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RICARDO DÜREN

O caso da panela elétrica

A coluna de hoje se propõe a ser muito edificante. Vai trazer uma história inusitada, talvez um pouco infeliz, mas repleta de ensinamentos que o amigo leitor poderá levar para sua vida.

Essa história começa há cinco ou seis semanas, quando nossa panela elétrica de arroz, após vários anos de incansáveis serviços para garantir parte importante da alimentação do povo lá de casa, rendeu-se. A panela queimou, farta de sua rotina extenuante, sem deixar possibilidade de um conserto e impondo-nos um desafio: encontrar uma substituta.

Ocorre que, desde a compra dessa panela guerreira, os valores desse equipamento quase triplicaram. Fomos em busca de promoções e ofertas, sem sucesso. Enquanto isso, seguimos nos virando à moda antiga, cozinhando em uma panela convencional, atividade que exige constante vigilância para não queimar o arroz, e o pior: demanda um grande gasto de gás. A compra de uma panela elétrica nova passou a impor-se como uma urgência.

Então, dias atrás, fomos surpreendidos por uma oferta irresistível. Estávamos em determinado estabelecimento, em busca de outros produtos, quando nos deparamos acidentalmente com uma promoção que beirava o inverossímil: uma panela de arroz por um terço do valor. E não era tudo. A panela ainda vinha em um combo, com um liquidificador turbo, repleto de acessórios e recursos que nunca antes tínhamos visto.

Foi um momento de incontida euforia, que não deu margem para maiores reflexões. Peguei a caixa com os apetrechos, passei no caixa apressado – como que com medo de que o gerente mudasse de ideia repentinamente – e fomos embora com nossa almejada aquisição, ansiosos por inaugurá-la. No caminho, a Patrícia já veio planejando toda sorte de receitas, pois a panela, além de cozinhar arroz, também tinha um recipiente para refogados. Mal chegamos em casa e minha esposa já estava às voltas com o equipamento, adicionando o arroz, picando brócolis e couve-flor para refogar. E então, finalmente ligou a panela na tomada.

Ao cabo de alguns segundos, a panela começou a exalar um forte odor de plástico queimado. Recém-curada da Covid, ainda sem olfato, a Patrícia não percebeu nada e seguiu admirando nossa aquisição, como que hipnotizada pela panela nova. Quando entrei na cozinha e senti o cheiro, vi que alguma coisa estava errada e alertei-a. Mas minha esposa fez pouco caso, alegou que deveria ser algo comum no primeiro uso. Até que a panela simplesmente desligou, inerte, para decepção das gurias.

– Então não teremos arroz soltinho esta noite? – queixou-se a caçula, Ágatha. – Vai ser arroz grudado de novo?
Sim, o arroz soltinho da panela elétrica teria que esperar.

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No dia seguinte, retornei ao estabelecimento para fazer a troca e fui surpreendido por uma inesperada pergunta de uma das vendedoras:
– O senhor percebeu que essa panela é para 127 volts, não?
E aqui vem a primeira lição da coluna de hoje: é preciso sempre checar a tensão elétrica dos equipamentos recém-adquiridos antes de ligá-los.

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A pergunta da vendedora atingiu-me como uma punhalada. Ainda em choque, segui-a até o expositor do produto, onde um cartaz avisava: “Saldão – 127v”. Eu simplesmente não tinha visto aquele cartaz em meio ao entusiasmo da compra e a culpa, teoricamente, era minha. Mas não dei-me por vencido e passei a elencar uma série de argumentos em minha defesa: aleguei que jamais poderia-se vender um produto de 127 volts em uma região abastecida por tensão de 220 volts, que isso poderia até mesmo ter causado uma tragédia, que o cliente sempre tem razão, mas não o encargo de ater-se a cartazes, e que ninguém havia me alertado para aquele detalhe na hora da compra. Meu argumento derradeiro foi que o cliente não tem obrigação de entender de eletricidade.

A conversa foi longa. As vendedoras entreolharam-se e, penso eu, devem ter concluído: “Esse aí é um mula kopf, um alemão cabeça-dura que não vai deixar-nos em paz”. E, por fim, saí da loja com a panela substituída e com um aviso:
– O transformador é por sua conta.
Voltei para casa com a sensação de dever cumprido, orgulhoso de meu mulakopfismo. E aqui, creio eu, entra a segunda lição desta coluna: um pouco de teimosia faz bem em negociações como essa, desde que o debate siga as regras da boa educação. Não se pode desistir sem lutar. Mas
voltei também com uma missão: arrumar um transformador.

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Imaginava que um transformador pequeno, desses que custam uns R$ 50,00, daria conta do recado. Ainda valeria a pena. Mas então tive outra ideia: fazer uma gambiarra aproveitando um antigo estabilizador, parado lá em casa desde que o computador de mesa – também velho – pifou. Lembrei-me que o estabilizador também converte a tensão elétrica de 220 para 127. O que poderia dar errado? Mas a Patrícia, sempre desconfiada de minha sapiência em assuntos técnicos, ficou com um pé atrás e sugeriu:
– Quem sabe pede umas dicas para o compadre Lúcio…

O compadre Lúcio, além de padrinho da Isadora e marido da comadre Adriana, é doutor em Engenharia Elétrica e professor da Unisinos. Resolvi falar com ele, só para tranquilizar a Patrícia. Mas então o compadre me alertou para um detalhe que vinha me escapando: não basta considerar a tensão dos equipamentos, mas também a potência. O estabilizador de míseros 300 watts não daria conta do recado, considerando que a panela exige 400 watts e o superliquidificador, com motor turbo e todos aqueles acessórios, 900 watts. E um transformador de R$ 50,00 seria trucidado por esses apetrechos.

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Em resumo, para não colocar a panela e o liquidificador no lixo, tive que gastar mais R$ 150,00 em um transformador
mais potente e a cozinha ganhou um novo acessório, não muito do agrado da Patrícia – no caso, o próprio transformador. No fim das contas, a oferta não valeu muito a pena, mas proporcionou-me um novo aprendizado, que entra como a terceira lição desta coluna: gambiarras com eletricidade, nem pensar.


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