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RECOMPOSIÇÃO

“O mundo precisa de mais arborização”, defende advogado e ambientalista Sérgio Leitão

A sociedade contemporânea, em especial nos ambientes produtivos e industriais, e também no meio urbano, tem olhado para as áreas florestais nativas, tropicais, quase como um transtorno, que poderia limitar investimentos. Mas o advogado cearense Sergio Leitão, a partir de uma longa vivência no movimento conservacionista e ambiental, vê nelas um excelente negócio, cujo retorno pode beneficiar muitos setores. Além, é claro, de se tratar de necessidade urgente.

Depois de um período atuando em organismos públicos e privados, entre os quais o Greenpeace, em 2015 ele decidiu partir para a ação individual com a fundação do Instituto Escolhas. Aos 71 anos, natural de Crateús, região Oeste do Ceará, a 350 quilômetros de Fortaleza, está radicado em São Paulo, sede de sua entidade. Nos últimos anos, tem se empenhado, por conta própria ou em parcerias, a salientar o quanto a reposição e a recomposição florestal nativa é importante para o País (e para o planeta). Não apenas como uma atividade econômica direta, na produção de vários itens, mas por conta da necessidade de frear o aquecimento global, a instabilidade climática e, mais do que tudo, a ameaça da falta de água (e sem floresta nativa definitivamente não pode haver água).

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Ele adverte principalmente para a distância que separa o Brasil da meta assumida no Acordo de Paris, durante a COP-21 do clima. Ali, o País se comprometeu a plantar 12 milhões de hectares de florestas nativas até 2030. Plantou, quando muito, 300 mil hectares. Leitão esclarece que não se trata de florestas com finalidade energética, com espécies exóticas, como o eucalipto. Nesse ramo, o Brasil é uma referência. E o diretor do Instituto Escolhas entende que essa expertise tão positiva poderia ser estendida às florestas nativas, tropicais. “Isso é uma escolha”, menciona. “E o Brasil, pelo visto, por enquanto, escolheu não alcançar a meta que assumiu.”

Bem ao contrário de outras nações, como frisa em entrevista exclusiva concedida à Gazeta do Sul por telefone, na última quinta-feira, 5, à tarde. A China, por exemplo, levou essa tarefa muito a sério, e também outros países. Perdem com o descaso nacional a população, a economia e o ecossistema. Ele lembra que o Rio Grande do Sul escancarou no pós-enchente de 2024 o drama que constitui a urgência de repor arborização em margens de rios, no meio rural e em contexto urbano. Pelo observável, estamos não apenas dilapidando o meio ambiente, para lástima das atuais e futuras gerações, mas torrando dinheiro.

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Entrevista Sergio Leitão – advogado e ambientalista, diretor executivo do Instituto Escolhas

O advogado cearense Sergio Leitão coordena o Instituto Escolhas, que defende florestas tropicais. Foto: Divulgação
  • Gazeta do Sul – Transparece na atuação do senhor, e do Instituto Escolhas, o recado de que investir em produção florestal nativa, em arborização, é uma iniciativa econômica. O Brasil costuma olhar para a árvore como transtorno. Na verdade ela seria um grande investimento?

Sérgio Leitão – Primeiro, a gente tem uma necessidade muito grande de recuperar o que foi sendo desmatado ao longo da história do Brasil. E que é uma história não muito diferente da de outros países, onde o desmatamento foi a base para a realização de atividades econômicas: para abrir áreas para agricultura, para cidades, infraestrutura viária. Só que hoje você também tem a necessidade de fazer uma discussão sobre como se recupera uma infraestrutura natural verde, que também é vista como uma necessidade do ponto de vista da produção econômica e da própria garantia do fornecimento de uma série de bens para a população.

  • Em que áreas isso se torna mais urgente ou premente?

