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Coronavírus

Profissionais de saúde relatam a situação na linha de frente

Foto: Alencar da Rosa

Desde o início de 2021, com a disparada no número de casos da Covid-19 em nível nacional e a recente superlotação dos hospitais, muito tem se falado em ampliar a capacidade de atendimento, ainda que isso já esteja ocorrendo em praticamente todos os municípios e instituições. No entanto, ampliar a capacidade não se trata somente de espaços físicos, equipamentos e insumos. Trata-se, principalmente, da manutenção e contratação de novas equipes de saúde para trabalhar nesses locais.

Grande parte desses profissionais já atuam em algum dos setores que recebem pacientes com confirmação ou suspeita da Covid-19 nos hospitais. Ainda que eles utilizem todos os equipamentos de proteção individual disponíveis para tentar evitar o contágio, muitos já tiveram a doença, e mantêm a preocupação constante de levar o vírus para casa.

Além disso, a sobrecarga de trabalho, a superlotação dos leitos e o pouco engajamento da população nas medidas de prevenção também causam angústia e abalo psicológico a esses profissionais, que buscam forças para seguir em frente e manter o atendimento a quem necessita.

Rafael Foernges
Médico intensivista da UTI Covid-19
Nós, médicos intensivistas, temos a nossa formação de dois anos num ambiente fechado, já com esse tipo de vivência. Contudo, existe uma pressão, porque normalmente recebíamos os familiares aqui para dar notícias, tínhamos um processo de humanização para liberar visitas nas UTIs e tudo isso foi se perdendo. Temos que dar todo o suporte psicológico para os pacientes, explicar a ausência da família, tentar uma videochamada, um último contato antes da intubação.

Tudo isso nós fazemos, depois sentamos e realmente existem momentos de abalo, de tristeza. Temos situações dentro da UTI em que nos olhamos e dizemos uns aos outros que temos de seguir em frente e cuidar dos nossos pacientes. Nós estamos em isolamento. O pessoal em casa também está sufocado e, na dúvida, acaba saindo. É complicado para nós vermos isso. Muitas vezes, as pessoas acham que é simples o que está acontecendo porque não ocorreu com nenhum de seus familiares e amigos.

Temos inúmeras, que nunca contamos, famílias destruídas, que perderam três pessoas em uma UTI. Tudo isso já aconteceu neste ano em Santa Cruz. Então, quando vemos o comportamento da população, parece que eles estão ignorando essas pessoas porque não acontece consigo. Recentemente conversei com um paciente e ele me disse que pensava que nunca ia acontecer com ele. Nós vemos muito disso, e abala o nosso psicológico. A nossa equipe tira forças não sei de onde para seguir, talvez porque nos propusemos a fazer isso, a cuidar do bem-estar das pessoas. E fazemos isso com todos que estão aqui, independentemente do comportamento que tiveram antes de chegar. Mas se esse comportamento nos machuca, machuca sim.

William Rutzen
Médico intensivista da UTI Covid-19
Os pacientes que internam conosco habitualmente ficam por um tempo muito prolongado, então, quando temos um aumento de demanda, demora um tempo até que consigamos dar conta de todos eles.

Dentro da UTI ainda não tivemos alívio, estamos com todas as unidades lotadas e todos os respiradores ocupados. Quando um paciente evolui bem e tem alta, ou quando evolui mal e vai a óbito, desocupamos o leito e já temos outro paciente pronto para ser trazido. Auxiliamos também os colegas nas emergências, manejando a ventilação mecânica dos pacientes que já estão intubados e ainda não têm leito disponível na terapia intensiva. A nossa rotina há três semanas tem sido de matar um leão por dia. A equipe trabalha totalmente acima da sua carga horária pretendida, com colegas fazendo 400 horas de plantão por mês, isso num contexto em que o mês tem 730 horas.

Nós estamos no nosso limite, e existe um esforço grande dos hospitais em nos prover tudo o que precisamos para trabalhar, mas o próprio fornecimento das medicações é imprevisível. Por vezes falta uma, por vezes falta outra, e vamos nos ajustando àquilo que temos. O pessoal dos setores de compras e das farmácias dos dois hospitais se mobiliza dia e noite, eles têm trabalhado também quase 24 horas por dia, sete dias por semana para conseguir, e quando conseguimos um lote de medicação que estávamos precisando é motivo de muita comemoração. Trabalhamos no limite, mas em Santa Cruz do Sul estamos conseguindo manter todas as equipes que trabalham em UTIs compostas por especialistas. Eu não conheço nenhuma outra cidade do interior do Estado que esteja conseguindo manter isso.

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Mariclen da Silva Pereira

Mariclen da Silva Pereira
Enfermeira do ambulatório Covid-19
Eu sou a enfermeira responsável pelo turno da manhã aqui no ambulatório Covid-19, e faço parte do quadro do Hospital Ana Nery há seis meses. Desde que comecei aqui eu trabalho na linha de frente, e sempre tivemos esse sentimento de incerteza.

Nesse sentido nós temos percebido, e isso até nos emociona enquanto supervisores, a mobilização das equipes. Temos colegas de outros setores que vêm nos dar apoio. Enquanto pessoa me sinto muito preocupada, venho trabalhar aflita, especialmente nesses últimos dias. Aqui dentro a gente se cuida, em casa também procuramos nos cuidar, mas sentimos que a população não está engajada na questão do isolamento. Quem circula sabe que, apesar de todas as medidas, ainda tem pessoas que não acreditam na pandemia e na gravidade da doença.

A mensagem que eu deixo é para que a população pense que tem gente que não possui a opção de ficar em casa. Tem muitas pessoas vulneráveis na nossa sociedade e que não têm alternativa. Quem puder fique em casa, e se conscientize de que o vírus é grave. A doença é devastadora para as famílias.

