Você talvez já tenha ouvido falar de O Senhor das Moscas. É um romance escrito pelo britânico William Golding (Prêmio Nobel de Literatura em 1983), adaptado para o cinema mais de uma vez, sobre adolescentes que sobrevivem a um acidente aéreo e ficam presos numa ilha deserta.
Sem nenhum adulto ou autoridade por perto, eles mesmos precisam definir as regras para um convívio aceitável. Testemunhamos assim a criação de uma pequena sociedade, algo que não acontece sem disputas de poder. Dois líderes carismáticos dividem as atenções do grupo: Ralph, eleito pelo voto dos demais e cuja prioridade é achar um meio de voltar à civilização, e Jack, que comanda expedições de caça em busca de alimento e, aos poucos, vai impondo sua autoridade à força.
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Entre os dois está Porquinho – assim chamado com deboche por seu peso –, que age como conselheiro de Ralph. Em um governo, provavelmente seria o chefe da Casa Civil. Porquinho é visivelmente mais culto e perceptivo que os outros. É o único a usar óculos, e só por isso o grupo pode fazer fogo – com a utilização de suas lentes. A partir de certo momento, quando Jack quebra esses óculos, a relação entre as duas facções na ilha vai se deteriorar com rapidez. Como se o fogo da inteligência também estivesse, agora, comprometido.
Lembra um pouco o controverso Sob o Domínio do Medo. No cartaz desse filme de suspense de 1971, dirigido por Sam Peckinpah, vemos o rosto de Dustin Hoffman com um par de óculos quebrados. Ele é um matemático que, junto com a esposa, muda-se da cidade grande para um vilarejo no interior, em busca de paz para seus estudos. Poucas vezes alguém se enganou tanto na história do cinema.
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Pacato, reservado e sem traquejo social, David (Hoffman) torna-se alvo de provocações de valentões locais. As zombarias vão evoluir para brutalidade franca e exacerbada, forçando-o a se defender. Uma cena marcará um ponto de virada na atitude do professor: seus óculos são quebrados em meio a uma agressão.
Agora ele não vê quase nada e, sem enxergar, também não sente necessidade de pisar em freios. Surge outra pessoa, capaz de se entregar à vertigem da violência até com satisfação. É um alerta: de fato, as lentes da civilização são frágeis. Quando alguém passa muito tempo encarando a barbárie, e faz dela sua preocupação essencial, dentro em pouco não enxerga mais nada. Além da barbárie. E o abismo retribui esse olhar atencioso.
Quem é míope conhece a sensação de ver um mundo fora de foco, instável, com perfis borrados onde deveria haver contornos seguros. Não é agradável. É como uma vertigem.
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