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CONFLITO

Santa-cruzense que mora em Israel fala sobre a rotina durante ataques

Sirenes alertam a população sobre a aproximação dos foguetes. Cidades têm bunkers em via pública e no interior dos prédios

A escalada de um novo conflito em Israel tem modificado – e muito – a rotina de quem vive na região. Tradutora e escritora, a santa-cruzense Ana Maria Piazera-Davison, que reside há 13 anos na cidade de Raanana, a 20 quilômetros de Tel Aviv, relata que o clima é de inquietação no país. “Há uma certa tensão no ar, mas não por causa dos foguetes do Hamas. O que acontece é que nas cidades de população mista, de árabes israelenses e judeus israelenses, têm ocorrido confrontos violentos entre grupos extremistas, com linchamentos”, conta.

Ela diz ter mais medo desse tipo de agressão, que pode levar a uma guerra civil, do que dos foguetes, pois destes há como se proteger. A santa-cruzense conta que a vida segue normalmente no país e o sistema de abrigos funciona muito bem. “Desde a segunda-feira passada, já fomos para o bunker umas quatro ou cinco vezes. Quando toca a sirene, temos que procurar abrigo.”

As sirenes tocam na região da trajetória dos foguetes. Nos prédios mais modernos, os apartamentos já possuem um cômodo seguro, uma espécie de “quarto do pânico”, feito com paredes de concreto e porta de aço. Já em prédios mais antigos, como o da santa-cruzense, existem bunkerscom cadeiras, onde os moradores devem se refugiar juntos em caso de alerta. “Se a pessoa estiver na rua, existem bunkers públicos bem visíveis, pintados com cores bem vivas. A pessoa corre para o bunker mais próximo e aguarda.”

Ana Maria preocupa-se com os confrontos entre extremistas que ocorrem nas ruas | Foto: Arquivo pessoal

Quem estiver de carro deve sair do veículo e deitar no chão, protegendo a cabeça. Na região de Raanana, os moradores têm um minuto e meio para buscar abrigo. Perto de Gaza, são apenas 30 segundos.

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Dentro dos bunkers, as pessoas devem aguardar até ouvir as explosões dos foguetes sendo desativados pelas baterias antiaéreas do exército israelense, o que pode levar entre 15 e 30 minutos. Após as explosões, as pessoas aguardam cerca de dez minutos e então podem sair e retomar as atividades.

“Esses combates continuam porque, de certa maneira, por mais frio e cruel que pareça, favorecem interesses de vários envolvidos. É uma questão extremamente complexa, com diversos níveis de dificuldades. Só sei dizer que não existe solução simples”, comenta Ana Maria. Ela relata ainda que se sente segura e não há histeria, as pessoas se acostumam a fazer o que é necessário para se proteger.

Além disso, enquanto o resto do mundo luta contra a Covid-19, Israel é um dos países mais avançados na cobertura vacinal. “A maioria da população já está vacinada e temos o que se chama ‘imunidade de rebanho’. A pandemia está sob controle e as atividades já estão sendo retomadas.” Entretanto, o uso de máscaras em ambientes fechados continua obrigatório.

“Essas tensões vêm ocorrendo há mais de meio século”
A rápida escalada de tensões entre palestinos e israelenses se deu por dois motivos principais, de acordo com o professor do curso de Relações Internacionais da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), Bruno Mendelski. “Um deles é a decisão recente de um tribunal israelense de despejar famílias palestinas que viviam num setor da cidade histórica de Jerusalém, substituindo essas famílias por colonos judeus”, conta. O segundo fator seria a queixa pelo lado palestino do excessivo controle de policiais e truculência do exército israelense durante o mês sagrado do Ramadã.”Basicamente esses foram os dois gatilhos para esses conflitos, mas é importante dizer que essas tensões vêm ocorrendo há mais de meio século, desde a fundação do estado de Israel em 1948.”

A região foi parte de diversos impérios ao longo da história entre eles o Persa, Romano e Otomano e até 1948 a área era dominada pelos ingleses. Após a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1945 houve um plano para divisão do território conhecido como Palestina, onde uma parte seria para árabes e outra para judeus. A cidade de Jerusalém, que possui monumentos sagrados tanto para judeus, muçulmanos e cristãos, seria a capital dos dois Estados. “O que aconteceu é que esse plano não foi colocado em prática. Israel declarou unilateralmente sua independência e os palestinos não tiveram o controle efetivo soberano sobre os seus territórios”, explica.

Hoje os palestinos se dividem entre a Faixa de Gaza, uma pequena faixa de areia próximo ao Mar Mediterrâneo controlada pelo grupo Hamas, e a Cisjordânia, controlada pela facção moderada Fatah. Segundo o professor, ao longo das décadas Israel vem progressivamente anexando territórios palestinos, o que é considerado ilegal pela comunidade internacional, desrespeitando o plano original da ONU, o que acaba gerando grande tensão. Os conflitos se tornaram recorrentes especialmente desde que o Hamas assumiu o poder ao ganhar as eleições em 2006.

Se destacam os conflitos ocorridos em 2018, 2014 e 2008, quando Israel impôs um bloqueio total que impede fluxo marítimo, terrestre e aéreo da Faixa de Gaza, o que deteriorou ainda mais a economia e qualidade de vida na região. Mendelski ressalta que os confrontos são desiguais, uma vez que o Hamas é uma organização e não um governo e carece de recursos, enquanto Israel possui um dos exércitos mais modernos do mundo. “Isso se reflete no próprio número de vítimas, pois historicamente morrem muito mais palestinos do que israelenses.” Até esta sexta-feira morreram 90 pessoas na série de conflitos mais recente, dos quais 87 eram palestinos e apenas sete israelenses. Entre os 87 palestinos mortos, 17 eram crianças.

Um dos fatores que potencializam essas crises na região é o território reduzido e a alta concentração de pessoas em um espaço pequeno. Israel é aproximadamente do mesmo tamanho do Estado brasileiro de Sergipe, que é o menor Estado da Federação. A distância entre a Faixa de Gaza e Tel Aviv é de 70 quilômetros. “É muito perto, a própria Faixa de Gaza, o território é tão pequeno que a gente pode comparar dizendo que ele é a metade da extensão territorial do município de Santa Cruz do Sul.”

Para o doutor em Relações Internacionais, é fundamental que haja um Estado Palestino independente. “Eu penso que é impossível a gente conseguir imaginar paz nesta região enquanto os palestinos não obtiverem o seu Estado nacional, o direito de construírem um Estado e se autogovernarem é um princípio que consta na carta das Nações Unidas, mas infelizmente não vem sendo colocado em prática.” Para ele, uma das saídas seria que ao menos se tente voltar ao plano original da ONU e que haja a participação de grandes potências, especialmente dos países árabes e muçulmanos vizinhos ricos como Arábia Saudita e Catar, para que o Estado Palestino possa nascer viável economicamente.

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