Não é um problema novo, longe disso. O escritor baiano João Ubaldo Ribeiro foi direto ao ponto já no título de uma crônica publicada em 2004: “Nós somos mesmo é um bando de ladrões”. Não disse “eles”, como quem aponta o dedo para um grupo específico de malfeitores – a categoria X, o partido Y, “aquela gente” Z. Negativo, é “nós” mesmo, porque a corrupção brota em qualquer canto, não é exclusividade de segmento nenhum e prospera graças a uma tácita cultura de cumplicidade.
Exagero? Ao pé da letra pode ser, mas às vezes é preciso carregar nas tintas para que as cores apareçam. “De vez em quando fico pensando que há uma grande força-tarefa, ou uma vasta organização de forças-tarefas, dedicada em regime exclusivo à bolação e estruturação de falcatruas”, escreveu João Ubaldo.
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Para ele, se o Brasil tem um personagem que o simbolize, não é Jeca Tatu nem Zé Carioca: é Ali Babá, “próspero e intimorato”, pois “não existe área onde a roubalheira não funcione”. Assim, se hoje o governo criar um mecanismo inédito de distribuição de benefícios para carentes, amanhã já estará montado um esquema sofisticado de desvio de recursos, pois a força-tarefa está sempre em alerta.
Difícil discordar, quando vemos descalabros de toda espécie: golpes no INSS, desvio de verbas para municípios atingidos por enchentes, obras superfaturadas, saúde sucateada, fraudes em emendas parlamentares, toda semana uma falcatrua em algum lugar. Num dia, um figurão bate no próprio peito para alardear honestidade; no outro, a Polícia Federal bate à porta de sua casa. Novidade? Nenhuma.
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A população rema ao sabor de uma correnteza movida por dinheiro e interesses. Com o perdão de Ubaldo, somos mesmo é um bando de tolos. Brigamos com amigos e parentes por questões políticas, somos intransigentes para defender valores e figuras públicas que incorporem esses ideais, mas o valor decisivo é o monetário. Representantes eleitos raramente entram em polêmicas furiosas quando se trata de aumentar os próprios salários.
Adversários hoje, aliados ontem, sabe-lá o amanhã. Sargento Getúlio que o diga. O personagem mais famoso de João Ubaldo Ribeiro, que deu nome a um romance, é o exemplo do “rochedo” ideológico que se descobre marionete de conchavos. Militar designado para escoltar um preso político até a cadeia, no meio do caminho ele recebe uma contraordem: os ventos mudaram eagora é necessário soltar o homem. E rápido. Getúlio se revolta, desobedece e entra em conflito com os próprios chefes. O resultado não lhe será favorável. Nunca é para os peões do xadrez, sempre sacrificados primeiro, sejam eles pretos ou brancos.
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