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VALESCA DE ASSIS

PY3BQ e os ciganos

Quando morávamos em Iraí – “águas do mel”, em tupi-guarani –, a repartição estadual em que meu pai e os demais trabalhavam ocupava a frente da nossa casa. Habitávamos a parte restante, pois os titulares, quando transferidos para cidades muito pequenas e distantes, tinham “direito” a moradia gratuita.
Meu pai também era radioamador – PY3BQ – e prestava muitos serviços de comunicação. Que eu saiba, havia só um telefone lá, o do balneário de águas termais, e o diretor não podia emprestá-lo a ninguém. Então, tanto os habitantes como os veranistas e os ciganos, todos que precisassem, iam lá em casa e o pai os punha em contato com seus parentes.
Os ciganos eram muito esperados por minha mãe: ela os adorava. Vinham todos os anos. Assim que erguiam o acampamento, ela nos pegava pela mão e íamos até lá, atravessando a ponte sobre o Rio do Mel. Na época, nosso irmão menor não havia nascido, de modo que a mãe tinha uma mão para cada um. Tínhamos muito medo dos ciganos, a nossa mãe também tinha, mas era fascinada. Eles podiam ser atrevidos e sorrateiros, mas faziam lindos tachos e conchas de cobre, que a mãe comprou e conservou a vida toda.
O pai, antes de atender qualquer pessoa que desejasse falar com alguém, tinha que localizar um radioamador na cidade desejada:
– Aqui PY3BQ, 3-Brasil-Quebec, querendo falar com algum colega de Santa Cruz do Sul. Câmbio.
A palavra “câmbio” era mágica. O pai desligava o microfone e, em meio a grande ruído, esperava respostas. Quando aparecia um contato, ele combinava hora (fora de seu horário de trabalho) e mandava avisar os interessados. A gente arrumava, correndo, a cozinha e a copa, pois nossa casa não tinha porta da frente: ninguém podia entrar pela repartição.
Quando viriam ciganos, tínhamos, também, que retirar todos os bibelôs da saleta onde ficavam os equipamentos do pai, pois diziam que as ciganas podiam surrupiar para dentro das saias pequenos enfeites, às vezes preciosos.
Meu pai pedia que falassem em português, porque, conforme o que dissessem, ele, meu pai, podia perder o registro de radioamador. Uma vez ou outra, os ciganos falavam em seu dialeto, mas logo se davam conta do erro. Terminada a conversa, eles queriam pagar ao meu pai, e colocavam as mãos nos bolsos. Meu pai não podia e não queria receber nada. Eles insistiam e então o pai deixava eles olharem se estava tudo bem com o nosso carro. Eles examinavam, estava tudo bem, e se despediam.

Hoje, pensando em minha mãe, imagino que ela queria ser livre, não ter tantos deveres, viajar bastante, conhecer lugares novos e lindos. E ter uma boa casa para o inverno. Os ciganos tinham, era o que se dizia.
Obrigada por me lerem!

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