Situado entre a ERS-409 e a BR-471, a cerca de 4,5 quilômetros do centro de Santa Cruz do Sul, está o Complexo Esportivo Normélio Egídio Boettcher. Nomeada em homenagem ao empresário, ex-vereador e ex-vice-prefeito, a área formada por 228,43 hectares transformou-se em um marco para o município em diferentes aspectos, esportivos, econômicos e turísticos, sendo considerada um famoso cartão-postal.
A estrutura contempla quadras de vôlei de praia, futevôlei, campo de futebol e pista de seis quilômetros, utilizada para caminhada, corrida e ciclismo, o que a torna uma importante ferramenta para estimular a saúde e o bem-estar da população mediante a prática de exercícios. É lá que a Gazeta Grupo de Comunicações sedia, desde 2011, eventos esportivos, sendo a primeira entidade a utilizá-la para tal finalidade.
O mais importante, sem dúvida, é o Lago Prefeito Telmo Kirst, nome dado em 2023 em homenagem ao ex-prefeito. Popularmente conhecido como Lago Dourado, o espelho d’água, que ocupa 120 hectares do complexo, é responsável por captar água do Rio Pardinho e entregá-la tratada à população da área urbana de Santa Cruz. O funcionamento da estrutura de captação e adução, em 2000, representou uma virada de chave para o município, que enfrentava corriqueiros problemas de abastecimento.
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Idealizado há quase 30 anos, o projeto que deu origem ao complexo partiu de uma ideia de Normélio, que buscava uma solução para o fornecimento de água no município. Ele levou o plano a Telmo, seu amigo, responsável por tirá-lo do papel e executá-lo com os esforços da comunidade.
Décadas depois, a Gazeta do Sul entrevistou os familiares de Normélio e Telmo para trazer os bastidores do projeto e o legado desse trabalho no município. Além disso, autoridades e líderes explicam como a comunidade se mobilizou para construir a estrutura que transformou Santa Cruz do Sul.
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Uma iniciativa comunitária
Em 20 de dezembro de 1995, Santa Cruz do Sul passava por uma crise hídrica avassaladora. O leito do Rio Pardinho, segundo o escritor José Alberto Wenzel, resumia-se a esparsas poças de água, uma sem conexão com a outra. Conforme Wenzel, a falta de água era um problema corriqueiro, a ponto de tornar-se popular uma frase que sintetizava a situação do município: Santa Cruz, de dia falta água, de noite falta luz. “Era uma frase comum que as pessoas repetiam. Era meio que um tom de brincadeira, mas era uma realidade”, acrescenta.
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Entretanto, a situação registrada em 1995 tornou-se um símbolo da insegurança hídrica que afetava o município, o qual se encontrava em pleno desenvolvimento. Naquela data, Wenzel, então vereador, caminhou pelo leito Rio Pardinho, seco. Não fluía mais. Recorda-se de testemunhar garças dentro das poças d’água, pegando os poucos peixes que restavam.
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No livro Lago Dourado e piscinões, ele descreve o caos que tomou conta da cidade na virada daquele ano. Com o Rio Pardinho esvaziado, a população precisou racionar água para todo e qualquer tipo de uso. Os lavoureiros, sem socorro, testemunharam impotentes suas plantações secarem e os animais agonizarem devido à sede, impactando diretamente a produção, que reduziu em torno de 50%. Já a estimativa de perda na safra de milho, segundo o escritor, somava 90%, enquanto a do feijão chegou a 60%.
A seca levou o prefeito na época, Edmar Guilherme Hermany, a decretar estado de emergência em Santa Cruz do Sul, fato noticiado nas páginas da Gazeta do Sul. Diante do caos instaurado, Wenzel relata no livro que, nas rodas de conversas, já existiam debates em torno de uma solução: a implantação de um grande lago de reserva de água. A ideia não era uma novidade, já que há cerca de uma década o ex-vereador e ex-vice-prefeito Normélio Egídio Boettcher idealizara o plano e o apresentara ao amigo Telmo Kirst.
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Em agosto de 1996, o projeto Lago Dourado foi oficialmente lançado. A iniciativa foi elaborada por uma equipe técnica multidisciplinar, a pedido da Companhia Rio-Grandense de Saneamento (Corsan), tendo por finalidade o armazenamento de água para o abastecimento público do município.
