Há algo estranho na crise permanente do abastecimento de água em Santa Cruz do Sul. A cidade que construiu parte de sua pujança econômica sobre organização, planejamento e força comunitária convive, há mais de duas décadas, com torneiras secas, rompimentos de rede e interrupções que parecem não ter fim.
Os problemas são conhecidos: falhas em estações de tratamento, reservatórios insuficientes, redes antigas que estouram com frequência e um desperdício significativo de água já tratada. A antiga Corsan estatal alegava limitações financeiras para enfrentar o volume de investimentos necessários. Em 2023, veio a privatização. O controle passou para a Aegea, um dos maiores grupos privados de saneamento do País. A promessa era clara: eficiência, gestão moderna e um robusto pacote de investimentos para atender às metas do Marco Legal do Saneamento.
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Passados três anos, o que se vê? Obras espalhadas pela cidade, equipes nas ruas, intervenções constantes – e, curiosamente, a sensação de que os problemas não diminuíram. Em alguns períodos, a percepção popular é de que se intensificaram. Faltas d’água mais frequentes, bairros inteiros desabastecidos por horas ou dias, comércio e indústria afetados, moradores obrigados a reorganizar a rotina por conta da incerteza.
É preciso reconhecer: modernizar um sistema sucateado por décadas não se faz da noite para o dia. Redes antigas precisam ser substituídas, reservatórios ampliados, perdas controladas. Intervenções estruturais, especialmente em saneamento, costumam gerar transtornos antes de produzir resultados visíveis. A questão central, porém, não é apenas técnica, é comunicacional e institucional.
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A população não questiona apenas a existência de obras; questiona a falta de previsibilidade. Quer saber por que rompimentos continuam acontecendo em série. Quer entender por que investimentos milionários ainda não se traduzem em estabilidade mínima no fornecimento. Quer clareza sobre cronogramas, metas intermediárias e indicadores de desempenho.
Nesse cenário, o papel da Prefeitura e da Agerst é fundamental. Multas e cobranças públicas cumprem função importante, mas não bastam. A sociedade precisa de transparência ativa: relatórios claros, comparativos de perdas antes e depois das intervenções, metas objetivas para redução de interrupções e prazos verificáveis.
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O saneamento é, por definição, um serviço essencial. Não é luxo, não é diferencial, é o básico para uma sociedade civilizada. A privatização foi apresentada como solução para um impasse estrutural. Se ela produzir resultados positivos, consolidará uma nova forma de gestão. Se falhar, alimentará desconfiança não apenas sobre uma empresa, mas sobre todo um modelo de serviço público concedido à iniciativa privada.
Santa Cruz do Sul não pode naturalizar a crise hídrica como parte de sua identidade. A cidade precisa e merece um sistema de abastecimento confiável, previsível e eficiente. Investimentos milionários são números impressionantes em discursos e apresentações corporativas. Na prática, a demanda é bem mais simples: abrir a torneira e ter água.
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