O progresso, em Santa Cruz do Sul, costuma chegar com cheiro de piche fresco. Não há como negar: a pavimentação de uma rua é o rito de passagem de qualquer bairro que se preze. É o fim da era do “pó em dias de sol, barro em dias de chuva”, aquele cenário digno de filme de faroeste que castiga os móveis da sala e a paciência da dona de casa. Ver o asfalto avançar defronte ao portão é, para muitos, a materialização do IPTU bem aplicado. É o conforto, o fim do sacolejo no carro e a valorização do imóvel. Justíssimo.
Mas, como diz o ditado, a natureza não lê projeto de engenharia e nem pede licença para passar. Enquanto celebramos o fim da lama, esquecemos que o solo, antes poroso e receptivo às águas do céu, agora está selado. Virou uma imensa pista de patinação para a chuva. E é aí que o sonho do asfalto lisinho esbarra no pesadelo do bueiro entupido.
As chuvas recentes que castigaram tanto o nosso Centro quanto a periferia são o lembrete de que a conta da impermeabilização chega rápido. Não precisamos ir longe na memória: as tragédias de 2023 e 2024 no Rio Grande do Sul deixaram cicatrizes que ainda latejam. O clima mudou, as “águas de março” agora vêm em janeiro, fevereiro e com a fúria de um ano inteiro em poucas horas. Diante disso, olhar para a rua apenas como um tapete para pneus é um erro estratégico que o futuro não vai perdoar.
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Recentemente, demos um passo interessante com a lei do “bueiro inteligente”, proposta pelo vereador Serginho Moraes. A ideia de instalar cestos que filtram o lixo e impedem o entupimento das galerias é aquele tipo de solução que nos faz pensar: “Por que não fizemos isso antes?”. É o básico bem feito. No entanto, o bueiro inteligente é apenas o goleiro de um time que está jogando sem defesa. Ele evita que a sujeira trave o fluxo, mas não faz o milagre de sumir com o volume de água que a cidade, cada vez mais concretada, não consegue mais absorver.
Precisamos falar sobre “cidades-esponja”. O termo parece coisa de desenho animado, mas é a vanguarda do urbanismo mundial. Em Curitiba, São Paulo e até na Europa, o conceito de “jardim de chuva” tem transformado o visual urbano e a segurança dos moradores. Trata-se de usar a criatividade para criar depressões verdes, canteiros rebaixados e áreas com vegetação nativa que funcionam como verdadeiros pulmões hídricos. Em vez de a água correr desenfreada para o ponto mais baixo da cidade, causando o alagamento clássico, ela é convidada a ficar, infiltrar e ser filtrada pelo solo.
Imagine a nossa Santa Cruz, já tão bela com suas tipuanas, adotando esses jardins em rotatórias, calçadas e vagas de estacionamento. É o útil unido ao estético. Mas, para isso, a “vontade política” precisa sair do palanque e entrar na planta das obras civis. Precisamos de leis que exijam que novos prédios e condomínios não sejam apenas caixas de concreto, mas que prevejam reservatórios de detenção e áreas de absorção. Infraestrutura de drenagem é cara, demanda tempo e não costuma render fotos tão bonitas quanto a inauguração de uma praça, mas é o que mantém a cidade seca e o sono do cidadão tranquilo.
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Contudo, não adianta o poder público investir em galerias pluviais se o cidadão trata o meio-fio como extensão da lixeira. A educação ambiental ainda é o melhor filtro para qualquer bueiro. O sofá que vai parar no arroio, o papel de bala jogado na calçada e a mania de cimentar até o último centímetro quadrado do quintal são pequenas contribuições para o grande caos das enchentes.
A prevenção é um esforço coletivo. É um pacto entre quem governa e quem habita. Se quisermos continuar desfrutando do conforto do asfalto sem o medo da enxurrada bater à porta, precisamos aprender a conviver com a água, em vez de apenas tentar expulsá-la o mais rápido possível para o vizinho de baixo. Afinal, uma cidade inteligente não é apenas aquela que tem Wi-Fi na praça, mas aquela que sabe para onde a chuva vai quando o céu decide descer.
Cuidar do que é público é, essencialmente, garantir que o nosso privado não vá, literalmente, por água abaixo. E isso, convenhamos, não é apenas engenharia; é bom senso.
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