Em 11 de dezembro de 1996, quase um ano após a crise hídrica, Telmo, na época deputado federal, havia sido convidado pelo governador eleito, Alceu de Deus Collares, a ocupar a Secretaria de Obras Públicas, Saneamento e Habitação. Na data, em entrevista à Gazeta do Sul, afirmou que havia aceitado o cargo de secretário de Estado pensando no Lago Dourado.
“Santa Cruz sempre se preocupou com o abastecimento futuro da cidade. Falava-se em construção de barragem, minibarragens e até de um lago. Discutia-se com frequência. Meus saudosos amigos Normélio Boettcher e Edmundo Hoppe interessavam-se muito pelo assunto. O nome Lago Dourado surgiu numa dessas discussões, através do Normélio, e resolvemos batizá-lo assim”, disse na entrevista à Gazeta.
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A solução, entretanto, não se limitou às lideranças políticas ou à Câmara de Vereadores. De acordo com Wenzel, havia um apoio comunitário para debater a situação. “E a Gazeta do Sul foi preponderante nesse aspecto”, ressalta. “Não se tratou de pegar uma ideia pronta, mas discutir os caminhos possíveis.”
Em maio de 1997, a licença prévia foi emitida para o começo dos trabalhos. A previsão era de que as obras fossem concluídas em 1998. Entretanto, diante de diversos problemas, foram encerradas em 2000.
Na avaliação do geólogo e ambientalista, o projeto arquitetado por Normélio com o apoio de Telmo representou um marco na segurança hídrica do município. Mais do que isso, evidenciou a importância da elaboração de um projeto baseado na ciência, a partir de estudos técnicos, e com a participação ativa da comunidade.
“Eles têm uma grande virtude. Primeiro, não saíram fazendo sem um grande debate com a população. Eles abraçaram essa questão, lideraram, tomaram a frente, mas não com exclusividade. Ou seja, não excluindo o debate. E esse é o grande mérito”, afirmou Wenzel.
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Viagem para a Alemanha inspirou Boettcher
A sala de Teresa Cristina Kirst, viúva de Telmo, é repleta de belíssimas peças de decoração, além de bem-iluminada, o que a torna bastante aconchegante. Foi lá que, entre uma xícara de chá e outra, ela e a amiga Lia Clarice Boettcher, esposa de Normélio, relembraram os bastidores da criação do complexo e do Lago Dourado.
Lia recorda-se que tudo começou durante uma viagem para Hannover, na Alemanha. Após o casal passear pela cidade, deparou-se com o Lago Maschsee, corpo hídrico artificial construído na década de 1930, servindo não apenas como uma represa que abastece a cidade, mas também como área para a população desfrutar da natureza e praticar esportes. “É muito bonito. A lembrança que eu tenho é ver barcos à vela passeando no lago”, contou.
Ao conhecer a história do lago, Normélio passou a conceber o projeto de um lago artificial para resolver a falta de água em Santa Cruz. “Ele achava que a cidade não teria problema de desabastecimento caso essa iniciativa desse certo”, acrescenta a educadora.
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No retorno da Alemanha, o ex-vice-prefeito compartilhou o plano com Telmo, seu amigo. Os dois passaram a elaborar o projeto e iniciaram as tratativas para tirá-lo do papel. Assim como o lago de Hannover, a dupla defendia que a iniciativa não deveria limitar-se a um reservatório, mas a uma infraestrutura completa, na qual a população estivesse em contato com a natureza, com uma estrutura para a prática de esportes. “Desde o início, eles pensaram em um complexo esportivo que estivesse disponível para todos, abrigando uma enorme estrutura que oferecesse lazer e promovesse a saúde”, ressaltou Teresa.
Contudo, Normélio nunca veria seu sonho concretizado. Faleceu no dia 7 de novembro de 1987, aos 51 anos. Restou a Telmo dar continuidade ao projeto que ele e o amigo idealizaram ao longo dos anos. Enquanto secretário estadual de Obras, tornou-se protagonista na elaboração e construção do complexo, que acabou se transformando não apenas em um dos principais cartões-postais da cidade, mas também na solução para a escassez de água em Santa Cruz.
