Se você esteve neste planeta nos últimos meses, em algum momento esbarrou nas discussões sobre o que se convencionou chamar de “inteligência artificial”. No meu modo de ver, assim mesmo, entre aspas. De uma novidade quase banal, no máximo curiosa, passou rápido à condição de estar colada a tudo: curso com IA, monitoramento com IA, computador com IA, portaria de condomínio com IA… A lista é grande. A forma como adotamos quase sem crítica uma tecnologia gestada longe de nós, em laboratórios de empresas desconhecidas – obscuras até, por alguns critérios –, fala muito sobre o que nos tornamos. Algo negativo, infelizmente.
Certamente há muitos aspectos que podemos avaliar sobre o uso desta tecnologia. Mas note: a maior parte da discussão tem sido sobre aspectos econômicos – vender mais, produzir gastando menos –, e muito pouco sobre se devemos mesmo nos render a ela, pensando a partir de uma perspectiva humana.
Sempre gostei da definição do escritor inglês Thomas Carlyle sobre o que é um ser humano: “É um animal que utiliza ferramentas.” Lembro com alguma imprecisão o que ele disse – e não vou usar IA para descobrir as palavras certas –, mas era algo sobre nossa fraqueza física, nos equilibrando em uma base pequena, à mercê de sermos levados até por um vento forte. Mas o que nos diferencia? O uso de ferramentas. Em nenhum lugar, segundo ele, se verá uma pessoa desprovida delas.
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Mas aos poucos a IA está deixando de ser ferramenta e passando a agente que assume nossas atividades. Ou seja, nos substitui. Por que achamos isso normal, uma consequência da “evolução”? Para além da perspectiva econômica, de afetar o mundo do trabalho, não haveria uma dimensão mais importante que deveríamos preservar? Não deveria nos perturbar o fato de uma máquina fazer o que antes era atividade puramente humana? Primeiro substituímos o trabalho braçal; agora, sorrindo, vamos dando cabo do trabalho mental.
Fico imaginando, nessas divagações, como tem sido a vida de professores, por exemplo, sua luta para saber se o trabalho de um aluno é dele mesmo ou feito por IA. Não deixa, aliás, de ser o mesmo desafio enfrentado na área da comunicação. Acredito que a expectativa de quem consome notícias é que o conteúdo tenha sido feito por humanos. Mas isso é garantido, hoje em dia? Como saber se já não passamos do uso da IA como um auxiliar que nos apoia no trabalho para um subterfúgio que reduz nosso custo – especialmente em tempo –, mas engana o público?
Espero que em algum momento os debates sobre IA se detenham menos na lógica do consumo, que só vê dinheiro, e mais na licitude de entregar nossa humanidade a máquinas. Por isso o título deste singelo artigo, inspirado em uma passagem bíblica: “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém.” Posso “subcontratar” a IA para me fazer coisas e até pensar por mim, mas será que devo? Acho que não.
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