Apoiado em sua ampla formação em História, como pós-doutor na área, o professor e historiador Mozart Linhares da Silva já assina quase duas dezenas de obras de cunho acadêmico ou ensaístico. Agora, o público vai conhecer outra faceta desse escritor: a de ficcionista. Com Em Santa Egivides, uma história brasileira, convida os leitores a uma viagem ao passado.
O enredo de seu primeiro romance está ambientado na segunda metade do século 19 em uma pequena cidade fictícia do interior de Minas Gerais, nas imediações de Ouro Preto, então a capital daquela província. O jovem Martins, um escravo que fora alforriado, retorna a Santa Egivides já formado em Direito, em Recife. E sua chegada causa apreensão: ocorre que seu irmão Ernesto segue cativo de uma família local, e ele sinaliza que está decidido a libertá-lo, bem como saber do paradeiro da mãe, Francisca, vendida para o Sul do País.
LEIA TAMBÉM: Novo livro de Rodrigo Breunig é dedicado aos leitores imaginários
Publicidade
Como a sinopse evidencia, vigoram as regras da escravidão, mas uma reação se impõe em diversas esferas da sociedade. Com os conhecimentos adquiridos, Martins assume a missão de reparar danos e erros ainda passíveis de corrigir, e de, até onde for viável, promover justiça. Haverá aliados, mas também haverá muitas forças em contrário, determinadas a tudo para manter o conveniente status quo.
Resta compreender até que ponto aquele modo de pensar e agir ficou no passado, ou não estende reflexos ao presente. A obra, de 120 páginas, a ser lançada pela Bestiário, pode ser adquirida em pré-venda no site da editora (bestiario.com.br), por R$ 52,00.

- EM SANTA EGIVIDES, UMA HISTÓRIA BRASILEIRA, de Mozart Linhares da Silva.
- Porto Alegre: Bestiário, 2026. 120 p. R$ 52,00.
Leia com exclusividade trechos de Em Santa Egivides, uma história brasileira, primeiro romance de Mozart Linhares da Silva, lançamento:
Publicidade
A porta do sobrado se abriu para recebê-lo. Quem atendeu às batidas na placa de metal fixada à porta foi a senhora Isabel, não Ernesto, como era de costume. Ao adentrar o hall, Martins cumprimentou a senhora Isabel e foi convidado à sala-de-estar, onde avistou o irmão, de olhos baixos e mãos cruzadas abaixo da cintura. Ele olhou para sua senhora como quem pede autorização para se aproximar. Então se abraçaram demoradamente. Martins conteve as lágrimas, Ernesto, não. As mãos de Ernesto tremiam e suavam. Martins afrouxou o abraço e segurou o irmão pelos ombros, afastando-se apenas o suficiente para encará-lo. O tempo, as ausências e o silêncio entre eles haviam cavado um fosso que nenhuma palavra parecia capaz de preencher. Ainda assim, ali estavam – carne e memória, frente a frente.”
“Martins era um menino criado no seio da escravidão, experimentou da violência e do desespero ao ver sua mãe afastada de si e do irmão. Foi criado entre as bofetadas que a mãe recebia de Dioclécia, sem ter nenhuma clareza dos motivos. Já havia sentido os vergões da vara de marmelo ainda na infância. Sua mente infantil já se deliciara com ódios e sentimentos de vingança. Festejou em silêncio a morte de Dioclécia. Dela ficariam as terríveis lembranças impressas nas cicatrizes que carregava no corpo e na memória. Seu fantasma jamais desapareceria por completo. A violência era naturalizada nesse mundo. Essa vida não era uma singularidade do menino Martins, era a vida que compartilhava com muitos como ele em um Império construído sobre vidas precarizadas e não enlutáveis.”
“Os horrores da noite não se encerravam ali, no pelourinho. Garcia se recolhia ao seu gabinete, decorado com pinturas religiosas e pequenos versículos em latim escritos na parede. Sobre a mesa central, frascos e taças de vidro, crucifixos e um conjunto de ventosas. Após dizer alguns versos em latim, permitindo-se entrar em pequeno transe, deixava a sala macabra e voltava aos cativos. Juntava chumaços de algodão, embebidos em água ardente ou bagaceira, dentro de ventosas e, então, iniciava o ritual.”
Publicidade
É o jornalista, professor e escritor Juremir Machado da Silva quem, em prefácio, aponta para alguns dos embates que permeiam o primeiro romance de Mozart Linhares da Silva. “Que tal irmão contra irmão num conflito em torno de uma mulher, de um escravizado e de um quilombo?” Além da complexidade social do período histórico no País, salientam-se também uma história de amor e o papel do esclarecimento em favor da inclusão e da autonomia.
Tudo isso conduzido com mão firme e certeira, numa prosa fluida, despojada, por um historiador que se aventura na ficção. Em entrevista à Gazeta do Sul, Mozart manifesta sua satisfação diante do poder da literatura: quando o suposto rigor e a objetividade de um resgate histórico esbarram em limites, a ficção permite pensar além, propondo soluções.
LEIA TAMBÉM: Akira Kurosawa mudou o cinema; relembre os principais filmes do diretor
Publicidade
Acaba por questionar os próprios mecanismos da historiografia, que se pretende a verdade, quando por essência é também relato, e como tal subjetiva, uma vez que implica em selecionar o que se quer dizer ou registrar (e num olhar do presente para o passado).
