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REPORTAGEM ESPECIAL

Na terra de Mequinho: xadrez pulsa e encanta jovens em Santa Cruz

Foto: Rodrigo Assmann

Na terra que viu surgir o maior mestre de todos os tempos do enxadrismo nacional, muitos adeptos e praticantes continuam levando adiante a modalidade

Santa Cruz do Sul é berço do maior enxadrista brasileiro de todos os tempos. Trata-se de Henrique Costa Mecking, o Mequinho, que nasceu em 23 de janeiro de 1952. Filho de Paulo Hugo e Maria José Mecking, o santa-cruzense foi cativado pelo xadrez ainda cedo. 

O ápice da trajetória ocorreu nos anos 1970, quando alcançou o terceiro lugar no ranking global, apontado como candidato ao título de campeão do mundo e enfrentando de igual para igual os mestres da época. Contudo, Mequinho acabou recuando no melhor momento de sua carreira e abandonou um torneio em pleno andamento, ficando mais de uma década longe das competições.

O motivo: foi diagnosticado com miastenia grave, doença que compromete o sistema nervoso e os músculos. Durante o tratamento, encontrou apoio espiritual na Renovação Carismática Católica. Após se dizer praticamente curado, retornou ao seu esporte predileto em 1991, e de novo com ótimos resultados. 

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Há quase quatro décadas radicado em Taubaté, cidade de 322 mil habitantes, a 130 quilômetros de São Paulo, Mequinho continua a disputar xadrez, e segue imbatível.

Em 2026, a trajetória do enxadrista santa-cruzense foi registrada no livro Entre bispos e reis: a trajetória de Mequinho, um gênio brasileiro do xadrez, escrito pelo jornalista paulista Uirá Machado, integrante da equipe da Folha de S. Paulo, e publicado pela Todavia. Em 496 páginas, o volume narra os principais fatos associados à caminhada de Mecking no esporte.

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Nesta reportagem especial, a Gazeta do Sul mostra que o xadrez continua vivo na terra do Mequinho. Iniciativas contribuem para formar uma nova geração de praticantes, que se destacam em âmbito internacional e se mostram apaixonados pela modalidade.

Inspirados pela tradição e benefícios, estudantes mostram talento e habilidade | Foto: Rodrigo Assmann

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Aos 12 anos, Maria Eduarda acumula vitórias

O xadrez tem um significado especial na vida da santa-cruzense Maria Eduarda Tischler Lema Garcia. Aos 12 anos, a jovem acumula uma série de conquistas no esporte, tornando-se uma referência nacional por suas vitórias.

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O interesse pelo tabuleiro começou cedo, aos 4 anos. Passeando pela casa, viu o pai, o juiz federal Eduardo Vandré Lema Garcia, jogando xadrez no celular. Ficou interessada e pediu para ele ensiná-la. A partir disso, criaram uma tradição: todo dia ela descia as escadas e ia correndo para jogar com o pai, sendo um momento de convivência familiar. “Era a nossa diversão, aprendi muito”, afirma Maria Eduarda.

Foi questão de tempo até uma professora enxergar o potencial da aluna do Colégio Mauá e participar da primeira competição, o Floripa Chess Open, no qual conquistou o primeiro lugar, aos 7 anos. Com o passar dos anos, a enxadrista tornou-se campeã gaúcha, bicampeã brasileira, campeã sul-americana, duas vezes vice-campeã sul-americana e vice-campeã pan-americana.

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Foi durante o campeonato brasileiro que Maria Eduarda deu-se conta de seu alto nível competitivo. “Foi ali que eu percebi que talvez eu jogasse bem”, salienta.

Na avaliação de Maria, os seus resultados podem ser atribuídos a três fatores principais: a consistência nos treinamentos; a experiência acumulada em competições; e o controle psicológico, especialmente para as partidas longas, que podem durar até cinco horas.

Além de viver novas experiências e conhecer novos lugares e pessoas, o xadrez, segundo a jovem, contribuiu para melhoria de foco, concentração, desenvolvimento cognitivo e memória. E ressalta que a atenção exigida durante as partidas ajuda a combater a dispersão causada pelo excesso de estímulos digitais.

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“Temos muitos estímulos nas redes sociais, ainda mais com o algoritmo infinito. E o xadrez te leva a focar e se concentrar, exercitando o cérebro. Ele vai te agradecer”, destaca Maria Eduarda.

