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ROMAR BELING

Está tudo sob controle?

Tendência é que nova estação – que começa nesta sexta – registre eventos extremos, especialmente envolvendo chuva. Joane Inês Assmann/Banco de Imagens

Cito uma alegoria. Em uma floresta viviam bichos-preguiça. Ocupavam seu tempo com amenidades, tirando cochilos, apanhando frutas ou se arrastando até o arroio mais próximo para saciar a sede. Ficavam ao relento, aproveitando dias e noites de tempo firme. Mas então descia um aguaceiro, que os deixava encharcados, e por vezes resfriados. Prontamente concluíam que era chegada a hora de finalmente construir algum tipo de proteção contra intempéries, ou de identificar caverna em local elevado, que os mantivesse protegidos.

Só que no dia seguinte o sol reaparecia, e todos os planos restavam ignorados. “Está tudo sob controle”, afirmavam. Permaneciam no mesmo lugar, ocupados com os mesmos afazeres, e a vida seguia seu curso. Até a tempestade seguinte que se avizinhava no horizonte, que os deixava atônitos e os fazia guincharem desesperados. Faziam alarde. E era apenas o que faziam. A chuva vinha, os encharcava, muitos se resfriavam e, constrangidos, tremelicos, lá ficavam, esperando que o tempo uma vez mais melhorasse.

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A sociedade contemporânea (ou parcela dos tomadores de decisão) assemelha-se a esse ajuntamento de… bichos-preguiça. A manchete da Gazeta do Sul de quinta-feira trouxe a advertência: “Enchentes elevam temor diante da crise climática”. A referência é, claro, a iminência de um novo fenômeno El Niño a partir de meados do ano, e ao longo do verão. El Niño, bem sabem os gaúchos, pela experiência de uma vida e por acontecimentos recentes, significa chuvas intensas, acima da média, no Sul do Brasil. Na memória está, como fantasma horripilante, a enchente de 2024, que devastou regiões inteiras.

Mediatamente após, e em meio à comoção com vidas perdidas e patrimônios dizimados, o que mais se ouviu é que: “isso nunca mais pode acontecer”, “precisamos agir para já”, “vamos providenciar obras que nos protejam de semelhante ameaça”. Bem pouco foi aprendido, e menos ainda efetivamente colocado em prática.

Então as chuvas cessaram, as águas baixaram ou foram embora, os escombros foram sendo empurados para o lado, e a vida seguiu seu curso. Escombros, por sinal, dois anos depois ainda seguem praticamente onde ficaram, como advertência do que houve. Rios seguem assoreados. E muitas estradas, aliás, sequer foram recuperadas; desvios seguem sendo desvios, talvez com a intuição de que, se ocorrer de novo, quem sabe a água desta vez vai empurrar a terra de volta a seu lugar, e os caminhos, por ora provisórios, se resolverão naturalmente. Desvios e escombros, rachaduras nas encostas e feridas abertas de deslizamentos nos morros, tudo segue como um lembrete.

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E eis que o El Niño voltará. Ao que tudo indica, não só obras planejadas e prometidas não terão sido concluídas (isso quando iniciadas), como (é de intuir) os estragos, a cada nova chuvarada, serão um tanto maiores. Porque, se antes a chuva levou certas ameaças a uma metade (parte do morro cedeu, parte da estrada foi embora, parte da cidade foi inundada), é quase certo que a natureza, esta sim, tratará de ser eficiente em sua ação. Muito ao contrário dos preguiças, cuja única façanha é serem resilientes ou imprevidentes a um ponto em que deles próprios há pouco a esperar. Só mesmo rezando ou implorando por força divina ou sobrenatural. Ou seguir fazendo alarde.

A sociedade gaúcha precisa deixar de lado sua parte preguiça e afirmar a sua plena parte humana, pelo bem dessa espécie.

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