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LUIS FERNANDO FERREIRA

O pássaro pintado

O artista tem o pássaro em suas mãos. Decide então pintar-lhe as asas, a cabeça e o peito em cores vibrantes, mais vistosas e belas do que as naturais. Depois, ao perceber a aproximação de uma revoada de aves da mesma espécie, solta-o para se unir aos semelhantes.

Mas o pássaro pintado não é mais um semelhante. Aquele arco-íris em movimento já não se parece com nada. Intrigado pela plumagem brilhante, o bando primeiro afasta-se cauteloso, em sinal de rejeição, e em seguida ataca o intruso. Um a um, investem contra ele até fazê-lo perder as forças e cair. Morto.

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O polonês Jerzy Kosinski (1933-1991) usou essa imagem como chave para a leitura de seu livro publicado em 1965. O pássaro pintado conta a história de um menino de 6 anos que, no início da Segunda Guerra Mundial, é enviado por seus pais a um vilarejo no interior da Polônia. Eles acreditam que a criança estará mais segura em meio ao conflito, mas a situação escapa do controle.

Após perder a mãe adotiva, o garoto fica por conta própria. Durante quatro anos, vagueia por aldeias distantes de qualquer centro urbano, nas quais os habitantes se guiam por costumes quase medievais. Etnicamente, são diferentes: o menino é moreno de olhos negros, os camponeses são loiros de olhos azuis. Aferrados a superstições ancestrais (o cimento de sua coesão social), julgam que ele encarna um espírito maligno, capaz de atrair todas as desgraças. Seus olhos escuros são uma ameaça.

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Soma-se a isso a invasão nazista, que chega à Polônia inteira, e a situação só piora. Desconfiados de que o garoto é cigano ou judeu, os moradores temem que sua presença atraia retaliações dos alemães. Isso basta para que a relação deles com a criança forasteira seja marcada por violência e humilhações de toda espécie.

A guerra tem esse efeito, Kosinski parece querer nos dizer: uma vez deflagrada, seu veneno contamina o tecido social por completo. A violência não parte só do invasor. Os nazistas confiscam a produção agrícola dos camponeses, mas os guerrilheiros da resistência fazem o mesmo e, com frequência, acusam os moradores de colaboração com o inimigo. O castigo é severo.

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O menino, do qual jamais sabemos o nome, é o para-raios de agressões vindas de toda parte. Não pertence a grupo nenhum, como um pássaro pintado, e desperta o ressentimento e a fúria de todos.
Para mentes simplistas que creem na guerra como um embate entre soldados puros do Bem e do Mal, claramente definidos, talvez faça bem o caos absoluto desse livro (que virou filme em 2019). Ao fim, resta a certeza de que a guerra nada faz além de levar às últimas consequências o pior do ser humano: a ignorância, o preconceito, a covardia, o sadismo e a indiferença.

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