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Ricardo Düren

O caso dos 42 cavalos

Os leitores mais assíduos desta coluna já sabem da admiração que nossa caçula, Ágatha, nutre por cavalos. Sua simpatia pelos equinos é tanta, que enquanto as irmãs colecionam ursinhos, Ágatha mantém sobre a cama uma dezena de cavalinhos e unicórnios de pelúcia; e também já desenhou e pintou um cavalo na parede de seu quarto, aproveitando-se de um momento de distração nossa.

Isso não é tudo. Ágatha planeja dedicar a vida adulta às cavalgadas, sonha em desbravar coxilhas, atravessar planícies e desafiar córregos no lombo bem selado de um possante zaino frente aberta. Mas sem mango e esporas, pois considera maldade o uso de tais apetrechos.

Qual não foi, portanto, sua tristeza ao ouvir da irmã mais velha, a Isadora, uma história sinistra sobre 42 cavalos que teriam congelado em um lago do Cazaquistão. Isadora, que ficou sabendo do suposto incidente em um canal de curiosidades do YouTube, não poupou detalhes ao descrever a tragédia.

– Os cavalos andavam sobre um lago congelado quando o gelo se rompeu. Todos caíram na água e congelaram também. A polícia imaginou que haviam sido roubados e só os encontrou seis meses depois, no lago. Mas então já era tarde demais…

Ágatha, contudo, não quis acreditar em tamanha desgraça.

– Isso é fake news! – decretou. Mas Isadora insistiu na história.

– No vídeo aparece uma foto que mostra como os cavalos ficaram, só com as cabeças para fora do gelo. A caçula, porém, continuou sem acreditar.

– Tem certeza que eram cavalos de verdade na foto? – quis saber.

– Não seriam estátuas de cabeças de cavalo, deixadas sobre o gelo?

– Nãooo. Eram cavalos de verdade… – e passou a enumerar outras desgraças parecidas, ocorridas com alces, raposas e peixes, em lugares de frio rigoroso.

Naquela noite, Ágatha foi dormir abatida com a história dos cavalos congelados e eu decidi investigar o caso no dia seguinte. Até encontrei o vídeo no YouTube, mas, fora ele, nenhuma outra notícia sobre o incidente. Fiz buscas usando palavras-chave em português e inglês, contudo, nenhuma linha sobre os 42 cavalos congelados apareceu, nem em portais jornalísticos, nem mesmo em sites pouco confiáveis. Nada, nada.

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Tentei então nova busca, desta vez usando as palavras-chave em cazaque, o idioma do Cazaquistão, e em russo, a segunda língua oficial do país (claro que não sei falar em russo, muito menos em cazaque. Para isso existe o Google Tradutor).

Mais uma vez, nem sinal do incidente e, com isso, passei a dar razão a Ágatha: possivelmente trata-se de fake news. Tomara.

Fui então compartilhar com a caçula minhas impressões, e ela, já mais tranquila, desdenhou de meus esforços investigativos.

– Nem precisava ter se dado ao trabalho – disse. – É óbvio que os cavalos, que são bichos muito inteligentes, jamais se arriscariam sobre um lago congelado.

Além disso, não existem cavalos nesses lugares tão frios. Só pinguins e leões marinhos…

Claro que, nesse aspecto, a traquinas está redondamente equivocada. Sabe-se que no Cazaquistão – onde as temperaturas podem baixar a 20 graus negativos – há cavalos, muitos cavalos. E são de lá os mais antigos indícios arqueológicos da relação de amizade e companheirismo entre o homem e o equino. Há 5,5 mil anos, as tribos nômades de lá já cavalgavam sobre as estepes e (pasmem) tinham no leite ordenhado das éguas uma rica fonte de proteínas. A domesticação dos cavalos possibilitou a essas tribos a expansão pelo território e, entre os arqueólogos mais ousados, há quem considere os nômades cazaques os ancestrais dos antigos indo-europeus – povos que deram origem à grande maioria das línguas faladas no planeta, inclusive o nosso português.

Ou seja, se hoje podemos bater um papinho tranquilo, entre um cafezinho e outro, com o amparo de nosso idioma riquíssimo em sinônimos, advérbios e conjunções, talvez seja por mérito, também, de um guerreiro cazaque que, imponente em seu traje de peles, decidiu desbravar o mundo no lombo de seu fiel companheiro, o cavalo. O que também dá mostras da relevância dele – do cavalo – na expansão e desenvolvimento de nossas civilizações. É pena que tal importância, e a fidelidade que o cavalo sempre demonstra para com seu tutor, nem sempre sejam valorizadas, como sugerem os inúmeros casos de maus-tratos que, cotidianamente, nos surpreendem.

E quanto à Ágatha, torço para que mantenha, na vida adulta, o amor e respeito que sente por esses animais incríveis, pois eles merecem. E que a história dos 42 cavalos congelados no Cazaquistão seja mesmo só uma conversa para boi dormir.

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