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Susto e aprendizado

Os bastidores do maior incêndio que Santa Cruz do Sul já viu

Formado como bombeiro há pouco mais de um mês, Douglas Maciel Silveira, 27 anos, retornava de Porto Alegre na noite de sábado, dia 12. Ele e outros dois colegas tinham visto o Internacional vencer o Londrina por 3 a 1, no Beira-Rio. Quando souberam, pelo rádio, que um grande incêndio acontecia em Santa Cruz do Sul, o soldado e os sargentos não tiveram dúvidas sobre o que fazer. Desembarcaram no quartel, no Centro, vestiram seus trajes e seguiram para o Distrito Industrial. Era o maior incêndio já registrado no município e o primeiro da vida do jovem combatente. 

Quando foram até o prédio, ao lado da empresa ATC, às margens da BR-471, os bombeiros sabiam que a situação deveria ser grave, por causa da série de telefonemas. O incêndio, que se alastrou rapidamente, logo pôde ser visto por quem passava pela estrada. Antes de Douglas chegar ali, os colegas de serviço já tentavam controlar as chamas que tomavam o depósito com 33 mil metros quadrados. Dentro dele estava estocada uma grande quantidade de tabaco da Universal Leaf, pronto para a exportação. 

Às 19h06, chovia forte quando um dos vigilantes ouviu um estrondo. Ele percebeu que as chamas tomavam os fundos do depósito. O guarda telefonou para os bombeiros, que deslocaram a guarnição do Distrito. Com 22 anos de serviço, Jairo Machado de Oliveira estava no quartel do Centro quando os telefonemas começaram. O sargento seguiu com três colegas até o pavilhão. Da rodovia, percebeu que o incêndio era grave. Tinha muita fumaça. 

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Bombeiro há três anos, o ex-policial militar Joel Dittberner estava em casa quando recebeu um telefonema. Chefe da unidade, autorizou a equipe de Vera Cruz a reforçar o combate ao fogo. No local, o capitão passaria a traçar as estratégias pelas próximas horas para tentar impedir que as chamas se alastrassem ainda mais. Sete bombeiros já estavam no pavilhão quando ele chegou. “Nunca tinha pego um incêndio em um prédio tão grande. Era um imenso forno”, lembra Jairo, que estava lá dentro. 

Além da fumaça e do calor, os bombeiros precisavam lidar com os riscos de explosões. Havia empilhadeiras, movidas a gás, dentro do prédio. Estima-se que seriam pelo menos dez. Na parte da frente do depósito, Douglas ouvia os estrondos enquanto ajudava a resfriar uma parede. Uma experiência que o jovem bombeiro acredita que nunca mais irá esquecer. As primeiras horas, até para os mais experientes, lembra o capitão Joel, foram tensas. Eles tentavam impedir que o fogo chegasse na parte da frente do prédio, mas as chamas se alastravam até pela fumaça. “A gente combatia em um ponto e de repente tinha aquela labareda passando pelo alto.” 

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Para dificultar, não bastava apagar a chama visível. O tabaco seco, empilhado em caixas, queimava do chão ao teto. A chuva forte não ajudava o trabalho dos bombeiros, pois o telhado impedia que a água chegasse aos focos. Quando percebeu que esse mesmo teto rangia, movimentava-se e as paredes já tinham largas frestas, por onde o fogo saía, Joel ordenou que as equipes saíssem do pavilhão. O combate seria feito de fora, a uma distância segura. 

“A gente percebe o quanto é pequeno. Mesmo com bom equipamento, caminhões novos, era como apagar uma churrasqueira com um conta-gotas”, lembra o capitão. As chamas só começariam a ceder no início da madrugada de domingo. As labaredas se transformaram em brasas, que seguiam queimando até essa sexta-feira. Para Silveira, primeiro colocado no Estado no curso dos bombeiros, entre 272, foi uma lição e tanto. “Eu só tinha atendido fogo em mato, em terreno baldio. Pude ver como é a realidade.”

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Importância
A Universal Leaf Tabacos é a segunda empresa no ranking de retorno de imposto para Santa Cruz do Sul, atrás somente da Philip Morris. Considerada uma das maiores exportadoras de tabaco, ela ficou em 103º lugar entre os maiores exportadores do Brasil em 2016 e em décimo lugar no Estado. Está na faixa das que exportaram mais de 100 milhões de dólares no ano.

COMO FOI

Às margens da BR-471, motoristas se aglomeravam para ver o pavilhão em chamas. No prédio, bombeiros tentavam encontrar uma estratégia para impedir que o fogo consumisse todo o depósito. Com 330 metros de comprimento por 100 de largura, o pavilhão não tinha divisórias internas. As pilhas de caixas com tabaco estocado chegavam a cerca de seis metros, segundo os bombeiros. O prédio teria cerca de oito metros de altura na parte interna e dez metros na externa. Chovia forte no momento do incêndio, mas o telhado não permitia que a chuva auxiliasse no combate. As labaredas só seriam vencidas na madrugada. Até a noite dessa sexta-feira, ainda havia brasas.

