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LITERATURA

Livro “O crime do bom nazista” será adaptado ao cinema; confira entrevista exclusiva com o autor

Aos 44 anos, Samir Machado de Machado firma seu nome na literatura brasileira | Foto: Paty Tessmann

O ano é 1933 e um Graf Zeppelin, na época um revolucionário e sofisticado equipamento de transporte aéreo, sobrevoa o litoral brasileiro, entre Recife e Rio de Janeiro, depois de cruzar o Atlântico, a partir da Alemanha. A bordo, um eclético grupo de homens e mulheres, ligado a variadas classes da sociedade, e ansiosos pelo clima tropical. No entanto, em contexto no qual o discurso (mais do que ele, a esfera de poder) nazista começa a ganhar terreno, um morto encontrado num banheiro do dirigível instaura inquietação, medo e desconfiança.

Entre os passageiros, Bruno Brückner, um policial criminal ligado ao comando nazista na Alemanha, será encarregado de investigar as circunstâncias, as motivações ou as causas do que pode tanto ter sido um suicídio quanto um assassinato. E a preocupação é de que o mistério esteja solucionado antes de o Zeppelin tocar o solo no Rio, para evitar maiores contratempos.

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Este é o mote de O crime do bom nazista, thriller inspirado em clássicos da literatura policial e de suspense elaborado pelo romancista gaúcho Samir Machado de Machado, porto-alegrense que tem no currículo prêmios relevantes na cena nacional e internacional por sua obra. Romance de curta extensão, surpreende o leitor com reviravoltas. O sucesso foi tal que os direitos de adaptação para o cinema foram adquiridos tão logo o livro chegou às livrarias, em 2023. O projeto terá como produtor Rodrigo Teixeira, que viabilizou o fenômeno Ainda Estou Aqui.

A definição do elenco apenas está em curso, mas Samir já comemora, e com razão, o efeito que a adaptação tende a ter como marketing para sua obra. Na qual Quatro soldados (2013), Homens elegantes (2016), Homens cordiais (2021) e o estupendo Tupinilândia (2018) se salientam.

Quando jovem, o porto-alegrense Samir Machado de Machado era fascinado pelos romances policiais e de suspense da inglesa Agatha Christie, e de outros autores desse gênero. Valorizou de tal forma a literatura que, formado em Publicidade e Propaganda pela PUCRS, tornou-se, alguns anos depois, ele próprio um escritor, aprimorando-se nas aulas da Oficina de Criação Literária do professor Luiz Antonio de Assis Brasil.

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Em meio aos estudos, também se aliou no esforço para a criação da Não Editora, pela qual lançou seu primeiro romance, O professor de botânica, em 2008. Mais adiante, vieram Quatro soldados e Homens elegantes, ambos lançados pela Rocco, sendo que por este último recebeu o Prêmio Açorianos de melhor romance. Da graduação seguiu para o mestrado em Criação Literária, e atualmente está em vias de defender a sua tese de doutoramento na PUCRS, em abril, sob orientação do professor Ricardo Kralik.

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Se o gosto pela leitura de thrillers o levou para a área da escrita, hoje vive de literatura. Além de sua obra autoral, ocupa-se de traduções, em especial justamente dos romances de Agatha Christie (o mais recente foi Um crime dormecido, em 2024), para a editora HarperCollins Brasil.

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No caso de O crime do bom nazista, que deve ser transformado em filme em breve, se a história se passa há quase um século, na década de 1930, o embate ideológico encenado revela-se muito atual. Entre as duas grandes guerras que envolveram as nações da Europa e outros países, um caldo de ressentimentos e de argumentos e justificativas polarizadas dominam a cena social. Sobre sua vida, produção e obra ele concedeu entrevista à Gazeta do Sul.

