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Para onde Santa Cruz do Sul avança

É nas direções norte e leste que o mapa de Santa Cruz do Sul avança em alta velocidade. Nos últimos anos, a expansão imobiliária no quinto maior PIB do Rio Grande do Sul vem se concentrando nas regiões de Linha Santa Cruz e João Alves. Segundo estimativas da Prefeitura, no decorrer da próxima década, mais de 30 mil pessoas podem se estabelecer nesses dois bairros.

O cálculo leva em conta loteamentos populares e condomínios fechados já autorizados, em tramitação ou ainda em fase de projeto. Só em Linha Santa Cruz, são 6 mil lotes previstos. Já para João Alves, 5 mil. A ocupação média, segundo a Secretaria Municipal de Planejamento, é de três pessoas por lote. Isso deve levar a um boom de construções, embora, por enquanto, a oferta de lotes aumente em ritmo maior do que o volume de edificações. Entre 2012 e 2016 foram 71,3 mil metros quadrados aprovados para Linha Santa Cruz e 19,4 mil metros quadrados para João Alves. Os índices são inferiores aos de bairros mais centrais, mas essa tendência deve se reverter nos próximos anos. Isso também deve multiplicar a população nessas áreas, que em 2010, segundo o IBGE, era de 2,8 mil pessoas em Linha Santa Cruz e apenas 303 pessoas em João Alves – os números já estão defasados, mas não há estimativa oficial mais atualizada.

A expansão das duas regiões está diretamente relacionada, segundo o secretário de Planejamento, Jeferson Gerhardt, à disponibilidade de grandes extensões de terra desocupadas e às condições dessas áreas, o que faz com que sejam, na prática, os únicos sentidos para onde a zona urbana pode crescer, enquanto outros pontos têm mais restrições. É o caso da região do Lago Dourado (por ser uma área de várzea), do Cinturão Verde (em função dos limites legais de preservação) e do Distrito Industrial (por ser uma zona de concentração industrial).

Segundo Gilmar Ferreira dos Passos, proprietário da Construtora Casanova, responsável pelo primeiro loteamento implantado em João Alves, questões de infraestrutura impulsionaram o fenômeno imobiliário. No caso de João Alves, foi determinante a ampliação das redes de água e esgoto. Já para Linha Santa Cruz, cujo crescimento é mais recente, pesou a obra do viaduto junto ao acesso pelo Trevo Fritz e Frida, que deve melhorar a mobilidade na conexão com o Centro; e a implantação, prevista para até o fim do ano, de um reservatório de água de grande porte, viabilizada em parceria pela Corsan, Prefeitura e empreiteiras.

Fuga do agito

A demanda por lotes habitacionais nesses bairros reflete o interesse de um número cada vez maior de pessoas por migrar para pontos mais retirados da zona urbana. Segundo a presidente da Sociedade de Empresas Imobiliárias de Santa Cruz (Siesc), Cátia Riesch, o que se busca é qualidade de vida. “São principalmente casais jovens com filho ou com planos de constituir família que querem morar em casa com pátio, mais próximos da natureza, com menos população, onde as crianças podem brincar na rua e ao mesmo tempo perto do Centro”, observa.

Essa era a expectativa do casal Rosimere Voos, de 27 anos, e Charles Brutscher, 31, quando construíram a casa própria em Linha Santa Cruz. Embora ambos trabalhem no Centro – ele como pedreiro e ela como supervisora –, a opção foi por uma região mais tranquila. Fatores como arborização, menos trânsito e até as relações de vizinhança fazem com que, passados quatro anos, a avaliação seja positiva. “A comunidade é muito unida e nos recebeu muito bem. Hoje conhecemos todo mundo da rua e, quando viajamos, cuidam da casa para nós. Também sempre vemos pessoas na rua, tomando chimarrão. Até pensamos em um dia ir para uma casa maior, mas não queremos sair do bairro”, relata Rosimere.

