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FRONTEIRAS

Pelo mundo: cicatrizes da geografia (final)

O sol ainda não havia nascido quando zarpei de Cingapura para uma viagem marítima até a ilha de Karimum, na Indonésia, onde visitaria uma empresa local da área do petróleo. Ao desembarcar, duas horas depois, fui abordado por um cidadão de calção e chinelos que, sem se identificar, perguntou: “Parizzi?”. Eu mal havia terminado o “yes” quando ele arrancou o passaporte de minhas mãos e desapareceu entre a multidão que fervilhava no pequeno e precário porto.

Sem tempo de reagir, aguardei estático por longos 30 minutos, já elaborando um plano de salvamento diplomático. Foi um alívio vê-lo ressurgir sorridente com os documentos aprovados pela imigração local. Não importa o quão emocionante e prático seja entrar em um país por via aérea, nada se compara a atravessar fronteiras por via terrestre (ou aquática). Além da experiência descrita acima, deixo aqui mais algumas das muitas que marcaram, pela circunstância inusitada ou pelas enrascadas em que me vi metido.

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Fronteiras de países em conflito sempre reservam surpresas. Ao entrar na Armênia, em meio ao conflito territorial com o Azerbaijão, que também tensionava a fronteira com a Geórgia, de onde eu vinha, enfrentei uma longa sequência de questionamentos até conseguir convencer os oficiais de que minha única intenção em solo armênio era visitar templos protocristãos no norte do país.

Uma das fronteiras mais singulares por que passei foi entre a Moldávia e a Transnístria, um pequeno país de fato que é reconhecido (e protegido) apenas pela Rússia. Foram inúmeras barreiras fortemente armadas até chegar à capital, Tiraspol. A estreita faixa de terra entre Moldávia e Ucrânia é ainda hoje um museu vivo da antiga União Soviética.

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Barreiras ainda mais militarizadas estão presentes nos territórios palestinos ocupados por Israel. No caminho para visitar uma empresa na Cisjordânia, fui bem tratado pelos soldados israelenses, mas também testemunhei a hostilidade dispensada pelos militares, sempre com o dedo no gatilho, aos residentes palestinos em seu próprio território.

Igualmente inusitada foi a travessia de fronteiras na dividida capital cipriota, Nicósia, na ilha de Chipre. Passei com a família no controle de fronteiras, improvisado em barracas e contêineres sobre a região desmilitarizada. Duas culturas bem distintas separam o Chipre de origem grega, no sul da ilha, do Chipre do Norte, reconhecido apenas pela Turquia.

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A experiência possivelmente mais marcante foi no limite conhecido como Área de Segurança Conjunta entre as Coreias do Sul e do Norte, países que permanecem sob armistício desde a Guerra da Coreia (1953). Como um retrato congelado da Guerra Fria, militares de um mesmo povo encaram uns aos outros ininterruptamente há mais de sete décadas. Entrei brevemente no país de Kim Jong Un sob o olhar atento de militares dos dois países e dos Estados Unidos.

Com ou sem conflitos, a América Latina é notória pela burocracia e por complicações de fronteiras, com instalações de imigração precárias e, não raramente, marcadas por episódios de corrupção.
A pior situação se dá quando nos deparamos com agentes de índole duvidosa. Partindo da Argentina, atravessei de carro com amigos santa-cruzenses a Ponte Internacional San Roque González, que atravessa o Rio Paraná ligando Posadas à cidade de Encarnación, no Paraguai.

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No controle de fronteiras, um funcionário paraguaio ordenou que passássemos diretamente. Minha intenção na terra de Solano López era economizar alguns trocados adquirindo pneus novos para o veículo, bem mais baratos que no Brasil. Poucas horas depois, no retorno à Argentina, o mesmo velhaco funcionário solicitou o documento de entrada do veículo no Paraguai.

Ficou evidente a má-fé e, a partir daí, a estratégia de imigração precisa mudar completamente. Na ausência do documento solicitado, o agente nos ameaçou com uma pesada multa em dólares por cada ocupante do veículo. Pedi que me mostrasse a citada lei, e fomos levados ao escritório do posto de fronteira. Havia realmente o registro da multa, escrita à mão em um caderno espiral. Após animada negociação, saímos do local pagando uma fração da multa original. Economizei nos pneus, e derrapei no agente paraguaio espertalhão.

Fronteiras são também símbolos físicos dos momentos em que precisamos enfrentar a incerteza e o medo. São oportunidades de ver nossa própria vida com perspectiva, em um exílio da bolha em que vivemos. Exilar-se por um tempo pode fazer bem à mente e ao espírito. Atravessar fronteiras, terrestres ou nos limites de nossas incertezas, é saudável e necessário, ainda que não seja previsível.

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