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Gana: uma lição de História (também para o Brasil)

Castelo da Costa do Cabo era a última visão da África para os escravizados

Em viagem de trabalho à República do Gana, na África ocidental, precisei me deslocar da capital Acra até Takoradi, próximo à fronteira com a Costa do Marfim, onde estão as reservas de petróleo e gás natural desse populoso país de 30 milhões de habitantes. Entre as duas cidades costeiras, pode-se visitar duas fortalezas que testemunharam a história de sangue, sofrimento e coragem dos nativos daquela região, conectando os continentes africano e americano, e, em particular, o Brasil e os ganeses.

Primeira colônia da África Subsaariana a obter sua independência, em 1957, o país é um conglomerado de etnias e reinos anteriores ao período colonial iniciado pelo império português no século 15. Portugal estava, inicialmente, interessado no ouro dessa região do Golfo da Guiné, tanto que a batizaram de Costa do Ouro. Em 1481, o rei Dom João II ordenou a construção do Castelo de São Jorge da Mina (Elmina), como posto avançado do comércio português. Foi a primeira de dezenas de fortalezas construídas naquele trecho que incluía, além de Gana, os atuais Togo e Costa do Marfim. Um século depois, holandeses, ingleses e escandinavos transformaram os castelos em entrepostos de outro “produto” com alto valor de mercado: africanos escravizados.

Castelo Elmina, um entreposto do tráfico construído pelos portugueses em 1481

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É verdade que ali os europeus não entravam no interior africano, e cativos eram trazidos até a costa por líderes locais, capturados em guerras civis pelo principal reino da região, os Acãs. É também verdade que os compradores de gente desembarcavam milhares de toneladas de pólvora e centenas de milhares de armas por ano nas praias do golfo, incentivando e lucrando com os permanentes conflitos entre os povos africanos.

Além de Elmina, que passou ao controle da companhia holandesa de comércio de escravos West India Company, outra fortaleza vizinha, o Castelo da Costa do Cabo, servia como feitoria britânica do tráfico negreiro. É impactante ver os porões úmidos e mal ventilados desses castelos, alguns com capacidade para armazenar 1.500 cativos de uma só vez, que aguardavam em condições subumanas o despacho para as Américas. As embarcações, nas quais viajavam como sardinhas, eram no início britânicas, e, mais tarde, portuguesas e brasileiras. Em um cálculo diabólico, os traficantes consideravam a alta taxa de mortalidade, causada por doenças e pelas precárias instalações, economicamente mais vantajosa do que construir melhorias nesses armazéns de humanos. Os dois castelos foram preservados e designados pela Unesco como patrimônio da humanidade. São monumentos às centenas de milhares que sofreram e pereceram a caminho do Novo Mundo.

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O Brasil se entrelaça culturalmente com esse território, também chamado de Costa dos Escravos, especialmente a partir da descoberta de ouro e diamantes em Minas Gerais. Os cativos dali tinham experiência com garimpagem, sendo por isso preferidos pelos mineradores brasileiros. Em quatro séculos, só dessa região da África, dois milhões de escravizados atravessaram o Atlântico, a metade deles em navios portugueses e brasileiros. O tráfico negreiro e a violência imprescindível para mantê-lo causaram guerras permanentes e desordem generalizada nessa faixa da costa africana, e seus efeitos devastadores são sentidos até hoje.

Flagstaff House, o palácio presidencial de Gana, situado na capital Acra

A agressividade, necessária para desumanizar os escravizados, continuava, é claro, do outro lado do oceano. O Brasil, último país das Américas a abolir oficialmente a escravidão, ainda está, infelizmente, longe de abandonar hábitos e vícios de mais de quatro séculos de racismo, desigualdade social e brutalidade. No desembarque, os escravizados eram asseados e pesados. Tratados como animais, tinham seu peso registrado em arrobas, uma unidade usada na pecuária. Sem entrar em política, e puramente analisando a questão cultural, é preciso lembrar que, em discurso de campanha, a atual autoridade máxima da nação, talvez por desconhecimento histórico ou em uma tentativa burlesca infeliz, referiu-se a afrodescendentes de um quilombo usando essa mesma unidade de medida, e complementou dizendo que não serviam nem para procriação. Muitos acharam graça, deixando mais uma vez evidente que aprendemos muito pouco e seguiremos por mais algumas gerações açoitados pelo preconceito herdado da escravidão, raiz de quase todos os problemas brasileiros.

Desde sua independência, Gana se recuperou gradualmente dos danos do colonialismo europeu, e hoje tem um governo estável e democrático, com bons indicadores de saúde, crescimento econômico e desenvolvimento humano. A riqueza cultural da região também ressurge aos poucos. Uma amostra da arte e tradição passada está nas centenas de belíssimas esculturas em bronze e marfim saqueadas da região pelos ingleses, hoje em exposição no Museu Britânico, em Londres. O alegre e hospitaleiro país de Kofi Annan, ex-secretário-geral da ONU e laureado com o Prêmio Nobel da Paz em 2001, faz renascer a esperança de ver povos oprimidos por séculos se unindo e renascendo como uma forte nação.

Barack Obama e a família visitaram os castelos de Gana em 2009

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