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TRAJETÓRIAS

Protagonismo feminino na saúde, na pesquisa e na docência

Foto: Nathana Redin/Gazeta da Serra

Janine e Bartira na Praça 3 de Dezembro, nas recentes férias em Sobradinho

Em 8 de março, quando o mundo celebra o Dia Internacional da Mulher, duas trajetórias entrelaçam para contar uma história que vai além das homenagens: é sobre ocupar espaços, transformar realidades e liderar com profissionalismo e sensibilidade.

A paulistana Bartira de Aguiar Roza e a sobradinhense Janine Schirmer, apesar de origens distintas – uma nascida na capital do estado mais populoso do país, e a outra no interior do Rio Grande do Sul – trilharam caminhos que as conduziram a estabelecerem raízes na mesma cidade grande, onde atuar com a saúde pública ganhou ainda mais sentido através da formação em comum: a enfermagem. O ponto de convergência também as leva a um propósito comum, o de trabalhar para a coletividade, contribuindo com um dos bens mais preciosos que temos: a saúde.

Enfermeiras por vocação, são fragmentos das jornadas destas profissionais da saúde, da pesquisa, da docência e da gestão que ilustram esta reportagem especial na semana da Mulher.

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Relevância e atuação que levam a reconhecimento internacional

Dra. Bartira de Aguiar Roza foi indicada para ser membro de Painel Consultivo da OMS

A enfermeira, pesquisadora e docente, Dra. Bartira de Aguiar Roza conheceu Sobradinho, na região Centro Serra, a convite de Janine Schirmer, há quase três décadas. A cidade tornou-se uma referência, especialmente para os momentos de férias, em que a correria da rotina ganha uma pausa. Por aqui, estabeleceu amizades, conheceu fatos, leu produções literárias locais e participou de recentes entrevistas na Rádio Gazeta FM 96.1.

Foto: Nathana Redin

Sua trajetória, que já era de relevante atuação no campo profissional, ganhou um novo capítulo com a indicação, em fevereiro deste ano, para ser membro do Painel Consultivo de Especialistas em Doação e Transplante da Organização Mundial da Saúde (OMS), em Genebra, na Suíça. Bartira foi nomeada entre 15 especialistas do mundo na área de doação e transplante.

Professora da Escola Paulista de Enfermagem junto à Universidade Federal de São Paulo (EPE/Unifesp), a docente já atua como colaboradora da Organização Pan-Americana da Saúde (PAHO/WHO) há algum tempo, nessa área, e chegou a morar em Washington, D.C., nos Estados Unidos, em 2023. No site da Unifesp, matéria que destaca a conquista ressalta que “a indicação, posteriormente formalizada pelo governo brasileiro e pela Organização Pan-Americana da Saúde (PAHO/WHO), em Washington, D.C., representa reconhecimento à relevância de sua produção acadêmica e à contribuição institucional desenvolvida no campo da doação, transplante de órgão e biovigilância”.

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Bartira se dedica com ênfase ao campo da doação, transplante e biovigilância | Foto: Alex Reipert (DCI/Unifesp)

A indicação é um dos frutos colhidos em uma caminhada iniciada ainda na graduação, quando despertou o interesse pela área de doação e transplante, na qual possui pós-doutorado, além de outras especializações, incluindo residência em Enfermagem Cirúrgica. “Desde quando eu era aluna de graduação, no início dos anos 1990, sempre fiz pesquisa. Desde lá eu queria trabalhar com transplante. Quando me formei, já sabia que queria atuar nesta área. Nunca imaginei que eu fosse ser uma pesquisadora reconhecida. As coisas aconteceram, vamos dizer, porque a vida foi caminhando. Eu precisava de respostas, e essas respostas só quem daria para mim era a ciência. Eu não ia obter respostas sem pesquisa”, revela Bartira.

