Para Pedro Nava, um dos maiores autores brasileiros do gênero memorialístico, “a vida é um romance sem enredo”. Também deixou reflexões marcantes sobre a experiência humana, comparando-a aos faróis de um automóvel virados para trás: “iluminam o caminho já percorrido, ajudam a compreender o passado, mas pouco dizem sobre o que vem adiante”. São úteis para a marcha à ré, mas quase inúteis quando o desafio é avançar.
A infraestrutura tradicional inclui usinas elétricas, linhas de transmissão, sistemas de saneamento e grandes obras viárias. Educação também é uma das partes mais importantes da infraestrutura. Para Alvin Toffler, com obras físicas, pode-se transformar um país, mas ainda assim ensinar às crianças apenas o passado.
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Valorizar a geração de conhecimento é indispensável. A sociedade do futuro dependerá cada vez mais disso. As transformações econômicas globais reforçam a importância de fatores antes vistos como secundários: ideias novas, inovação, ciência e a capacidade de transmitir saberes entre pessoas e instituições. O sucesso econômico passa pela sofisticação tecnológica, pela educação de qualidade e por sistemas eficientes de comunicação e mobilidade.
O mundo do século XXI, já tendo avançado em seu primeiro quarto, impõe desafios inéditos: globalização volátil, revolução digital, mudanças climáticas, empresas globais sem pátria definida, capitais que circulam com um clique. As alterações econômicas, culturais e ambientais tornam o futuro radicalmente distinto do passado.
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Nesse contexto, a forma como lidamos com a infraestrutura brasileira torna-se decisiva. Discute-se muito a necessidade de o país crescer, mas pouco se encara o fato central: sem investimentos adequados em infraestrutura, especialmente em transportes, qualquer expectativa de expansão será limitada. Os gargalos são evidentes e, se o país crescer como se deseja, nossa estrutura atual não acompanhará a demanda.
Executivo, Legislativo e Judiciário, assim como parte expressiva da sociedade, por vezes parecem ignorar que não há crescimento sustentável sem meios eficientes de escoar insumos e produtos e movimentar pessoas embasados em projetos financeiros robustos. Entre as deficiências, a infraestrutura rodoviária é a mais crítica. Safras recordes ou aumento industrial pouco significam se não houver estradas capazes de levar a produção aos mercados interno e externo de forma eficiente. Grande parte das rodovias administradas diretamente pelos governos é malconservada, deficiente ou simplesmente inexistente.
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Como lembraria Nava, não adianta olhar apenas o retrovisor. O Estado brasileiro não dispõe de orçamento nem capacidade de gestão para recuperar, expandir e operar sozinho toda essa malha. Isso vale, aliás, para a maioria dos países, independentemente da orientação ideológica dos governos. A participação privada não é tabu: é a solução contemporânea, lógica e necessária. Persistir em velhas ferramentas para resolver novos problemas é insistir em fracassos conhecidos.
É preciso superar ranços antigos e reconhecer que o setor privado, movido por interesses financeiros legítimos, é parceiro indispensável. A alternativa, condenar o país a viver de faróis virados para trás, é inaceitável. A lógica requer os faróis no lugar certo: voltados para a frente. A eficiência na gestão dos recursos públicos e a participação privada na infraestrutura é o caminho para iluminar o futuro e viabilizar o crescimento econômico sustentável.
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