assombros da morte no leito do hospital.

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Então chegou o dia 30. E, depois, o 31. Na ânsia pela mudança, assustados com o presente, nos ocupávamos com o futuro. “O que vamos fazer daqui para frente?”, “Vamos dar esse passo na sexta-feira. É melhor”, “Depois, a vó vai ficar sob os nossos cuidados”. E assim, em meio a tantos planos, tantas preocupações e tantas aflições, o dia 1º de janeiro de 2026 amanheceu.

Diante do toque, abri os olhos. Enquanto as duas enfermeiras me olhavam, a divisória branca já estava em pé, ao lado da maca. Não era preciso dizer mais nada. Em meio aos lençóis brancos, e às luzes de tranquilidade, a dona Lydia já descansava pela eternidade. O sofrimento havia findado. Ela estava em paz, na companhia daqueles que tanto amou e que já partiram, na morada do céu.

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Para 2026, desejo que possamos encontrar forças, serenidade e sabedoria para lidar com as diversas situações desses novos 12 meses. Sem esquecer, é claro: não há mal nem bem que dure para sempre.

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