Vou citar um exemplo: água. Se você não tem floresta, você não tem a necessária recarga dos recursos hídricos, essenciais para o abastecimento. Do mesmo jeito que essa floresta também faz uma infraestrutura de proteção contra aquilo que, infelizmente, nos últimos anos vem se tornando cada vez mais frequente, que são os chamados eventos climáticos extremos. Estes, ao trazer muita chuva, não têm o anteparo natural de áreas com mata, com vegetação, para refrear essa fúria das águas ou dos ventos. Então, essa discussão sobre como se faz a recuperação dessa infraestrutura natural (que em determinados momentos do processo histórico foi desmatada para dar lugar a atividades econômicas), agora ganha atenção do ponto de vista da sua recuperação em função de serviços ecológicos ou ambientais que elas prestam e também dos benefícios econômicos que elas podem gerar.

  • E, no caso do Brasil, o déficit em floresta hoje é muito grande?

Os números aí variam, mas vamos dar de barato que pelo menos 80% do que circula de madeira no Brasil não tem origem comprovada. E é bom que você não faça a pergunta de onde veio, se não você não compra a porta de que precisa para fechar a entrada da sua casa. Você ter produção de madeira que seria oriunda, por exemplo, do plantio numa área que vai ser recuperada e vai ser explorada sob a forma do chamado regime de manejo sustentável é a possibilidade de juntar uma atividade econômica com atividade com benefícios ambientais. E o País tem uma dificuldade extrema em fazer isso. Porque a gente aprendeu, e aprendeu muito bem (aqui não vai nenhuma crítica, muito antes pelo contrário, é até um reconhecimento), a impulsionar o chamado setor das florestas plantadas, que são basicamente pinos, eucalipto… A gente sai dos anos de 1950, quando começa a fazer isso, e chega em 2026 ocupando a liderança mundial na produção de celulose. É fruto de muito investimento público, de muita pesquisa feita para trazer essas espécies exóticas, de fora, e adaptá-las ao Brasil. Tanto que a gente hoje é imbatível porque consegue fazer colheita do eucalipto plantado com mais ou menos cinco anos depois do seu primeiro plantio, o que torna o Brasil campeão diante daqueles que eram os tradicionais donos desse setor, os países escandinavos.

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  • Poderia servir de exemplo, de inspiração, para a área das florestas nativas?

Exato! Só que a gente precisa agora iniciar um esforço, que se pareça com o que a gente fez para esse setor, em relação às nossas florestas tropicais. Elas podem muito bem cumprir com várias funções: produção de madeira, de alimentos… Porque a gente mostrou que, ao cumprirmos essa meta assumida pelo Brasil diante do Acordo de Paris, que é recuperar 12 milhões de hectares, a gente vai produzir 156 milhões de toneladas de alimentos e gerar emprego. isso permitiria criar 5 milhões de empregos. Principalmente entre as pessoas de mais baixa renda, que seriam muito utilizadas nos três primeiros anos do plantio das mudas. E, ao mesmo tempo, a gente vai permitir que essa infraestrutura natural sirva de defesa nesses momentos de eventos climáticos extremos. É fundamental dotar as cidades e regiões das condições para lidarem com situações adversas, como enfrentou o próprio Rio Grande do Sul, infelizmente, muito pouco tempo atrás.

  • O que de fato foi feito até o momento em relação à meta fixada pelo Brasil no Acordo de Paris?

Do ponto de vista efetivo, de área plantada, a gente fez muito pouco até agora. Estamos falando de 300 mil hectares plantados, de 2015 para cá, quando a meta é 12 milhões até 2030. Ou seja: só um milagre de Deus para a gente chegar em 2030 com isso cumprido. Se não fizer, não chega a ter sanção direta. Mas significa que o Brasil vai ficar com a moral baixa diante do mundo, para pedir que o mundo, por exemplo, ajude o País a cumprir com suas obrigações ambientais. Se a gente não cumpre, como vai pedir um apoio? Então, não há uma sanção do ponto de vista punitivo, mas talvez ocorra a pior sanção do ponto de vista das relações internacionais, que é você perder a credibilidade. Uma vez perdida, você não a recupera.

  • Em busca dessa meta, quais têm sido iniciativas de governo ou de instituições?

