A decisão da cúpula da Câmara de permitir que maridos e mulheres dos deputados tenham direito a passagens aéreas provocou um burburinho nos corredores da Casa e num plenário com mais de 300 deputados em plena quinta-feira, 26. Divididos, os parlamentares recorreram a piadas e até fizeram verdadeiros exercícios verbais para justificar a concessão do benefício, mas boa parte assegurou que não vai usar a regalia. Pela regra, só os cônjuges com registro em cartório poderão utilizar a cota de passagens do congressista.
A medida foi aprovada junto ao reajuste de outras verbas à disposição dos deputados, que totalizam um impacto de R$ 150,3 milhões por ano. Nas rodas de conversa, as reações foram diferentes, mas é consenso o desgaste trazido pela Casa num momento que o país discute um ajuste fiscal. A benesse ganhou até apelido de “bolsa esposa” e “transpatroa”. O deputado Tiririca (PR-SP) defendeu. “Estou na minha. Eles fizeram e não vou ser hipócrita de dizer que não vou usar”, afirmou.
Jair Bolsonaro (PP-RJ) considerou que a Casa extrapolou. “Não tem como defender”, disse. O líder do PRB, Celso Russomano (SP), sustentou que não vai fazer uso da medida, mas que não tem posição sobre o benefício. “Vou fazer uma consideração da vida parlamentar: você vem para Brasília, abandona sua família e muitos casamentos vão para o vinagre por causa disso”, ponderou. Para Marco Feliciano (PSC-SP), a medida é justa, mas arranha a Casa. “É justo, mas é mais um desgaste para a imagem do Parlamento que já está desgastado demais.”
Publicidade
Integrante da cúpula da Câmara, a deputada Luiza Erundina (PSB-SP) votou contra a concessão. “A sociedade vem colocando uma posição de muita indignação e reclamação em relação à Casa. Neste momento, acentua ainda mais o distanciamento entre o Parlamento e a sociedade.” Chico Alencar (PSOL-RJ) disse que está tendo que se explicar a todo minuto se vai usar ou não a regalia. Até o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), se apressou em negar que haja regalia . “Não tem esse negócio de namorada, não existe isso”, disse ao rebater as críticas.
Em 2009, durante o escândalo que ficou conhecido como “farra das passagens”, deputados usaram recursos públicos para custear passagens para familiares, namoradas, eleitores e até artistas. Na época, a Casa restringiu os bilhetes a deputados e assessores.
Publicidade