Em 2023, três anos após a morte de Telmo, o Lago Dourado recebeu um novo nome: Lago Prefeito Telmo Kirst. Já a infraestrutura que abriga o reservatório, a pista de corrida e as quadras passou a se chamar Complexo Esportivo Normélio Egídio Boettcher.
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Símbolo da cidade é legado da amizade
Décadas após a viagem para Hannover, o Complexo Esportivo Normélio Egídio Boettcher e o Lago Prefeito Telmo Kirst mudaram a realidade de Santa Cruz do Sul. O reservatório é responsável por fornecer água tratada para 58 mil imóveis no município.

Com isso, o ditado popular sobre a falta de água em Santa Cruz ficou no passado. “As pessoas introjetaram que o problema da água não está 100% resolvido, mas está muito bem trabalhado. A construção do Lago Dourado trouxe segurança, garantia de qualidade e de quantidade e deu uma certa tranquilidade à população”, afirma o ex-prefeito José Alberto Wenzel. Já a infraestrutura se transformou em um dos principais cartões-postais, atraindo milhares de turistas e entusiastas de práticas esportivas.
Para as amigas Lia Clarice Boettcher e Teresa Cristina Kirst, que mantêm vivas as memórias dos bastidores da iniciativa da obra histórica, Normélio e Telmo estariam orgulhosos em perceber a relevância do projeto que idealizaram na década de 1980. As comadres recordam-se da amizade entre os dois. Segundo elas, um complementava o outro: Normélio era o responsável pelas ideias e Telmo assumia a tarefa de concretizá-las. “Eram muito amigos, como irmãos mesmo. Havia uma afinidade muito grande. O Telmo sempre falava que nunca encontraria alguém igual ao Normélio”, ressalta Teresa.
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Potencial turístico
Na avaliação da secretária de Turismo de Santa Cruz, Jaqueline Marques de Souza, o Complexo Esportivo Normélio Egídio Boettcher é um orgulho para a cidade, servindo como espaço único no Estado. Segundo ela, é uma estrutura que atrai pessoas de toda a região, as quais vêm buscar lugar para praticar esportes, competir ou simplesmente desfrutar da natureza com a família.
Para Jaqueline, um grande exemplo do sucesso do complexo foi a pescaria realizada no Lago Dourado. “É um espaço que transpira esporte e lazer, e a gente adora ver as famílias criando memórias incríveis por lá.” Conforme a secretária, a pasta trabalha para aproveitar ao máximo o potencial do complexo. Além dos eventos e atividades de lazer, há investimento em melhorias, incluindo a instalação de módulo de bikes compartilhadas, para que visitantes possam explorar o lago de maneira diferenciada e mais sustentável.
Também está sendo instalada a iluminação da pista, a fim de torná-la mais segura e agradável para treinos noturnos e eventos. “O local está sendo procurado para grandes eventos esportivos. Com essas ações e parcerias com empresas locais, queremos transformar o complexo em destino obrigatório para quem visita a cidade.”
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Por muitas mãos
Há quase duas décadas, o Complexo Esportivo Normélio Egídio Boettcher tem sediado eventos esportivos organizados pela Gazeta Grupo de Comunicações. Segundo o gestor de Eventos Esportivos da Gazeta, Alexandre Cruxen, o grupo foi a primeira entidade a usar o Lago como local para realizações de eventos esportivos, como corridas, ciclismo e natação.
Em 2013 deu-se início ao projeto Estação Verão, que em 2026 chegou à 12ª edição. Com o tempo, a Gazeta passou a realizar o Duathlon de Inverno no complexo. “A aceitação do público é fantástica. E com a duplicação da pista, a adesão dos atletas foi cada vez maior.”
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Cruxen avalia que o complexo é fundamental, podendo ser aproveitado em qualquer época e estação do ano. Ele destaca ainda a importância no fomento do turismo, ao movimentar a rede hoteleira, restaurantes e o comércio.
“O complexo traz as premissas que a Gazeta Grupo de Comunicações e seus eventos esportivos têm, de promover qualidade de vida e incentivar a atividade física. É nisso que a gente se apega para realizar eventos esportivos dentro de várias modalidades para as diversas tribos de Santa Cruz do Sul e região.”
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