Entrevista – Samir Machado de Machado, escritor e tradutor

  • Teu romance O crime do bom nazista teve direitos adquiridos para a adaptação ao cinema, e deve ter como produtor Rodrigo Teixeira, de Ainda Estou Aqui. Qual a tua expectativa em torno desse processo? O Rodrigo havia comprado os direitos para adaptação no ano em que o livro saiu. Então, eu sabia que havia alguma possibilidade, ainda que entre ter os direitos vendidos e um filme de fato se materializar seja um grande passo. A RT Features produz excelentes adaptações, e minhas expectativas são as melhores possíveis.
  • Poderás ter alguma participação no roteiro, ou vais acompanhar isso à distância? Qual tua perspectiva nesse sentido? Não sei de nada a respeito, ainda. Uma adaptação é uma obra nova, o autor agora será o diretor. Se quiserem alguma participação minha no processo, fico à disposição.
  • Ainda que a história do romance se passe na década de 1930, em meio à ascensão do nazismo, a emergência de um discurso ou de atitudes fascistas torna tudo muito atual, contemporâneo, não é? O romance foi escrito durante o isolamento da pandemia, enquanto eu assistia ao então secretário de Cultura do governo Bolsonaro repetir um discurso de Goebbels – sem falar das inúmeras “coincidências” de discursos e políticas do governo Bolsonaro com discursos e políticas da Alemanha nazista. Então, me parece natural que isso tenha se refletido numa história sobre pessoas isoladas num espaço fechado, e cercada de nazistas.
  • A tua literatura tem um tanto de alegoria, que foi o caso de um cenário Disney em plena Amazônia em Tupinilândia, e as índoles de uma época agrupadas em um dirigível Zeppelin nos céus do Brasil na década de 1930. Teus livros envolvem muita pesquisa prévia, muita investigação? Meus livros nascem de uma soma de fatores. Primeiro, a vontade de habitar aquele mundo ou a época de modo ficcional; e segundo, uma reflexão sobre o motivo para que aquele mundo ou a época me atraiam. Isso acaba envolvendo uma boa dose de pesquisa que não é sempre histórica, mas também ficcional – outros livros, filmes, obras de ficção de modo geral, que também tenham abordado aquele tema ou aquela época, o que ela tinha a dizer sobre isso, e o que eu tenho a acrescentar sobre o tema. Então, acaba sendo uma pesquisa, sim, tanto histórica quanto criativa.
  • Para elaborar Tupinilândia, chegaste a fazer alguma pesquisa na região amazônica? Como foi o processo? A história se passa em várias partes do Brasil, e, embora eu conheça bem Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo, não tive a oportunidade de conhecer Belém do Pará. Mas o parque Tupinilândia é um espaço inteiramente ficcional, um resgate da memória cultural dos anos 80 no Brasil, especificamente da minha memória de uma infância nos anos 80, e todo o caos cognitivo daquela época. E isso eu conheci bem.
  • Por sua vez, no caso do Graf Zeppelin, foi divertido e instigante fazer a contextualização de época? Na realidade, não; pelo contrário. Escrever ficção é habitar um espaço ficcional por tanto tempo quanto durar a escrita. A ideia de embarcar e viajar num Zeppelin foi o que me atraiu na escrita, mas habitar aquele mundo da Alemanha nos anos 30, e toda a perseguição nazista aos homossexuais, pesquisar o que foi feito com gays enviados a campos de concentração, isso tudo enquanto tínhamos um governo que abertamente hostilizava políticas LGBTQ e imitava slogans e discursos nazistas, foi bastante pesado, de um ponto de vista criativo.
  • Hoje vives da escrita, da condição de escritor e tradutor? Como chegaste a esse patamar, em um país em que nem sempre a literatura é levada muito a sério? Cada escritor que conheci, que seja de alguma forma bem-sucedido na sua intenção de se tornar escritor, percorreu um caminho muito específico e que não é reproduzível. No meu caso, eu precisei fundar uma editora independente junto com amigos, organizar coletâneas e, claro, investir meu tempo e energia criativa na leitura e na pesquisa necessárias para escrever o tipo de romance que eu queria escrever. De resto, a gente escreve torcendo para que mais alguém goste do que escrevemos.
  • Tens um trabalho muito intenso de tradutor, com destaque para a obra de Agatha Christie. Ela é, também, uma de tuas influências? Na literatura policial ou investigativa, quem mais te agrada?Traduzir é, de certo modo, fazer uma engenharia reversa em texto alheio, destrinchar e analisar o funcionamento interno dos mecanismos do texto, como forma de transpô-lo para outra língua. A gente acaba adquirindo um entendimento maior de como aquele texto funciona, no processo. Agatha Christie acabou se tornando uma referência, justamente pelo meu trabalho como tradutor. Outro autor que admiro bastante é, naturalmente, Arthur Conan Doyle.
  • Corpos secos, em parceria com Luisa Gleiser, Marcelo Ferroni e Natália Borges Polesso, deve ter um segundo volume. Como vocês definem quem responde pelo que, ou se ocupa de que, nesse projeto? Nós criamos um processo onde cada um escolhe o personagem com o qual irá trabalhar, desenvolvemos uma narrativa independente com pontos em comum, e depois vamos conectando e intercalando os enredos. É bastante simples, na realidade. E uma forma que encontramos de trabalhar com mais liberdade.
  • A partir de teu O crime do bom nazista, um pequeno desafio de reflexão: o mundo de hoje, no Brasil e fora dele, não anda muito parecido com o que se descortinava para os personagens de teu romance em seu sobrevoo do Brasil? Todo romance histórico, na realidade, reflete mais sobre o tempo em que foi escrito do que sobre o tempo histórico que retrata. O crime do bom nazista foi escrito durante um governo de extrema-direita que abertamente hostilizava seus cidadãos que se identificassem como LGBTQ, dentre outras minorias; então, tornou-se natural que ele refletisse isso. O paralelo entre boisonarismo e nazismo não foi criado por mim. Foi criado pelo próprio bolsonarismo, que nunca fez questão de esconder suas similaridades ideológicas.
  • Tens esperança de dias melhores? Para que eles ocorram, o que achas que é preciso nessa nossa sociedade? Esperança eu tenho, embora creia que seja cada vez mais improvável. Vivemos o início de um feudalismo corporativo, e um bom começo seria começar a taxação de grandes fortunas. Outro seria regulamentar a internet.