Aos 58 anos, Mozart, que nasceu em Porto Alegre, há 28 anos reside em Santa Cruz do Sul. Graduou-se em História pela PUCRS em 1993, seguindo com mestrado, em 1996, e doutorado, em 2001, pela mesma instituição (com extensão na Universidade de Coimbra). Começou a lecionar em 1994 na Faculdade João XXIII, na capital; teve passagem pela PUCRS, e em 1998 chegou à Unisc. Hoje atua na graduação, no curso de licenciatura em História, e no programa de pós-graduação (mestrado e doutorado) em Educação.
Coordena ainda o Grupo de Pesquisa (CNPq) “Identidade e Diferença na Educação” e o “Observatório de Educação e Biopolítica (OEBIO)”. Na ficção, suas experiências anteriores foram participações com textos na antologia Nem te conto.
Entrevista – Mozart Linhares da Silva, historiador, professor e escritor
- Gazeta – Qual foi o principal motivador para que um historiador, já com larga trajetória acadêmica, lançasse mão da ficção narrativa neste seu primeiro romance? Penso que a história é uma área fascinante, mas, como área acadêmica, exige rigor e responsabilidade com os acontecimentos e contextos estudados. A ficção é uma espécie de liberdade em relação ao texto, mas, sobretudo, à imaginação. No caso deste livro, é uma ficção amparada historicamente. Os personagens do livro não existiram, mas poderiam ter existido, pois o que compõe suas personalidades foi construído a partir do contexto histórico em que o romance é ambientado. O romance histórico permite esse tipo de experiência, de que, particularmente, gosto muito.
- A história se passa na segunda metade do século XIX e no interior de Minas Gerais. O que determinou a escolha por esse período e por esse ambiente? Os anos 1870 são fundamentais para entender a crise da monarquia e o caminho político que levou à abolição da escravatura. Esses dois acontecimentos nos permitem compreender o protagonismo tanto das elites da época quanto dos escravizados e de seus aliados na luta pela liberdade. Além disso, o contexto nos permite explorar como os grupos sociais se relacionavam e se posicionavam na arena política e, no caso do livro, a ideia era evitar qualquer tipo de superioridade moral dos grupos sociais envolvidos. Uma certa crueza das relações sociais é explorada, evitando os clichês que, em muitos casos, nos seduzem ao tratar das identidades em jogo. Santa Egivides é uma vila imaginária na decadente Minas Gerais de Ouro Preto e arredores. A partir dessa vila, os acontecimentos se desenrolam e tentam nos levar a uma reflexão sobre a própria brasilidade.
- Até que ponto a sua bagagem de historiador foi ativada, ou colocada à prova, por assim dizer, em um relato ficcional? A ideia de um romance/novela histórico evidentemente me oportunizou aventurar-me na literatura a partir de um porto seguro. Procurei construir a história respeitando o contexto da época, pesquisando ambiências, artefatos, culinária, vestimentas etc ficcionalizando personagens que viveram o contexto “real” daquele momento. Sendo assim, ao ficcionalizar, também estava atento ao meu ofício de historiador. Explorar essas fronteiras foi uma experiência muito gratificante.
- Escravidão, justiça social, inclusão são temas ou abordagens já presentes em tua obra como historiador. Como foi, agora, lançar mão da literatura, da narrativa de ficção, para lidar com os mesmos assuntos? Essas questões atravessam a nossa vida, tanto na pesquisa acadêmica quanto na literatura; são temas que nos tocam o tempo todo. Mas não gosto de imaginar a literatura como tendo uma missão. Gosto de pensar a literatura ou as artes em geral cumprindo papéis mais disruptivos. Dito isso, não quero dizer que a literatura esteja deslocada de seu tempo, do contexto de sua escrita e, nesse sentido, ela pode nos levar a reflexões atinentes aos problemas e dilemas de nosso mundo.
- A história se desenrola no passado, mas as suas reverberações podem ser sentidas no presente, não é? A expectativa é que o leitor reflita sobre como aquele ambiente forjou o mundo de hoje?Sim, o texto é escrito no presente e imagina o passado a partir desse marcador. Aqui há uma brincadeira com a temporalidade: o passado é mais o resultado no tempo presente do que o presente é o resultado do passado, como gostamos de dizer. Santa Egivides, uma história brasileira é exatamente esse jogo de temporalidades que faz de uma história ficcional um meio que pode nos levar a reflexões que estão implicadas no nosso tempo.
- A experiência na ficção foi prazerosa? Podem vir novos projetos do gênero por aí? Sim, muito. Não imaginava que a escrita literária fosse tão potente e prazerosa. Pretendo ir aprendendo e estudando para dar sequência a novas aventuras. Tenho o intento de seguir escrevendo amparado pela pesquisa historiográfica, um meio de problematizar a objetividade histórica e provocar suas tentações subjetivas. A literatura, nesse sentido, é libertadora.
Publicidade
QUER RECEBER NOTÍCIAS DE SANTA CRUZ DO SUL E REGIÃO NO SEU CELULAR? ENTRE NO NOSSO NOVO CANAL DO WHATSAPP CLICANDO AQUI 📲. AINDA NÃO É ASSINANTE GAZETA? CLIQUE AQUI E FAÇA AGORA!