Rádios ao vivo

Leia a Gazeta Digital

Publicidade

MAGAZINE

La Bella Italia Literária: da utilidade à liberdade da arte

Foto: Acervo Pessoal

Bea Dummer e Niccolò Fusaro no Musée de l’Orangerie, em Paris, com a obra “Les Nymphéas” de Oscar-Claude Monet

A história da arte não deve ser vista apenas como uma sucessão cronológica de quadros em museus. Ela é, fundamentalmente, a narrativa de como o ser humano aprendeu a enxergar a beleza e a se relacionar de forma complexa com os seus sentidos. Nesse percurso, a estética emerge não como uma ciência exata de leis universais, mas como um campo de reflexão crítica que interroga o sentido profundo das nossas experiências sensíveis.

O berço clássico e a transição para o divino

Tudo começou com o equilíbrio clássico da Grécia (séculos V-IV a.C.), onde a valorização da harmonia entre corpo e espírito moldou um padrão de beleza que sobrevive até hoje como nossa “arquitetura psicofísica”. Esse período foi tão potente que se costuma dizer que, embora Roma tenha conquistado a Grécia militarmente, foi a arte grega que conquistou a alma romana, impondo seus modelos estéticos aos vencedores.

LEIA TAMBÉM: Discos de vinil ganham programa na Rádio 99,7 FM

Publicidade

Contudo, esse foco na harmonia física começou a se dissipar com a expansão de Alexandre, o Grande, rumo ao Oriente. Ali iniciou-se uma lenta espiritualização da arte que separou o material do transcendente. Com a ascensão do Cristianismo, essa divisão radicalizou-se em um modelo teocêntrico. A arte bizantina tornou-se o espelho dessa visão: as imagens eram rígidas, bidimensionais e sem expressão individual. O objetivo não era o realismo, mas servir de ponte para o divino.

O despertar da matéria: Francisco e Giotto

Essa “prisão” simbólica da imagem começou a se quebrar no século XIII através da sensibilidade de São Francisco de Assis. No seu Cântico das criaturas (1224), Francisco estabeleceu a primeira relação estética moderna com o mundo material ao louvar o sol e a terra não apenas como símbolos religiosos, mas por sua beleza sensível e qualidades perceptíveis.

O inicio da “revolução estética” foi traduzida para a linguagem visual por Giotto. Nos seus afrescos em Assis, ele rompeu com a rigidez bizantina ao devolver o volume aos corpos por meio das sombras e ao conferir emoção psicológica aos rostos. Giotto humanizou o dogma, transformando a parede pintada em um dispositivo de comunicação que incluía, pela primeira vez, o espectador na cena sacra.

Publicidade

A ascensão do artista intelectual e as Belas Artes

Durante séculos, o fazer artístico foi classificado como uma “Arte Mecânica”, considerada inferior às Artes Liberais (como a Gramática e a Geometria), que eram reservadas ao puro intelecto do homem livre. Entretanto, as revoluções científicas, políticas, a invenção da perspectiva e o processo de secularização reforçaram para que o artista se tornasse um intelectual. Ele passou a precisar do domínio da anatomia e da geometria para controlar racionalmente o espaço e mapear a realidade com precisão.

A grande virada ocorreu em 1750, quando Alexander Baumgarten fundou a Estética como a “ciência do conhecimento sensitivo”. Paralelamente, Charles Batteux formalizou o sistema das Belas Artes, separando-as definitivamente do artesanato útil. Com o avanço da Revolução Industrial, as fábricas assumiram a produção em massa de bens de consumo, liberando a arte da utilidade prática e elevando o artista ao status de gênio criativo em instituições formais: as Academias de Belas Artes.

LEIA TAMBÉM: Eventos deste fim de semana em Santa Cruz fortalecem economia

Publicidade

Brera e o paradoxo do branco

Entre essas instituições, destaca-se a Academia de Brera, em Milão, um lugar que tive o prazer de visitar. Brera é um exemplo emblemático do Neoclassicismo por sua arquitetura racional, sóbria e simétrica, projetada para refletir a ordem e a clareza do pensamento iluminista. Ao caminhar por seus pátios, nota-se a presença majestosa dos arcos e a aplicação rigorosa das ordens arquitetônicas dos pilares romanos, que resgatam a autoridade do mundo antigo para legitimar o novo status intelectual do artista.

As Academias impuseram o Neoclassicismo guiadas pelo ideal de “nobre simplicidade” de Winckelmann. Esse modelo inspirou edifícios como o Pantheon em Paris e a Casa Branca em Washington, onde a simetria e o branco comunicam ordem e pureza. É contraditório notar que, embora hoje saibamos que a arte clássica era policroma (colorida), herdamos o “gosto pelo branco” neoclássico como sinônimo de elegância minimalista.

Enquanto preferimos espaços neutros e cinzas no design, vivemos imersos em telas digitais saturadas que ativam constantemente nossa dopamina: um contraste nítido entre a estabilidade clássica e a estimulação midiática moderna.

Publicidade

A reação romântica e a expressão da alma

O espírito moderno, contudo, cansou-se do rigor acadêmico; a repetição dos modelos tornou-se entediante. Movimentos como o Sturm und Drang trouxeram o gosto pelo irracional e pelo folclore, desafiando a beleza universal com a força do sentimento individual. Daí surgiu o Romantismo, onde o território deixou de ser apenas um espaço geográfico para se tornar um “estado de alma” e uma expressão da identidade local.

É vital notar que essa valorização da cultura local difere drasticamente do nacionalismo agressivo. Enquanto a primeira celebra a diversidade e a memória, o segundo historicamente levou a guerras ao pregar a superioridade de uma cultura sobre as outras, em vez de valorizar a pluralidade humana.

LEIA TAMBÉM: Maior festival de cinema fantástico acontece em Porto Alegre

Publicidade

O clássico como diálogo eterno

É fascinante observar como civilizações milenares permanecem vibrantes no presente, sobrevivendo ao teste do tempo. Se outrora a beleza estava presa a um modelo rígido, a construção estética moderna transformou-se em um território livre e plural. Hoje, nossa sensibilidade permite que a arte assuma a responsabilidade de expressar a totalidade da alma humana – do sublime e exótico ao feio e melancólico. A arte hoje é expressão do interior, não apenas o seguimento de um molde.

Como ensinou o filósofo Hans-Georg Gadamer, nada é “clássico” de forma estática ou garantida. Uma obra só preserva esse status enquanto as gerações continuam a interpretá-la e a encontrar nela um sentido que dialogue com as aspirações do presente. Por isso, na nossa próxima matéria, vamos explorar a experiência do clássico em um campo surpreendente: a culinária. Veremos como o “saber fazer” e a busca pela proporção áurea saíram das academias para as cozinhas, provando que o paladar é, também, um instrumento de leitura da nossa história.

LEIA MAIS DE CULTURA E LAZER

QUER RECEBER NOTÍCIAS DE SANTA CRUZ DO SUL E REGIÃO NO SEU CELULAR? ENTRE NO NOSSO NOVO CANAL DO WHATSAPP CLICANDO AQUI 📲. AINDA NÃO É ASSINANTE GAZETA? CLIQUE AQUI E FAÇA AGORA!

Aviso de cookies

Nós utilizamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar sua experiência em nossos serviços, personalizar publicidade e recomendar conteúdos de seu interesse. Para saber mais, consulte a nossa Política de Privacidade.