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ELENOR SCHNEIDER

Nas férteis várzeas do Castelhano

No final da década de 1980, foi implantado o Ensino Médio na Escola Estadual de Monte Alverne. O Delegado de Educação (hoje denominado Coordenador) era o professor Lauro Tornquist, apoiador entusiasta da instalação. Um pouco antes houvera um concurso para professor estadual. Lauro chamou os primeiros colocados de todas as áreas e nos desafiou a sermos os professores do curso que iniciaria em 1989. Fomos lá, olhamos e aceitamos a empreitada. O asfalto terminava em Linha Santa Cruz, depois era pó em tempo seco, barro em tempos de chuva. Além das 42 curvas, segundo uma nossa contagem, que moram na estrada, hoje asfaltada.

Confesso que foi uma das minhas mais valiosas vivências como professor. Fiquei apenas dois anos, mas tempo suficiente para gravar na alma as melhores recordações. E não faltaram aventuras, incidentes, promoções sociais e culturais, muita aprendizagem, amizades que perduram até hoje.

Quem do nosso grupo não tinha a aula das 11 horas, ia para a cozinha preparar o almoço. Nunca me esqueço de que um dia promovi um estrogonofe. A cozinheira da escola veio ver como se fazia, pois queria aprender. Não sei se ensinei, mas a Frau Focking é uma figura que merece ficar na história da escola. Outro dia, fritando bifes, o fogo saltou para dentro da frigideira. A colega Maria Helena Boufleur comemorou o bife flambado. Eu queria mesmo que a cozinha não pegasse fogo.

Há muitas histórias engraçadas que vivemos nesse tempo. Ainda vou retomar algumas em outro momento. Hoje quero me ater a um episódio que teima em não desabitar minha memória. Ao contrário dos caminhões e carros que usam fundo falso para transportar drogas, aqui o fundo é verdadeiro, mas os floreios em torno dele fazem parte da licença poética.

As várzeas do Castelhano em Monte Alverne são muito férteis. O milharal viçoso se estende em lençóis verdes e exuberantes. Mas, faz calor naquele vale encantado e as águas do pequeno rio se tornam tentadoras. Numa tarde de calor escaldante, sumiram alguns alunos da escola. Após rápidas conjeturas, o diagnóstico não deu outra: foram para o Castelhano!

Sem delongas, um grupo de professoras, qual pelotão do exército da salvação, marchou a passo firme, decidido em busca dos fugitivos. O salto alto afundava na terra fofa, mas isso era o de menos, não vinha ao caso. O importante era resgatar esses atrevidos e escrever uma história esmagadora, irretocável, gloriosa.

De longe, ouviram o alarido feliz da gurizada, ficaram satisfeitas por terem acertado a hipótese e foram direto ao ponto. Qual cardume de lambaris, os guris riam, saltavam, mergulhavam, refrescando não apenas o corpo, mas introjetando uma imbatível e memorável alegria na alma. 

A felicidade arrefeceu quando viram aquele pequeno exército declamando ameaças e reprovações. Voltaram correndo, driblando habilmente os pés de milho, mas principalmente se afastando do perigoso esquadrão. De volta à sala de aula, dava para ver as orelhas um pouco murchas, mas também para perceber o olhar maroto de quem escreveu uma história que tinha tudo para sobreviver por gerações sem fim.

Enquanto isso, o pelotão de resgate retornava. Como não tinham levado estandarte, cada uma arrancou um pendão de milho, erguendo-o alto, marchando com decisão escola adentro e assinando mais uma jornada exitosa de cruzada.

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