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  • Equipes

A primeira equipe, com três bombeiros, foi a do Distrito. Eles permaneceram nos fundos, onde foi visto o primeiro foco. Ainda era possível entrar no pavilhão. Com máscaras e cilindros de ar, combatiam as chamas com um caminhão de 5 mil litros. Em seguida, outros quatro bombeiros do Centro chegaram. Posicionaram-se na mesma lateral. Uma equipe de quatro bombeiros de Vera Cruz foi para o lado oposto do prédio. O fogo avançava. Passaram a usar os reservatórios das empresas próximas. 

Reforço
Ainda chegaram um caminhão autotanque de 12 mil litros e a autoescada Magirus. Bombeiros de folga eram acionados. Alguns se apresentavam de forma voluntária.

A estrutura
Cerca de meia hora após o incêndio começar, o telhado dava sinais de abalo. A estrutura começava a se deformar.

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  • O foco

O objetivo passou a ser evitar que o fogo chegasse à frente. Os bombeiros ainda não sabiam se havia compartimentos no pavilhão. Concentraram-se mais ao meio. Ainda era possível ingressar no prédio. Mas o telhado começou a balançar e fazer barulhos. As paredes apresentavam frestas. Diante dessa cena, as equipes deixaram o pavilhão. 

De fora
Passaram a jogar água por cima do pavilhão e pelas portas. Em um prédio com 100 metros de largura, isso tinha pouco efeito.

  • Tensão

O fogo aumentou na frente. “Tinha fogo em todo o pavilhão. A gente viu que estava perdendo o controle”, recorda Joel. Todos os bombeiros foram deslocados para lá. Permaneciam a dez metros de distância, para evitar serem atingidos por uma parede. Já eram cerca de 20 homens, com sete caminhões. O telhado começava a desabar. Uma fissura na parede da frente começou a deixar os bombeiros preocupados. O fogo se aproximava de um transformador. Poderia acontecer uma explosão. 

Energia
Equipes da RGE Sul desligaram a energia na parte da frente. Uma rede de alta tensão, nos fundos do pavilhão, também precisou ser afastada para evitar que fosse atingida. 

Controle
Por volta das 2 horas, a situação começou a se normalizar. As labaredas passavam a dar lugar a uma queima mais lenta e de menor risco. Quatro caminhões permaneceram no local. Impossibilitados de entrar no prédio, a cada 15 minutos, uma dupla dava a volta no pavilhão. Eles virariam a noite no local.

  • Dias seguintes

No domingo, duas equipes permaneceram  o dia todo junto ao pavilhão. Na segunda-feira, o efetivo foi reduzido para uma equipe e, na terça-feira, o trabalho foi encerrado. Em contato com a Fepam, chegaram ao consenso de que era melhor não retardar mais a queima.

O que diz a lei

Segundo o tenente-coronel César Bonfanti, comandante regional dos bombeiros, os prédios construídos a partir de 2013 precisam ter divisórias que evitem que o fogo se alastre. O tamanho máximo de cada compartimento para estocar tabaco é de 2 mil metros quadrados. No entanto, o pavilhão que se incendiou foi erguido há cerca de 15 anos, antes da mudança na lei. Ele tinha alvará contra incêndio. 

O prédio
O telhado deverá ser removido e depois os resíduos que restaram da queima. O prédio será demolido. Segundo o diretor executivo da Kopp, Gustavo Keetz, a empresa, que é dona do prédio, ainda está decidindo quais serão os passos seguintes. Uma das hipóteses é construir mais de um pavilhão no local. 

Investigação
As causas do incêndio ainda estão sendo esclarecidas. Conforme o registro feito na Polícia Civil, uma possibilidade é que o prédio tenha sido atingido por um raio. Segundo o delegado Alessander Garcia, da 2ª Delegacia de Polícia, a expectativa é de que a perícia possa vir a Santa Cruz nesta segunda-feira.

Questão ambiental
A Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) acompanha os desdobramentos do caso. Na terça-feira, segundo o engenheiro químico Adriano Dalci, houve uma vistoria no local e entorno. “Não houve contaminação derivada do incêndio.” Sobre a fumaça, ele afirma que é menos prejudicial que a produzida pela queima do cigarro. A remoção e destinação correta dos resíduos são monitoradas pelo órgão. 

Impactos no setor
Sem a divulgação do volume e do tipo de tabaco que queimou, o impacto que o incêndio trará para o setor é incerto. A empresa tinha seguro do estoque, mas ainda não se sabe se o tabaco armazenado já havia sido totalmente comercializado. Nesse caso, a própria empresa poderá procurar uma forma de repor o produto ou o cliente poderá buscar em outras fontes.   

A empresa 
Em nota, a Universal Leaf Tabacos informou que todas as providências legais e operacionais já foram encaminhadas. A remoção dos resíduos remanescentes, que será feita “por empresas licenciadas e qualificadas para isso”, segundo a empresa, terá início tão logo a perícia esteja concluída. A direção reforçou o agradecimento à comunidade e empresas vizinhas, pela compreensão diante dos transtornos causados. “Também agradecemos às instituições, empresas e pessoas que nos apoiaram, assim como aquelas que continuam envolvidas neste processo”, disse o presidente da Universal e CEO para a América do Sul, Cesar Augusto Bünecker. 

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