Trecho do livro

Otto Klein era, enfim, todo aquele que se apegou a quem lhe fornecera um novo senso de pertencimento, de identidade, uma identidade que fosse unida pela devoção incondicional a um líder que havia ele mesmo feito da soma de seus fracassos um emblema de orgulho, em uma comunidade onde o conceito de ‘fanatismo’ era agora visto como uma qualidade positiva, sinônimo de heroísmo e virtude. Ele agora saberia quem era. Não estaria mais sozinho, pois seria parte de algo maior, uma causa que se tornava tão nobre que nenhum escrúpulo poderia se interpor no caminho dela: o expurgo e purificação de tudo que não fosse um reflexo de si mesmo e, portanto, enfraquecia sua nação: judeus, ciganos e eslavos, homossexuais e ‘degenerados’ em geral: e também os que eram velhos, os que eram fracos e todos os doentes mentais e pacientes psiquiátricos; e os comunistas, socialistas, anarquistas, pacifistas e todas as ideologias exceto a sua, que se tornaria então não mais uma ideologia, e sim a única verdade possível, a única identidade possível, que seria de tal modo amalgamada à identidade nacional até que fosse impossível separar o alemão do nazista, e tudo o que um não fosse, não seria o outro. Otto Klein não era ninguém e era muitos.
– E, contudo, não conseguem ser mais do que gângsteres – Jonas acrescentou, ao final. – Bandidos de bairro, golpistas de sarjetas e valentões de becos, agora elevados aos mais altos dos postos. Não consigo ver diferença entre eles e os mafiosos dos filmes americanos.
– Calma, homem, tudo isso ficou para trás – disse Willy.

Para ler

O CRIME DO BOM NAZISTA,
de Samir Machado de Machado.
São Paulo: Todavia, 2023.
128 p. R$ 72,90.

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