Fernanda Corrêa Paz

Fernanda Corrêa Paz
Enfermeira da ala clínica Covid-19

Nós nos preparamos, depois de ver a situação de colapso total em outros estados, porém não imaginávamos que aconteceria aqui. Nós percebemos essa sobrecarga, é um cuidado que precisamos ter porque também temos medo de levar para os nossos familiares em casa. É uma insegurança muito grande.

Ver que a população não está engajada para se prevenir é uma coisa muito revoltante. Em janeiro vimos muita gente nas praias, em fevereiro teve o Carnaval e agora estamos aqui nessa situação. Tem gente morrendo, outros passando mal esperando leito, enquanto nós estamos de mãos atadas sem ter o que fazer. E isso tudo por causa da negligência da população, que não respeitou as medidas necessárias de isolamento.

A Covid-19 não é brincadeira, muita gente não acredita ainda, e isso é uma coisa que tem que ser dita. Muitos pensam que é só uma gripezinha, que não é nada, que é coisa de política, e realmente não é. É muito complicado, e a população tem que colocar na cabeça que precisa ficar em casa. É disso que as pessoas precisam se conscientizar.

Michele J. Wendland

Michele J. Wendland
Enfermeira da ala clínica Covid-19
Nós passamos por várias etapas. No início esperamos que tivesse um grande fluxo e isso acabou não se confirmando. Ao longo dos meses a situação foi oscilando, enquanto nós tínhamos muito medo e receio.

Esses meses de fevereiro e março foram horríveis para nós, ver a clínica lotada nos apavora. Nós nunca vencemos a demanda, tínhamos o preparo para dez ou 15 leitos e hoje já estamos com 32, e ainda com gente esperando para internar. Nós vamos para casa já pensando o que nos espera no outro dia.

Os pacientes têm vindo cada vez mais graves, então você ver uma pessoa sofrendo, na necessidade de um leito de UTI e não poder fazer nada, é muito angustiante. A mensagem que eu deixo é para que se cuidem, a Covid é real. Eu recebo mensagens de pessoas dizendo que agora estão preocupadas, mas elas já deveriam estar preocupadas desde o ano passado. Parece que as pessoas não acreditam no que a gente fala, no que a imprensa fala, elas têm que vir para o hospital para ver a realidade. Esqueçam a política e respeitem as medidas, é a única coisa que podemos fazer para evitar o vírus.

Carolina de F. Dolianitis e Bruna Letícia da Silva

Bruna Letícia da Silva
Enfermeira da UTI Covid-19
Está sendo muito desgastante para nós, profissionais de saúde. Muitas vezes temos que dobrar o turno devido à falta de pessoal, até porque os profissionais também adoecem e nós precisamos cobrir os que faltam. Além do desgaste físico também existe o desgaste mental, mas nós estamos aqui, na batalha contra esse vírus. Nós também somos humanos, e prestamos a assistência mais humanizada que conseguimos para o nosso paciente. Muitas vezes acaba caindo na rotina, sendo mecanizado, mas temos que lembrar que nós e também os nossos pacientes são seres humanos.

Os casos atuais são muito graves, nós temos percebido que mudou totalmente o perfil dos internados. São pessoas mais jovens, e normalmente elas aguentam, mas em algum momento desistem e querem ser intubadas. Então nós pedimos à população que respeite o isolamento social, que as pessoas evitem sair se puderem ficar em casa, usem as máscaras e tenham cuidado. Eu sou enfermeira especialista em terapia intensiva e, nos três anos em que já trabalho na área, é a primeira vez que eu vejo uma situação como essa.

Carolina de F. Dolianitis
Técnica em enfermagem da UTI Covid-19
Nós, técnicos de enfermagem, estamos integralmente com o paciente. Somos quem auxilia na medicação, na parte de lazer, quando ele vai descansar somos nós quem fazemos essa parte também. Para nós o paciente não é só o paciente, ele é o amor de alguém. É um pai, uma mãe, um filho. Nós estamos sobrecarregadas tanto física como emocionalmente, e isso pesa muito.

Apesar de vermos números o tempo todo, de óbitos e de infectados, aqui dentro tentamos fazer com que o paciente se sinta como uma pessoa, e não apenas como mais um número. Eles têm nome, idade e a família deles, então para nós não são só mais alguém, são os nossos pacientes.

Agora em março está fazendo um ano que não vejo ninguém da minha família, porque eles são grupo de risco e, para não colocá-los em risco, eu preferi me resguardar. Assim como estou fazendo por eles, acredito que também estou fazendo pelas famílias dos pacientes. Isso é gratificante, ao mesmo tempo em que também é um pouco triste não poder estar junto neste momento e ser acolhida pela minha família.

Márcia Barros

Márcia Barros
Técnica em enfermagem do ambulatório Covid-19
Eu sou funcionária do centro cirúrgico, mas como algumas das nossas cirurgias eletivas foram canceladas em função do que está acontecendo, fui remanejada para o ambulatório Covid e estou aqui desde o dia 28 de fevereiro, sem previsão de retornar até que a situação melhore. Eu tenho família, eu tenho filho, e então tenho medo de tudo que está acontecendo, mas mesmo com medo estou aqui, tentando manter a calma para ajudar quem chega. Como não podemos ficar em casa, pedimos para quem pode que fique em casa, se cuide e tente evitar aglomerações. No centro cirúrgico, eu não tinha noção do que estava acontecendo, mas saindo de lá e vindo aqui pro ambulatório tive a ideia do que ocorre. Isso nos assusta um pouco, mas tentamos manter a calma porque precisamos ajudar. Estando aqui dentro, usamos todos os equipamentos para tentar nos cuidar, mas temos medo de levar o vírus para casa.

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