Há consenso de que a intervenção norte-americana na Venezuela desrespeitou várias regras internacionais formais e consuetudinárias. Autodeterminação dos povos é um princípio fundamental do direito internacional. Ou seja, ditaduras ou não, democracias ou nem tanto, cabe a cada povo, cada nação, tratar de resolver seus conflitos internos, seus processos sociais e políticos. Sem intervenção externa!
Porém, há dezenas de ditaduras (e formatações similares) em que não há possibilidade de reação popular local, de contestação formal e eleitoral. Aliás, algumas nações em permanente estado de censura e violento controle social. Objetivamente, alguém acredita em reação popular na China, na Rússia, na Coreia do Norte, em Cuba, no Irã, entre outros países menos lembrados? E na Venezuela, desde a ascensão de Hugo Chávez e Nicolás Maduro?
LEIA MAIS: Poesia? Numa hora dessas?
Publicidade
Logo, ainda que relevantes as teses de reconhecimento internacional quanto à soberania e à autodeterminação das nações, resulta que em vários casos tais argumentos – soberania e autodeterminação – funcionam como “proteção” em favor de ditadores e demagogos que se perpetuam no poder. Não à toa, seja por razões de decadência socioeconômica (inflação e desemprego) e por censura e repressão política, entre vários motivos, nos últimos anos mais de 8 milhões de venezuelanos abandonaram seu país.
Vejamos seus principais destinos: Colômbia (2.800.000), Peru (1.660.000), Estados Unidos (760.000), Chile (730.000), Espanha (700.000), Brasil (670.000), Equador (450.000), Argentina (200.000), República Dominicana (120.000) e México (100.000), entre outros de menor número. (Fonte: ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados). Logo, é solidário e humanitário compreender a reação festiva dos venezuelanos em todos os recantos, e na própria Venezuela, ao comemorar a deposição e a prisão de Nicolás Maduro.
LEIA TAMBÉM: Memórias de Natal
Publicidade
Porém, em contraponto, decepcionante foi a reação de alguns líderes que nem sequer mencionaram os sentimentos e as razões do oprimido povo venezuelano. Entre tais, o presidente Lula. Mas foi coerente. Afinal, sempre foi solidário com os “companheiros” do Foro de São Paulo. Tamanha e inabalável “solidariedade pessoal” entre tais líderes deve estar muito além das convicções ideológicas em comum.
Pergunto. Guardará relação com os escandalosos desdobramentos da Operação Lava-Jato na América Latina? Por consequência, com o financiamento internacional e eleitoral do grupo? Recordam a “delação premiada” do publicitário João Santana e sua esposa Mônica Moura? Dito isso, deduz-se que haverá outras indagações processuais, para além dos casos de narcotráfico e narcoterrorismo. O que explicaria o imediato e solidário burburinho após o “sequestro”: “Fica quieto, Maduro!”
LEIA MAIS: A Carroça (ein lustiger streich)
Publicidade
Este artigo não subestima o histórico imperialista dos Estados Unidos, nem relativiza as circunstâncias diretas e indiretas que sugerem uma temerária reconfiguração da geopolítica mundial. Voltarei ao tema.
LEIA MAIS TEXTOS DE ASTOR WARTCHOW
QUER RECEBER NOTÍCIAS DE SANTA CRUZ DO SUL E REGIÃO NO SEU CELULAR? ENTRE NO NOSSO NOVO CANAL DO WHATSAPP CLICANDO AQUI 📲. AINDA NÃO É ASSINANTE GAZETA? CLIQUE AQUI E FAÇA AGORA!
Publicidade