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Pelo Mundo: alta tecnologia e longos chifres

Centro Médico do Texas em primeiro plano e, ao fundo, a área central da cidade

Recém-contratado por uma empresa do ramo petrolífero com sede em Houston, fui convidado por um dos diretores para jantar na casa dele. Em frente aos portões do condomínio fechado, guardas fortemente armados inspecionaram o veículo e meus documentos. Ao chegar na elegante residência do colega, notei nos jardins da casa ao lado uma intensa movimentação de seguranças e carros policiais, e logo perguntei ao meu anfitrião se havia algum problema com o vizinho. A resposta veio com um leve sorriso: “Tudo normal. Ali mora o ex-presidente George Bush Senior”. A família Bush está fortemente ligada ao Texas, embora os dois presidentes tenham nascido em estados da Nova Inglaterra (Connecticut e Massachusetts).

Houston, a maior cidade do Texas, é uma metrópole relativamente nova. Com frequentes tempestades, furacões e verões escaldantes alimentados pelo abafado Golfo do México, a quarta maior cidade americana cresceu exponencialmente a partir do início do século 20 graças, principalmente, às descobertas de vastas reservas de petróleo e, não menos importante, à invenção do americano Willis Carrier: o condicionador de ar, que permitiu condições mais habitáveis para humanos em um clima mais propício para répteis e anfíbios.

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Atualmente, intempéries tropicais são detectadas com dias de antecedência e relativa precisão. No passado, isso não era possível. Poucos quilômetros ao sul de Houston, a cidade costeira de Galveston foi palco do maior desastre natural da história americana quando, em 1900, um furacão de categoria quatro (ventos de 250 quilômetros por hora e ondas de até seis metros de altura) pegou desprevenidos os 37 mil habitantes, arrasando a cidade e matando um quarto da população. Nos sete anos que morei em Houston, enfrentei alguns furacões, cobrindo aberturas da casa com tábuas e
dormindo com capacete ciclístico embaixo da estrutura da escada. O mais violento foi o furacão Ike, em 2008, que deixou meu bairro por duas semanas sem energia elétrica, sem água e praticamente sem vizinhos, que haviam escapado em massa para o norte do estado. Passada a tempestade, resgatei de dentro da piscina móveis do jardim, churrasqueira portátil e muitos galhos de árvores.

Uma característica do Texas, e de Houston em particular, é o contraste entre hábitos rurais e bucólicos, como a criação de 16 milhões de cabeças de gado e as tradições que remontam ao século 18, e impressionantes centros de tecnologia, como uma das principais sedes da agência espacial Americana, a Nasa (a missão Apollo 13 tornou famosa
a frase “Houston, temos um problema”), o maior complexo médico do mundo (Centro Médico do Texas), excelentes universidades, museus e a pujante indústria dos hidrocarbonetos, que fez de Houston a capital mundial do petróleo.

Outra particularidade marcante do Texas, mais do que no restante dos Estados Unidos, é a cultura enraizada das armas de fogo entre a população. Não falo somente em pistolas e fuzis, mas também na proliferação de armamento semiautomático e de uso militar nas mãos de civis. O acesso a esse arsenal é fácil, especialmente nas feiras de armas, e quem não tem uma ou várias em casa acaba se tornando exceção. Além disso, o estado é notado pela aplicação quase trivial da pena de morte, com um terço de todas as execuções do país levadas a cabo na prisão estadual de Huntsville, 100 quilômetros ao norte de Houston. A obsessão com a morte como solução, contudo, parece não gerar resultado prático. Os índices de criminalidade, os frequentes atiradores em escolas e locais públicos, o número de assassinatos etc., são indicadores que falam por si, e os últimos anos mostram que a pena capital tende a cair em desuso. É claro que, para quem é nascido e criado imerso em tal realidade, torna-se difícil deixar de achar isso tudo muito normal e necessário.

No livro Ensaio sobre a cegueira, José Saramago define o medo como a maior de todas as desculpas. De forma especial em países com pouca bagagem histórica, como nas Américas, pessoas chegam ao descalabro de sacrificar racionalismo, humanidade e a própria liberdade em favor de uma pseudossegurança. Com isso, ideologias políticas baseadas no medo da violência e do terrorismo, na xenofobia ou no pavor do marxismo e de outros anacronismos acabam, eventualmente, se tornando plataformas de governo.

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