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Para a enxadrista, o esporte ensina mais do que estratégias e aberturas: mostra como lidar com escolhas e, principalmente, com as consequências de cada uma delas. Ela conta que já viveu os dois lados do tabuleiro: vitórias contra adversárias que jogaram bem, mas erraram no momento decisivo, e derrotas em partidas nas quais acreditava ter feito tudo certo. “Às vezes, o jogo pode estar ganho, mas uma única decisão pode mudar completamente o rumo da partida”, observa. 

Apesar de ter várias inspirações no esporte, a jovem se orgulha por viver na mesma terra de Mequinho, o maior jogador brasileiro. “Viver na mesma terra em que ele nasceu é ótimo. Mas não é isso que vai me fazer chegar até o topo. Para chegar aonde ele chegou, vou ter que treinar e me esforçar cada vez mais”, admite.

Maria Eduarda mira um objetivo claro e ambicioso: alcançar a titulação mais alta do xadrez, o posto de grande mestre. O caminho exige desempenho consistente, rating elevado e resultados em torneios fortes, além de normas internacionais conquistadas ao longo da carreira. “O grande mestre é a titulação máxima. Tem uma série de requisitos, desde a classificação e o desempenho em torneios grandes”, detalha. Considerando a paciência, a determinação e a disciplina, o sonho da santa-cruzense pode se tornar concreto.

Maria Eduarda tornou-se campeã sul-americana | Foto: Arquivo pessoal

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Modalidade cativa alunos no Mauá

Concentrar, pensar e refletir. As três palavras ganham destaque na sala de aula voltada para o ensino de xadrez no Colégio Mauá. A atividade ocorre quatro vezes por semana pela manhã e à tarde, no turno inverso. 

Junto a diversos tabuleiros, livros e computadores, além da sala decorada por peças em grande escala, o professor Flávio Henrique Schedler ensina estratégias para os estudantes. De lá saíram, nas duas últimas décadas, diversos enxadristas que se destacaram com títulos escolares e adultos, em níveis estadual, nacional e até em competições internacionais.

Na avaliação do coordenador, a prática contribui com memória, concentração, planejamento, tomadas de decisões e socioemocional para desenvoltura e amizades. Além disso, certos momentos da atividade levam os jovens a comparar situações do jogo com a vida real, contribuindo para enfrentar desafios do cotidiano. “No entanto, esses benefícios não garantem totalmente sua manutenção, há que se ter disciplina para conservá-los”, afirma.

O xadrez constitui uma importante ferramenta educacional, auxiliando no planejamento e na formação dos estudantes | Foto: Rodrigo Assmann

Estudantes do 7º ano do Ensino Fundamental, Rafael Lírio Ferreira e Arthur Della Flora Camargo, ambos com 12 anos, participaram de diversos campeonatos. Para a dupla, o grande benefício do xadrez está na formação da lógica, contribuindo no raciocínio rápido e na elaboração de estratégias.

Rafael e Arthur: raciocínio rápido e elaboração de estratégia | Foto: Rodrigo Assmann

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Na condição de coordenador do departamento de xadrez, Schedler destaca que a prática da modalidade contribui para o desenvolvimento de diversas habilidades entre os alunos. Segundo ele, embora muitos dos benefícios do xadrez sejam frequentemente associados ao desempenho acadêmico, o principal impacto ocorre no aprimoramento do próprio jogo, estimulando os jovens a buscarem maior profundidade e excelência também em outras áreas do conhecimento. “A maioria desses benefícios elevam seu jogo de xadrez em particular, fazendo com que nas demais disciplinas também se busque a maestria da profundidade lá estudada”, afirma Schedler.

Segundo ele, um dos principais objetivos do trabalho desenvolvido na escola é promover a integração e o desenvolvimento lúdico dos participantes. Além disso, a iniciativa busca estimular a criatividade e a construção de pensamentos competitivos por meio da análise de estatísticas e estratégias do esporte. Em seu entender, o xadrez também se apresenta como importante ferramenta educacional, auxiliando no planejamento e na formação dos estudantes.

A missão: formar novos talentos

Ao comentar a formação de novos talentos, Flávio Henrique Schedler observa que o desempenho esportivo está ligado tanto ao talento quanto ao esforço individual. No entanto, ressalta que o crescimento de jovens promessas depende de investimentos públicos e privados, especialmente para viabilizar a participação em competições nacionais e internacionais, além de cobrir despesas com treinadores e credenciamentos. “Há um trabalho lento ainda da federação em promover o apoio integral para tornar atletas promissores em gigantes profissionais, como mostra o modelo europeu”, avalia.

