Inevitável não pensar em propósitos e projetos no raiar de outro ano. Estamos aqui para quê? E na falta de uma resposta satisfatória, o que fazer a respeito? Por mais que se viva numa cultura imediatista e de descarte ininterrupto, a alma continua sendo fonte e receptáculo de grandes esperanças.
Cultivar o futuro, pensar em algo que possa permanecer após uma breve passagem. A maioria projeta seu legado na forma de filhos e netos, na descendência. Outros apostam em obras e realizações de porte, artísticas ou não. Mas é possível chegar ao término da vida sem ter ideia do sucesso ou fracasso da empreitada.
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Por exemplo: o escritor norte-americano Hermann Melville morreu confrontado com a própria irrelevância. Jamais imaginou que seu nome ficaria para a posteridade e que Moby Dick, livro publicado em 1851, seria adaptado para ópera, teatro e cinema. Um clássico reeditado até hoje e que desafia leitores de qualquer idade.
Na época, entretanto, o livro foi um fracasso de vendas e recepção crítica. Para Melville, significou o início do fim de sua carreira. O tombo foi tão grande que ele resolveu mudar de ofício: passou a trabalhar como inspetor alfandegário. Morreu em 1891, como um autor obscuro, e assim permaneceria se sua obra não fosse redescoberta e reavaliada no século 20.
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Mas o fato é que tudo nesse livro revela sua aspiração à grandeza e, por que não, à imortalidade. Se fosse apenas a narrativa da caça a uma baleia branca, alvo da fúria de um vingativo capitão de navio, Moby Dick não teria nem metade de suas mais de 700 páginas.
Melville vai muito além. Dedica capítulos inteiros para explicar tudo – absolutamente – relacionado a baleias, desde a biologia da espécie até detalhes sobre como é feita a extração do óleo desses animais (para fins comerciais).
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Em certo trecho, a voz do escritor irrompe para explicar sua visão. O autor que vai tratar de um assunto vasto e produtivo, afirma, precisa estar à altura disso, deve expandir-se até alcançar o tamanho do tema. “Nenhum livro grandioso e duradouro poderá jamais ser escrito sobre a pulga, embora muitos tenham tentado.”
Duradouro. Imortal como a própria baleia branca, uma espécie que (segundo Hermann Melville) desprezou a Arca de Noé durante o dilúvio e, se o mundo for inundado outra vez, vai sobreviver novamente.
Ainda há espaço para isso neste mundo que privilegia a curta duração, os cacos de fragmentos, a informação reduzida a um só lado e a simplificação de tudo às dimensões da pulga? De qualquer maneira, a alma ainda é fonte e receptáculo de grandes, imensas esperanças. E é necessário – Melville ensina – estar à altura.
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