As pesquisas foram se tornando cada vez mais frequentes e motivaram parcerias internacionais. “Eu já trabalhava no Hospital Israelita Albert Einstein quando iniciei o doutorado. Lá permaneci por 10 anos, até que decidi que me dedicaria mais intensamente à pesquisa e à sala de aula. Prestei concurso e comecei a trabalhar na Universidade Federal de São Paulo. Nos últimos sete anos, os organismos internacionais começaram a me sondar. Primeiro foi a ONU, com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), que procurou eu e a Janine – que também já atuava nesta área de doação e transplante -, e então começamos a trabalhar para implantar a biovigilância no Brasil, que é a segurança na área do uso terapêutico de órgãos, tecidos e células, o que foi possível em um trabalho conjunto com a Anvisa. Em 2023, veio a mudança para Washington, trabalhando para OPAS, comecei a ajudar os países, principalmente os da América Latina, nesta área. Depois disso veio o convite internacional para ir para Genebra e também ajudar a doação e transplante, mas agora em um nível global.”

Como atual membro do Painel da OMS, Bartira terá a função de contribuir com informações técnicas sobre sua área de atuação e oferecer aconselhamento, partilhando conhecimentos a partir de experiências realizadas no Brasil, com especialistas de diversas regiões do mundo e, com isso, aprimorar a área a partir de resoluções. O mandato será de quatro anos, podendo ser renovado. Além de uma atuação em rede, com reuniões de forma digital, também se preveem ações presenciais, que poderão resultar em viagens a alguns países.

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“O principal é saber que eu estou contribuindo para a melhoria desse sistema no mundo, para a melhoria da qualidade, da segurança e da rastreabilidade principalmente. Esse tem sido o meu foco nos últimos anos, que a gente melhore as questões de segurança nessa área. Eu sempre acompanhei as publicações da OMS, respeitei e estudei as questões relacionadas a transplante também no dia a dia, mas não esperava. Para mim, o maior acontecimento já tinha sido quando a ONU nos convidou – eu já tinha achado aquilo fantástico: ‘Nossa, como me enxergaram aqui no Brasil?’. E aí me enxergaram porque o governo brasileiro, a Anvisa e o Ministério da Saúde disseram que havia uma pesquisadora, uma pessoa no país que poderia fazer isso. Eu já estava muito grata por isso, e sou muito grata pela vida que tenho, mas eu nunca imaginava depois disso ter Washington e Genebra. Agora eu tenho um duplo trabalho, com a Universidade, com Washington e com Genebra. Isso é muito gratificante. Eu me sinto muito grata por saber que tem pessoas esperando e contando com a minha opinião aqui no Brasil, sinal de que a gente pensa aqui questões importantes a nível global.” 

Integrante da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), Bartira, assim como Janine, ressalta que o Brasil é reconhecido mundialmente como referência no sistema público de transplantes e doação de órgãos, e a Unifesp é referência em transplante no país. Como coordenadora da Comissão de Transplante, ela é quem está à frente deste setor no Hospital Universitário da Unifesp. “São muitas funções. Saio cedo de casa e, muitas vezes, volto tarde. Às vezes, não estou no hospital, mas terá um transplante e precisam da minha presença como professora, vou para lá e acompanho o deslocamento junto com a ambulância ou até mesmo de helicóptero. Atualmente este não é o meu dia a dia, porque há pessoas designadas para estas funções, mas às vezes ocorre de ser um caso mais grave ou que me chamam para acompanhar”, relata. 

Os aplausos após a nomeação no Painel da OMS foram valorosos para Bartira, mas eles vão além do caráter celebrativo: “Os alunos veem na gente uma possibilidade de crescimento muito boa. Alguns falaram: ‘professora, que orgulho, então a gente pode chegar lá!’ E eu respondi: ‘Na verdade, eu quero que vocês superem o professor, porque se fazemos todo o esforço, é para vocês nos superarem’. Eu gosto da docência. Adoro dar aula, ir para o hospital e estar com os alunos. É claro que meu tempo é corrido, entre várias funções, mas é muito gratificante também dar o exemplo para eles, de compromisso, de ética, de funcionamento com eficiência em um hospital público, no SUS”.

