Entre 8 e 26 de abril, Porto Alegre recebe entusiastas do cinema fantástico de todo o mundo durante a 22ª edição do Fantaspoa, maior festival de cinema na América Latina dedicado ao gênero, exibindo fantasia, ficção científica, terror e suspense. As atividades ocorrem nos principais espaços culturais da capital gaúcha.
Serão exibidos 210 filmes nas telonas ao longo de 18 dias, entre curtas e longas de 40 países, incluindo produções nacionais, a maioria inéditos no Brasil. A programação não se limita à telona: haverá festas, oficinas com profissionais e sessões musicadas. Cerca de 60 convidados de diferentes nacionalidades estarão presentes para interagir com o público.
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Criado em 2005, o Fantaspoa mudou não apenas o cenário cultural gaúcho, mas também o nacional. E transformou Porto Alegre na meca do gênero, sendo reconhecido no exterior como um dos melhores festivais. Ao longo de duas décadas, o evento trouxe grandes nomes do cinema fantástico mundial e proporcionou aos fãs a oportunidade de conhecer e trocar ideias com seus ídolos. Consolidou-se ainda como espaço para filmes independentes serem exibidos na telona.
À frente do evento está João Pedro Fleck, que, ao lado do amigo Nicolas Tonsho, dirige o evento desde o início. Em entrevista ao Magazine, Fleck fala sobre o impacto do Fantaspoa e evidencia como o festival se diferencia dos demais.
Entrevista com João Pedro Fleck, diretor geral e produtor executivo do Fantaspoa

O clássico Carrie, A Estranha, que completa 50 anos, foi escolhido como filme homenageado desta edição. Quais critérios motivaram essa escolha e como a obra dialoga com a proposta do festival em 2026?
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No fim do Fantaspoa 2025, discutimos qual seria o filme homenageado. Há alguns anos trabalhamos com as efemérides. E eu queria trabalhar com o Fausto, clássico do cinema fantástico, do F.W. Murnau, que completa 100 anos em 2026. Mas a Elizabeth Schuch, diretora de arte, argumentou que não poderíamos perder a efeméride de 50 anos de Carrie, A Estranha, que é um dos filmes mais icônicos (e para muitos, o melhor filme) do Brian De Palma.
E tem imagens muito icônicas que dialogam com o festival, já que neste ano vamos realizar não apenas a exibição do filme, mas também um baile de formatura da Carrie. Então trouxemos esses elementos que contribuem para a linguagem que estamos trazendo ao festival a partir das efemérides. Em 2025, exibimos Rocky Horror Picture Show, em comemoração aos 50 anos, e fizemos uma sessão clássica, com o público cantando e encenando enquanto o filme passava. Os ingressos esgotaram. Muitos foram vestidos e saíram de lá direto para a festa temática. Entendemos que é mais do que apenas organizar o festival, ao qual dedicamos de nove a dez meses intensos de curadoria, mas trazer esses elementos que conectem com outros momentos do Fantaspoa.
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O festival já homenageou nomes importantes do cinema fantástico. Algum encontro que tenha sido particularmente marcante?
Algumas pessoas acabaram se tornando importantes na minha vida. Dois deles são os cineastas italianos Luigi Cozzi e Ruggero Deodato. Ambos tornaram-se figuras muito marcantes no festival. Não só vieram para o festival, mas também fizemos documentários sobre a vida deles, que acabaram tendo uma importância muito grande na nossa história e na história da vida deles. Conseguimos fazer com que esses documentários fossem lançados comercialmente.
O diretor italiano Ruggero Deodato, que faleceu quatro anos atrás, teve um filme dedicado à sua carreira, Deodato Holocaust, que foi dirigido pelo Felipe M. Guerra. Um trabalho feito com menos de US$ 5 mil, que foi lançado na Alemanha em uma edição especial limitada, com um livro de 50 páginas, com 500 unidades. Ele foi exibido em mais de 20 países. Também realizamos o FantastiCozzi, também do Guerra, dedicado ao diretor italiano Luigi Cozzi. E isso era uma coisa impensável para nós quando começamos o festival.
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A tua história com os cineastas é a de muitos fãs que têm a oportunidade de conhecer os seus ídolos durante o festival…
Talvez esse seja o principal diferencial do Fantaspoa. Estive em muitos festivais na minha vida e, infelizmente, na minha opinião, a maioria deles cria uma barreira entre o realizador, a imprensa e os espectadores. Não é que nós ignoramos a cobertura midiática, mas para mim o festival tem que ser feito para os fãs de cinema. Faço o festival como eu gostaria que fizessem para mim. E a maneira como nós fazemos permite que cineastas e público se conectem, eu nunca vi isso em nenhum festival.
Não temos nenhum tipo de filtro; quando acaba uma sessão, qualquer pessoa pode levantar a mão e fazer uma pergunta, sem nenhum tipo de julgamento. O que eu acho interessante é que damos voz ao público de maneira como não vejo nenhum outro evento fazer, e isso cria uma conexão no final da sessão. A pessoa que pode não ter gostado do filme passa a apreciar mais por causa do papo que bateu com o diretor. Há cineastas que muitas vezes estão lançando seu primeiro filme, e vai haver gente pedindo para tirar foto ou autógrafo. É um momento muito bonito que o Fantaspoa proporciona.
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O festival também se consolidou como uma vitrine para produções brasileiras do gênero fantástico. De que forma essa atuação contribui para o fortalecimento do cinema nacional?
Historicamente, nos primeiros anos do Fantaspoa, o Brasil vinha em um processo de retomada após acabarem com a Embrafilme, que era responsável por cerca de 95% da produção cinematográfica brasileira. Após um hiato de cinco anos, ocorre a retomada do cinema brasileiro, marcada por Carlota Joaquina, com a realização de poucos filmes, aumentando ano após ano.
Quando começamos o festival, não havia filmes do gênero fantástico nacionais. A partir de 2008 havia quatro, incluindo Encarnação do Demônio, do Zé do Caixão, e Mangue Negro, do Rodrigo Aragão. Foi no Fantaspoa que o Aragão foi apresentado ao mundo. E chegamos a 2026 com mais de 50 inscrições de longas-metragens de gêneros feitos no Brasil. Uma parte desses filmes seria feita de qualquer maneira, mas é inegável a participação do Fantaspoa e dos outros festivais que surgiram, para que o cinema de gênero brasileiro fosse bem-visto internacionalmente.
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O cinema fantástico ainda enfrenta certo preconceito crítico e de público. Qual tem sido o papel do Fantaspoa na valorização do gênero e na formação de audiências?
As duas perguntas estão muito conectadas. As pessoas que não conhecem podem pensar no Fantaspoa como um festival de cinema de horror. Houve quem achou que, por se chamar Fantaspoa, era, na verdade, um festival dedicado ao cinema de fantasmas.
Mas o Fantaspoa não é um festival de filmes de fantasmas. Também não é um festival de cinema de horror. Nós somos um festival de cinema fantástico. É fantasia, horror e ficção científica. Abarca também animações, dramas que fogem da realidade, ação, suspense. Temos uma mente muito aberta para o que é o cinema fantástico.
E as pessoas não se dão conta: muitas vezes, os maiores sucessos de bilheteria da história do cinema pertencem ao gênero. Boa parte dos filmes do Stanley Kubrick, um dos maiores cineastas da história, são do fantástico. O Fantaspoa trata de todo esse mundo que foge do que é cotidiano. Então, a principal coisa que o Fantaspoa proporciona é a possibilidade de abrir a mente dos espectadores com uma cinematografia diferente.
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