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O que as crianças querem ou precisam saber sobre dinheiro

Muitas vezes, perguntas ou respostas de crianças e adolescentes podem deixar os adultos sem ação ou sem saber o que dizer. O porquê de algumas coisas são questionamentos constantes.  E não faltam questões que envolvam dinheiro. Somos ricos? Somos pobres? Por que o coleguinha tem um celular mais top que eu? De acordo com o colunista de finanças pessoais do The New York Times, Ron Lieber, antes de dar uma resposta é preciso procurar entender o motivo da pergunta ou do questionamento.

Por exemplo, se a criança ou adolescente pergunta por que a família tem menos dinheiro do que a do coleguinha da escola, ela o faz com base na comparação entre um objeto que o amiguinho tem e ele não. Numa simples conversa é possível descobrir que, através da posse de um brinquedo, a criança ou adolescente imagina todo o contexto financeiro de uma família. É o momento de explicar-lhes  que não se pode medir o poder aquisitivo de alguém por algo tão simples.

Não é tão raro encontrar pessoas que ostentam padrões de vida acima das reais condições financeiras, mantidos, muitas vezes, por enormes dívidas. No início deste mês, pesquisa divulgada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostrou que as famílias brasileiras nunca estiveram tão endividadas, atingindo 74%, um recorde da série histórica iniciada em 2010.

Crianças e adolescentes  também tem o hábito de formular perguntas ou comentar com base em informações aleatórias e sem contexto. Ao ouvirem o fragmento de alguma notícia da televisão sobre a crise econômica que tem afetado a vida das famílias ou compartilharem o caso da família de algum colega ou amigo, envolvida em dificuldades financeiras, podem questionar os pais se também vão ter que vender a casa ou se vão ficar pobres.

Desde os primeiros meses de vida – há quem diga que já seja no ventre materno – as crianças absorvem informações como esponjas. Captamos, com os nossos cinco sentidos, todas as experiências que nos são apresentadas, inclusive com o dinheiro. Mesmo que os pais ou responsáveis nunca falem desse assunto, as crianças e adolescentes certamente observam e internalizam o comportamento, a organização (ou falta dela), as crenças e a forma como as pessoas mais próximas lidam com os recursos financeiros. Sem contar, ainda, a influência das propagandas na TV e na internet, a pressão por “ter coisas”, o constante apelo da sociedade para gastar, etc.

O head de educação financeira da XP Inc. e especialista em psicologia do dinheiro, Thiago Godoy, sugere quatro formas de abordar o dinheiro com os filhos:

  1. Falar sobre dinheiro: o assunto precisa fazer parte da rotina da família; a criança e o adolescente precisam entender que o dinheiro não jorra de um terminal  de caixa, ele deve ser conquistado (os americanos não falam em ganhar dinheiro, mas em fazer dinheiro);
  2. Mostrar a diferença entre desejos e necessidades: as necessidades incluem o básico, como comida e moradia, e os desejos, todos os extras;
  3. Usar a mesada ou semanada como ferramenta educacional:  não pode ser “um troco” que sobra na carteira, mas um valor que deve ser usado para arcar com o pagamento de determinadas despesas, previamente negociadas entre pais ou responsáveis e filhos; mais importante que o valor a ser entregue e a finalidade é estabelecer metas para que a criança aprenda a poupar;
  4. Criar um espaço onde guardar o dinheiro poupado: para crianças de até 8 anos, pode ser um cofrinho; para adolescentes, vale abrir uma conta numa instituição financeira.

A pesquisa “Finanças Infantis”, realizada pela Serasa em parceria com a Opinion Box, com 1,2 mil pais e mães de todo o Brasil, mostrou que 85% deles ensinam aos filhos a importância de se ter uma vida financeira saudável. Mas, na prática, parece que nem sempre é fácil manter o planejamento financeiro, já que cerca de 67% dos que responderam à pesquisa já tinham ficado com o nome “sujo” e 66% atrasaram o pagamento de contas básicas. Pelo resultado da pesquisa, para o qual podem ter corroborado todas as dificuldades impostas pela pandemia da Covid-19, parece óbvio que falta a muitos pais ou responsáveis  o conhecimento para praticar a educação financeira, no âmbito familiar. Cabe, então, às escolas complementarem ou assumirem essa tarefa.

Milhares de escolas públicas e privadas, por iniciativa própria ou incentivadas pelo Ministério da Educação, além de outras instituições, como a DSOP Educação Financeira, já começaram a ensinar educação financeira. Alguns professores se manifestaram contra a inclusão da matéria na grade curricular, alegando, talvez sob um viés ideológico ou percebendo a educação financeira apenas como uma disciplina ligada à matemática e aos números, que seria uma forma de introduzir crianças e adolescentes no capitalismo. Reinaldo Domingos, criador da DSOP Educação Financeira e presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin) diz que “é preciso respeitar as opiniões de cada um, em especial a dos professores, mas é importante também ampliar o campo de conhecimento”. Vivemos num país capitalista, consumista e que conta com milhões de envidados e inadimplentes, a maioria, certamente, por falta de educação financeira. 

Nos últimos 12 anos, nas milhares de escolas e colégios em que a DSOP Educação Financeira implantou a educação financeira, o desafio sempre foi de capacitar, em primeiro lugar, os professores para ministrarem essas aulas. Como diz um antigo ditado:  “só podemos ensinar aquilo que aprendemos e praticamos”.  Muitas pessoas ainda confundem  finanças pessoais com educação financeira. Enquanto finanças pessoais se restringe a algumas técnicas importantes e necessárias – fazer alguns cálculos, elaborar um orçamento, pesquisar preços, preencher planilhas, conhecer produtos financeiros, etc -, a Educação Financeira vai além: usa as ferramentas das finanças pessoais, mas, por ser uma ciência humana, trabalha a mudança do comportamento e de hábitos das pessoas e de suas famílias para torná-las sustentáveis financeiramente.

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