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Washington D.C.

Pelo mundo: a geometria do poder

Foto: Arquivo Pessoal

O centro: Casa Branca é a sede do poder executivo da maior economia do planeta

Em um discurso recente diante do presidente estadunidense, o Rei Charles III fez uma brincadeira com relação à demolição da asa leste da Casa Branca, local onde Trump pretende construir um enorme salão de festas. O monarca britânico lembrou que foram os britânicos que fizeram a primeira destruição por ali, em 1814. Ele se referia ao incêndio de parte da sede do executivo durante a invasão britânica no início do século 19. Trump, conhecido pelo seu estilo pouco acadêmico, pareceu não captar a referência histórica.

Mesmo para quem não gosta de leitura, a capital dos Estados Unidos é um livro aberto de simbolismo e poder. A primeira república constitucional moderna fez questão de exaltar os símbolos e a grandiosidade ao erigir seu distrito federal (Distrito de Columbia). Da independência, em 1776, até 1790, a sede do governo americano foi a cidade de Filadélfia. Um ato do congresso determinou que fosse construída uma nova capital, localizada em território neutro, fora da estrutura dos estados. 

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Nascia Washington, às margens do Rio Potomac, entre os estados de Maryland e Virgínia. No início de 1791, o então presidente George Washington contratou o arquiteto francês Pierre L’Enfant para projetar a cidade que levaria seu nome e cujo distrito homenageia Cristóvão Colombo.

L’Enfant, influenciado por princípios iluministas e algumas referências maçônicas, desenhou uma cidade carregada de símbolos e formas geométricas. O portentoso Capitólio, sede do Congresso Americano, define o ponto central de onde irradiam as avenidas e distritos da capital. A cidade é repleta de alinhamentos astronômicos, com as principais avenidas formando uma espécie de pentagrama que abrange monumentos de inspiração grega, romana e egípcia, exaltando os valores democráticos e os heróis da nação. 

O monumento de Washington, obelisco egípcio de granito encimado por uma pirâmide de alumínio, metal mais valioso na época, foi construído em 1884 e representa a força e a união. O Memorial de Lincoln, de 1922, celebra outro herói nacional e foi pano de fundo para o histórico discurso “I Have a Dream”, de Martin Luther King, na luta pelos direitos civis.

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O plano do arquiteto L’Enfant foi capaz de absorver até mesmo a modernidade que ele sequer imaginava, como o atual tráfego urbano de veículos. Ao mesmo tempo, é uma cidade amigável aos pedestres, algo frequentemente apontado como limitação urbanística de Brasília.

O grandioso Passeio Nacional (National Mall), vasta alameda e eixo do poder institucional, é ladeado pelos prédios do Instituto Smithsonian, um dos complexos de museus mais interessantes do planeta. Ainda no aspecto cultural, a Biblioteca do Congresso Americano é a segunda maior do mundo, com quase 200 milhões de itens catalogados, atrás apenas da Biblioteca Britânica. Do ponto de vista histórico e simbólico, poucas cidades americanas oferecem experiência comparável.

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É claro que simplesmente entrar em uma biblioteca não faz de ninguém um sábio por osmose literária. É preciso ler. Em Washington, com um mínimo de conhecimento sobre a história americana, cada caminhada traz uma revelação do livro aberto da arquitetura de L’Enfant. Resta esperar que ornamentos dourados, salões de baile e arcos megalomaníacos do atual mandatário não se tornem uma mancha em um livro tão bem escrito.

Poucos dias depois da visita oficial de Charles aos Estados Unidos, Trump, em sua visita a Pequim, recebeu outra evocação histórica vinda de um líder estrangeiro. O líder chinês Xi Jinping usou um conceito clássico grego, a Armadilha de Tucídides, para propor uma forma diplomática de pacificar a situação mundial e, ao menos em teoria, amenizar a crescente guerra fria entre as duas maiores potências, uma em aparente declínio e outra em franca ascensão.

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Em sua obra sobre a Guerra do Peloponeso, Tucídides (século 5 a.C.) narrou o conflito brutal entre Esparta e Atenas, de 431 a 404 a.C. O historiador grego percebeu que a real origem da guerra não está em disputas por poder e riqueza, mas sim no medo de que o rival cresça e o ultrapasse. Esparta temia o crescimento de Atenas, assim como os EUA temem o avanço chinês.

Xi Jinping recuperou a reflexão do historiador grego para defender, ao menos no plano diplomático, a necessidade de evitar que a competição estratégica entre as duas maiores potências do século 21 desemboque em confronto direto. O espírito de Tucídides, pairando entre Washington e Pequim, alimenta a esperança de que a diplomacia e a racionalidade consigam prevalecer sobre a lógica histórica do choque entre impérios.

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