Existem iniciativas no atual governo, mas ainda são numa escala muito diminuta para fazer frente ao atraso que a gente tem, e diante das dificuldades que precisa resolver. Ou seja, precisaria que essa meta fosse entendida como oportunidade econômica, de geração de emprego e renda. Geração de emprego, porque você está falando de 5 milhões de postos de trabalho. Renda, porque vai ter comercialização da madeira que permitirá receita de R$ 776 bilhões, olhando a produção de 1 bilhão de metros cúbicos de madeira. conforme dados que levantamos. Ou seja, 12 milhões de hectares de floresta permitiriam a extração de 1 bilhão de metros cúbicos de madeira. Quando você olha para essa atividade econômica, ou esses benefícios, isso teria que estar colocado exatamente nessa chave: de que não estou cumprindo apenas uma meta com que me comprometi, ou não estou fazendo atividade que está dentro dessa leitura ambiental. Estou promovendo uma atividade econômica que traz o benefício de fazer bem ao meio ambiente também. Então, a gente entende que o Brasil teria muito a ganhar com isso. Mas para que possa fazer isso, tem de entender que, como outras atividades econômicas, notadamente o caso do agro, isso só vai acontecer se houver estímulo do governo federal: com os incentivos econômicos, com a pesquisa, para que a gente dê conta de estrutura de plantio de florestas primárias, como conseguiu fazer para aquelas florestas que, não sendo daqui, a gente trouxe de fora para cá.

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  • Em outras palavras, compreender que floresta nativa também é agro, atividade econômica como todas as demais?

Exatamente. Eu não entro nem na discussão de um retorno econômico muito melhor. Entro na discussão de que é uma atividade de plantar. Estou falando de plantio. E se estou falando de plantio, falo de que ela precisa, para se desenvolver, dos incentivos que a gente também concede à agricultura para que ela possa fazer os resultados econômicos ou trazer os resultados econômicos que traz ao Brasil.

  • Como ocorre na floresta plantada…

Esse setor já está consolidado. E vai muito bem, obrigado. Lidera a produção mundial de celulose e tem área de mais de 3 milhões de hectares no Brasil. Aquilo que foi feito a partir dos anos 50, até ali pelos anos 80, com os incentivos do antigo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, deu certo e é amostra de que, quando você faz a política de estímulo, existe resultado positivo. Ou seja, não precisa fazer nem mais, nem menos. Você precisa se espelhar nesse resultado, que foi feito para o setor de florestas plantadas, e replicá-lo, com as devidas adaptações, para o setor das chamadas florestas tropicais, primárias.

  • E há ainda a questão da água…

Você precisa fazer isso não só para atrair chuva, mas para ajudar no armazenamento no solo. Isso está dramático. Relatório recente da ONU mostra que o mundo está entrando em situação de falência hídrica. Porque você tem um uso muito maior do que a capacidade de reposição. Não bastasse isso, você ainda está degradando os corpos hídricos. A necessidade de você ter áreas que façam exatamente essa função de produção de água, inclusive para abastecimento da população, virou atividade do ponto de vista econômico fundamental e de segurança hídrica indispensável.

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  • Como surgiu o Instituto Escolhas?

O Escolhas foi fundado em 2015, e nasceu da preocupação de que não era mais possível fazer o debate econômico separado do debate ambiental, nem o debate ambiental separado do econômico. Eles são, digamos assim, gêmeos siameses, e ainda não tinham reconhecida essa identidade comum. E, por não terem ela reconhecida, ficavam sempre se opondo e criando uma espécie de antagonismo, que impedia que houvesse conversas, exatamente porque não havia uma leitura comum feita, inclusive com dados, que permitissem, através de leitura mais analítica ou análise mais aprofundada, superar as divergências que separavam esses dois campos. É aquilo que a gente diz no Escolhas: para eu me entender com quem me desentendo, tenho de organizar a divergência. Por que mesmo a gente não concorda? Se não consigo me entender sobre o que me desentendo, jamais me entenderei com você.

  • A atuação tem sido nacional?