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Bartira também analisa a presença das mulheres na ciência, na saúde e na educação, a importância de ocuparem cada vez mais espaços e mostrarem suas contribuições. “As mulheres têm muito potencial. A gente tem muita garra, muita força. Eu acho que isso é interno da mulher, mas penso que a gente é muito resiliente também e, ao mesmo tempo, somos tão humanas, tão sensíveis, então isso me anima muito. Tenho um quadro na minha sala com retratos de mulheres na ciência, porque nós, mulheres mais experientes, professoras, temos que ajudar as novas gerações a enfrentar esses desafios, a passar por tantas coisas que a gente passa, porque não é fácil uma mulher se destacar, a gente vai ter sempre muita dificuldade, às vezes enfrentamento mesmo com os homens que não querem que a gente se destaque. E aí existem tantas dificuldades que as mulheres passam, ainda mais em áreas ‘ditas’ masculinas. A área da saúde hoje é uma área mais feminina, mas, mesmo assim, na ciência como um todo, ainda é muito difícil para as mulheres, então estamos ainda em um longo caminho de luta, de vez em quando com retrocessos no mundo, infelizmente. São pequenas coisas que nos fazem lembrar todos os dias que a gente precisa continuar lutando por um mundo de iguais; e nós somos diferentes o homem da mulher, ninguém quer lutar para ser igual em força, nós queremos ser respeitadas pela nossa capacidade intelectual, e pelas nossas diferenças também.”

Em uma vida dedicada à pesquisa, Bartira destaca sua gratidão pelas portas abertas pelo ensino e sua constante dedicação, e reforça um recado: “cada um de nós precisa pensar sempre na paz, e é a educação que vai mostrar que é possível um mundo melhor”.

Do atendimento voltado à saúde da mulher à combinação de pesquisa, docência e gestão

Sobradinhense Janine Schirmer se dedica à Enfermagem há mais de quarenta anos. Profissão a levou a São Paulo, onde hoje atua como diretora, professora e também com pesquisas

Nascida em Sobradinho, filha de Jary Schirmer e Rosa Branca Lazzari Schirmer, ambos in memoriam, uma entre os quatros filhos do casal, Janine Schirmer escolheu a Enfermagem como profissão. Fez dela não apenas sua formação, mas um propósito por meio do qual consegue alcançar aquilo que um dia talvez tenha sido apenas um sonho: contribuir com a saúde pública e a formação de novas gerações de profissionais.

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Formada em Enfermagem e Obstetrícia pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí), em Ijuí, Janine ansiava novos aprendizados. Ainda na década de 1980, inscreveu-se em uma especialização na capital paulista, e de lá não saiu mais. A busca constante por conhecimento, a fez participar, nas décadas seguintes, de dezenas de eventos acadêmicos. A experiência que seria temporária oportunizou a abertura de um caminho que a levou a cursar outras especializações, até tornar-se diretora da Escola Paulista de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo (EPE/Unifesp), cargo que ocupa atualmente.

Janine em recente visita à sua terra natal | Foto: Nathana Redin

O destino definitivo na capital paulista consolidou o trabalho ao longo das décadas, em uma trajetória que exigiu – e exige – dedicação e muito estudo. Para além dos corredores hospitalares, passou a desempenhar atividades na pesquisa e na composição de importantes grupos e organizações voltados à análise e aperfeiçoamento de áreas da saúde, especialmente aqueles ligados à saúde da mulher e, assim como Bartira, à doação e transplante de órgãos. “Minhas primeiras atividades de Mestrado e Doutorado foram todas ligadas à saúde da mulher, minha ligação primeira enquanto enfermeira obstétrica. Eu diria que o Brasil foi pioneiro nesta área, pois em 1984 o país desenhou uma política importantíssima, que é exatamente a atenção integral à saúde da mulher, para que a gente pudesse olhar para as mulheres para além da vida reprodutiva. O Brasil é um país muito peculiar, porque ele tem políticas muito importantes desenhadas, entretanto, ainda temos dificuldades de implantação. Acabei indo para o Ministério da Saúde exatamente pela defesa dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, porque apesar de sermos mais de 50% da população brasileira, ainda temos uma discriminação de gênero que é violenta, quer dizer, não somos tratadas da forma que merecemos, então temos muitas conquistas pela frente, apesar das nossas políticas estarem muito bem delineadas, posso dizer assim, nessa minha experiência de vida”, pontua Janine.