Embora os horários de trabalho do casal sejam menos convencionais, o que permite que evitem os momentos de fluxo mais intenso de trânsito, eles não veem a distância em relação ao Centro como um problema – mesmo que o viaduto ainda não esteja pronto. Além disso, para Rosimere, estar retirada fora da região mais movimentada da cidade é saudável. “Quando estou vindo para cá depois do trabalho, sinto como se estivesse ‘me desligando’”

Para eles, a expansão da região é cada vez mais notável. “A nossa rua só aumenta. Cada vez que dou uma volta de bicicleta, percebo que tem uma casa nova. E no mercado a fila é cada vez maior”, conta Charles.

Preços são até 40% mais baixos

O preço é outro atrativo para essas regiões. Um lote em João Alves, por exemplo, pode custar até 40% menos do que em um bairro adjacente ao Centro, como Arroio Grande, Santo Inácio, Goiás ou Universitário. “Um terreno que em um desses bairros custa R$ 100 mil ou R$ 10 mil, em João Alves custaria em torno de R$ 60 mil”, afirma Cátia Riesch. De acordo com Cátia, mesmo com a valorização decorrente das migrações, a tendência é que a diferença de preço permaneça. Para ela, tudo indica que a expansão para essas regiões vai continuar. “A expectativa é de aumento. No caso de Linha Santa Cruz, quando o viaduto estiver pronto, acredito que a procura vai crescer ainda mais”, comenta.

OS DESAFIOS

Embora os bairros sejam procurados em função da qualidade de vida, o crescimento populacional de João Alves e Linha Santa Cruz deve gerar, nos próximos anos, novas demandas em termos de infraestrutura e serviços. As regiões devem estar entre as prioridades do futuro Plano Municipal de Mobilidade Urbana.

LINHA SANTA CRUZ

O que falta

Embora o viaduto no Fritz e Frida deva resolver o drama do acesso, intervenções no interior do bairro já são urgentes. É por isso que, conforme o secretário Jeferson Gerhardt, a Prefeitura reivindica, junto ao Estado, a municipalização da ERS-418 (conhecida como Avenida Orlando Oscar Baumhardt), no trecho entre o entroncamento com a RSC-287 e o trevo que leva a Boa Vista e Monte Alterne. A ideia é que, sob gestão do município, a rodovia possa receber novas rótulas, ciclovias e ampliação de faixas. Além disso, com a intensificação do fluxo de veículos, um acesso alternativo ao bairro deve ser previsto para o médio prazo.

Segundo o presidente da Associação de Moradores de Linha Santa Cruz (Amorlisc), Claudiomiro Flores, a implantação de uma escola de ensino médio no bairro é uma das principais necessidades. “Isso evitaria que, como acontece hoje, pessoas daqui e de localidades do entorno tivessem que ir ao Centro todos os dias”, diz. Outras demandas são um posto policial – que já está sendo implantado – e agências bancárias, já que hoje o bairro tem apenas uma.

JOÃO ALVES

O que falta

Com um fluxo cada vez mais intenso, a ligação entre João Alves e o Centro é frequentemente apontada como a próxima a entrar na lista dos gargalos do trânsito santa-cruzense. Segundo Gerhardt, o ideal seria a implantação de um acesso direto entre a região e a Zona Sul, através do Bairro Aliança, e uma conexão com a Zona Norte. “Assim, quem vem de Linha Santa Cruz, ou de Porto Alegre, poderia chegar a João Alves sem ter que passar pelo Centro”, observa.

Para um dos líderes de João Alves, o produtor rural Danilo Hentschke, que tem 63 anos e é morador do bairro desde criança, o trânsito é uma das principais preocupações. “Tem muita gente que mora aqui e trabalha no Centro, e a ligação está cada vez mais estrangulada”, disse. Outro aspecto é a segurança. “Alguns roubos que antes não aconteciam agora estão acontecendo, então um posto policial também seria importante.” Além de uma escola de ensino médio, Hentschke acredita que o bairro precise de um necrotério e de outras melhorias nas vias, como acostamentos.

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