Nacional, mas a gente não deixa de se preocupar em especial com o Estado mais importante do Brasil neste momento nesse quesito, que é o Rio Grande do Sul. A gente fez logo na esteira, infelizmente, das enchentes de 2024, um estudo em relação ao Estado, mostrando o que o Rio Grande teria de benefício se fizesse investimento na recuperação daquilo que está desmatado. Temos atuação nacional, mas, à medida que identificamos situações que mereçam, a gente particulariza. Fizemos isso para o Rio Grande do Sul. Em termos de floresta primária, o que é tirado dificilmente volta a se plantar. A situação gaúcha chegou a um nível em que a recuperação ficou bem complicada. Nessa última grande catástrofe, o próprio solo foi embora. Você perdeu inclusive o lugar onde plantar, porque só ficou pedra. Isso mostra que o esforço, do ponto de vista de recuperação, é muito mais dramático e custoso do que aquele que até então se fazia.

  • Isso sinaliza para a desertificação?

Exato! No Escolhas, para este ano, nossa prioridade tem sido colocar uma lupa ou lente de aumento nos problemas da desertificação, que não acomete só o Nordeste brasileiro, infelizmente. Já há problemas começando a surgir em área de Minas Gerais, que é considerada, para efeito de bioma, parte do Nordeste. E chegando no Espírito Santo, manifestando-se no Sul. Não por acaso, uma convenção sobre desertificação vai acontecer em agosto, em Kuala Lumpur, a capital da Malásia. Esse é um tema que tem muito a ver com essa questão: é preciso olhar para a necessidade de adaptar-se a um mundo em que, infelizmente, os efeitos estão aparecendo, com muita chuva ou muita seca. Isso tem a ver com a realidade de que a gente precisa plantar árvores como uma necessidade natural.

  • Como fazer em pequenas propriedades?

O segredo que a gente tem defendido, e é o que sugere para o Rio Grande do Sul, é que se faça isso a partir dos chamados sistemas agroflorestais. Ou seja, é um combo entre recuperar com floresta e fazer plantio de alimentos. Porque, se você fizer isso só plantando floresta, o agricultor terá dificuldade muito grande, pois precisa de renda. E isso ocorre se você permite um misto que lhe dá possibilidade de recuperar a área com espécies florestais e combinar isso com plantios, que lhe deem retorno do ponto de vista econômico. Ou pode criar animais. Você não vai impedir que a pessoa tenha renda. A gente tem de restaurar tornando isso possível do ponto de vista econômico, e que condições ecológicas sejam atendidas.

  • E como as cidades podem auxiliar?

Você precisa criar grande programa de recuperação de áreas desmatadas nas cidades, aquele conceito de que se passou a falar muito, o de cidades-esponjas. Você matou as áreas nas cidades que fazem esse processo de absorção da água. Não se vai resolver 100% o problema da enchente, mas vai diminuir o tamanho da ira, da fúria com que as enchentes se abatem sobre espaços urbanos. O plantio de árvores nas cidades deve ocorrer inclusive em função das ondas de calor, virou necessidade fundamental. Isso é problema de saúde, de produtividade no trabalho, de queda de produtividade ou de rendimento escolar. Dados mostram que o calor faz com que, nas salas de aula, um aluno médio possa perder até um ano e meio em termos de seu rendimento na educação.

  • Como se encontram as outras nações?

Para você ter ideia, há iniciativa da China, com um banco mundial, só para estimular a recuperação de áreas em regiões críticas que sofrem com o problema da desertificação. A Europa tem recuperado muito, o Japão fez grande recuperação, e os EUA plantaram mais de 15 milhões de hectares. É um engano achar que esses países não estão preocupados. É verdade que desmataram, mas é verdade também que estão recuperando. Qual é a nossa verdade? A gente só aprendeu a desmatar. O fato é que eles desmataram e o Brasil também desmatou. E aí a segunda verdade é que eles aprenderam com a necessidade de recuperar, e isso nós precisamos aprender. Em várias capitais pelo mundo, há tentativa de roubar o espaço que virou predominante do carro e devolvê-lo para o plantio de vegetação, para criar essa espécie de amortização do aquecimento.

Confira a proposta do Instituto Escolhas para reconstrução segura do Rio Grande do Sul

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