Há mais de 20 anos, em suas pesquisas, também se dedica à doação e transplante de órgãos, “desde que surgiu a oportunidade de trabalhar com um aspecto desta área, que é a bioética, envolvendo questões éticas muito complexas”. A sobradinhense também coordena, junto com Bartira, o Programa de Residência Multiprofissional em Transplante e Captação de Órgãos e Tecidos da EPE/Unifesp.

Mesmo ocupando, nos últimos anos, cargos de gestão, coordenando uma Escola de Enfermagem que engloba formações da graduação às especializações e residências multiprofissionais, Janine faz questão de manter-se na docência, onde partilha o conhecimento teórico e prático, mas também participa de um importante processo de construção coletiva entre as gerações de profissionais. Para além das funções administrativas e da colaboração para o funcionamento diário de uma grande instituição, ainda reserva tempo para a orientação de alunos concluintes da graduação e pós-graduação. “Nosso curso de Pós-graduação da EPE/Unifesp recebeu a nota máxima da Capes (nota 7), que é o órgão que faz a avaliação dos programas de pós-graduação. Somos um grupo de pesquisadoras muito forte na área da enfermagem, da saúde e da educação, um diferencial que poucas escolas de enfermagem do Brasil têm.”

Sobradinhense tem em sua trajetória duas áreas de maior ênfase, sendo estas a saúde da mulher e a doação e transplante de órgãos

Ainda neste sentido, a sobradinhense ressalta que é preciso ter paixão e gostar do que faz. “Tem que ter um compromisso com a educação – algo que aprendi com meu pai -, ser professor é alguém que se dedica, não é alguém que só transfere conhecimento, porque tem uma coisa do compromisso, de se envolver, e a liderança tem um pouco da formação, mas também é algo nato. Eu gosto muito do que faço, tenho prazer de liderar a Escola para que ela possa se desenvolver”, reforça Janine, que acrescenta que se sente muito feliz quando as mulheres conseguem ocupar os espaços.

Sua atuação também ultrapassa os muros da universidade. Entre as funções desempenhadas, foi membro da Equipe Técnica da Coordenação da Saúde da Mulher no Ministério da Saúde, e atualmente é membro da Câmara Técnica Nacional de Ética e Pesquisa em Transplantes do Sistema Nacional de Transplantes – Ministério da Saúde.

As contribuições científicas são catalogadas em publicações nacionais e em parcerias internacionais, sendo atualmente  coordenadora do Departamento de Enfermagem em Transplantes da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) e membro de grupo do Ministério da Saúde que trabalha com dados epidemiológicos. Ao final de 2024, como reconhecimento à atuação, recebeu o Prêmio Victoria Secaf – Destaque Profissional, pelo Coren-SP.

Ao dedicar décadas de seu trabalho à saúde da mulher, reforça a mensagem de que, para além de cuidar dos outros, as mulheres precisam cuidar de si: “Nós somos gestoras natas, cuidamos de tantas coisas, inclusive do nosso trabalho fora de casa. Temos uma dupla jornada intensa. Acho importantíssimo que as mulheres olhem para si, cuidem de si, da sua saúde, inclusive para poder cuidar dos outros. Já que nós temos o 8 de Março como Dia da Mulher, que neste dia a gente também reflita da necessidade das mulheres olharem um pouco mais para si e assumirem o seu papel na sociedade, ativo, proativo, e que cuidem da sua saúde em primeiro lugar. São tantas as possibilidades de fazer um cuidado melhor com a saúde para que de fato a gente consiga ter um envelhecimento mais saudável e uma vida mais feliz”.

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