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FORA DE PAUTA

Escrever o “adeus”

Já é público que não estou mais na equipe da Gazeta do Sul. Minha despedida foi tão dolorosa quanto escrever este texto, que, ironicamente, é o meu primeiro e último para o Fora de Pauta. Bem, vamos aos fatos, como diz um de nossos editores.

A verdade é que o fazer jornalístico é muito maior do que aquilo que conseguimos entregar ao nosso leitor, ao ouvinte da rádio ou ao internauta do Portal Gaz. E eu tive o privilégio de transitar nessas três plataformas contando muitas histórias. De luta, dor, sofrimento e superação. Histórias que enchem o coração da gente de esperança.

Volto no tempo até junho do ano passado, quando sequer passava pela minha cabeça a possibilidade de sair da Gazeta. Naquele mês, eu e a minha dupla inseparável, Rafaelly Machado, fomos atrás de dramas vividos por pessoas que necessitavam de medicamentos mais caros, aqueles que o SUS não paga e o bolso do assalariado muito menos.

Sentimos o gosto da tristeza ao ver a mãe contar que o filho havia ganhado o direto de enxergar, após uma cirurgia de catarata; sim, o guri nasceu com a doença que muitos acreditam ser de velho. A tristeza no semblante da mãe não estava relacionada à visão do menino, que, graças à Defensoria Pública, viu a luz do mundo com todas as cores a que tinha direito. A frustração veio ao falar da filha mais nova, que nasceu antes do garoto e morreu em um trágico acidente de carro, no interior de Sinimbu.

Falar de alegria com quem convive com a dor é algo muito difícil, impossível, quase.

Quase tão difícil quanto fazer acreditar na esperança quando quase tudo vai na direção oposta. Um mês antes de conhecermos o drama da família sinimbuense, eu e a “Rafa”, sempre ela, conhecemos uma mãe de família, em Santa Cruz do Sul, que já tinha vendido tudo dentro de casa para garantir pelo menos uma refeição aos dois filhos. Desempregada e sem perspectiva, a mãe do Bairro Santa Vitória não tinha nem celular, para que alguém que soubesse da sua história pudesse chamá-la no Whats para doar.

É por essas e outras histórias de vida que, em agosto de 2008, jurei. Naquela fria noite de inverno, prometi fazer do jornalismo uma espada, se preciso fosse. Lutar pelos direitos e pela informação precisa e acessível a todos.

Com o coração apertado, eu escrevo “adeus”. É difícil encerrar um ciclo tão bonito quanto o que vivemos na Gazeta nos últimos quatro anos. Saio em busca de novas histórias, novos desafios e conquistas. Não gosto de dizer adeus, ou tchau. Prefiro um até logo, pois acredito que experiências tão intensas quanto estas nunca acabam. Os sonhos não morrem nem envelhecem, guardamos este, por ora, em uma caixinha de ouro, junto com todo o carinho e respeito que eu vivi nesta casa. Até logo.

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