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Apesar dos desafios, o coordenador mantém o otimismo em relação ao futuro da modalidade. Segundo ele, permanece viva a expectativa de contribuir para o surgimento de um enxadrista brasileiro de destaque mundial, sem deixar de valorizar quem pratica o esporte apenas por diversão e integração. “Nossa esperança em colaborar para uma nova figura mundial no xadrez sempre continua acesa, sem deixar de lado aqueles que também encontram a diversão da prática amistosa, sem compromisso.”

Schedler se diz otimista quanto ao futuro da modalidade | Foto: Rodrigo Assmann

Xadrez na Biblioteca

Uma importante iniciativa histórica do município é o Xadrez na Biblioteca. Criada pelo bibliotecário Jair Teves em 2001, quando assumiu o posto na Biblioteca Municipal, a ação tem uma missão simples e ambiciosa: aproximar a população dos livros por meio do jogo. “A intenção foi convidar pessoas que queriam aprender o jogo mas não tinham hábito de leitura e, muito menos, de leitura sistemática”, conta. 

A aposta de Teves era de que o xadrez funcionasse como porta de entrada ao universo literário. O resultado superou as expectativas: o projeto cresceu de forma natural, passando a reunir públicos diversos e criando espaço de convivência cultural. “Estudantes, aposentados, pessoas com baixa visão ou cegas, surdos e cadeirantes… Todos se mesclaram. Isso foi uma surpresa para todos os envolvidos”, salienta. 

Com o aumento da procura, a biblioteca passou a investir em tabuleiros adaptados para pessoas com dificuldade de visão, ressaltando o caráter inclusivo da atividade. Com o decorrer dos anos, o projeto ganhou reconhecimento, sendo celebrado no Carnaval 2008 pela escola Imperatriz do Sol, o que reforçou a visibilidade cultural do xadrez.

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Para Teves, um dos episódios mais simbólicos do projeto foi a presença do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro na Feira do Livro de 2010. Na ocasião, o patrono destacou a iniciativa por integrar o xadrez e a literatura. “Essa fala eliminou as críticas ao xadrez na Feira do Livro, bem como na própria biblioteca”, recorda. Seu empenho em favor dos livros (e da valorização do xadrez) foi tamanho que Teves foi escolhido como a personalidade incentivadora da leitura na Feira do Livro de 2026 em Santa Cruz do Sul.

Hoje, o impacto do projeto é medido pelas trajetórias que ajudou a moldar. Centenas de pessoas passaram pela iniciativa, algumas tornando-se professores de xadrez e outras seguindo carreiras diversas, da área da saúde ao setor financeiro. “Alguns alunos de escola pública passaram a integrar bancos e multinacionais, onde relatam que o xadrez propiciou o sucesso”, afirma. Lembra ainda que o projeto ultrapassou fronteiras, com pedidos de orientação até de Moçambique.

Jair Teves é um dos entusiastas do xadrez em âmbito de Santa Cruz | Foto: Rodrigo Assmann

Legado que inspira

Henrique Costa Mecking, o Mequinho, segue como uma das principais referências quando o assunto é xadrez, despertando a curiosidade entre os estudantes. Nas aulas no Colégio Mauá, o professor Flávio Henrique Schedler apresenta à nova geração o legado do enxadrista, sobretudo ao analisar as partidas. Muitas vezes, ele utiliza comentários de criadores de conteúdo nas redes sociais, aproximando o passado da linguagem atual dos jovens.

Apesar de os jovens se conectarem mais com nomes contemporâneos do xadrez, por meio dos conteúdos produzidos para a internet, Mequinho mantém uma força simbólica. E sua trajetória ainda serve como porta de entrada para os alunos.

Na avaliação do coordenador do Mauá, para que Santa Cruz continue a ser referência e forme novos talentos, é necessário um investimento estruturado, com apoio governamental e privado para que os jovens tenham acesso a torneios, treinadores e credenciamentos em nível nacional e internacional. E ele mantém otimismo ao dizer que é possível surgir um novo nome de projeção mundial no xadrez brasileiro, além de evidenciar o valor da prática como atividade de formação e de lazer.

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