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ELENOR SCHNEIDER

Schneider na padaria

Antigamente as pessoas que compravam no mercadinho da esquina, alcançavam ao comerciante uma caderneta onde ele anotava o valor a ser pago no final do mês. Ele, por sua vez, registrava também o valor em seus livros de controle e tudo se resolvia na confiança e na paz. Essa prática deve sobreviver em poucos lugares ou assumiu outras configurações.

Tenho que revelar, no entanto, que ainda temos um único estabelecimento onde somos mensalistas, uma padaria. Há algumas décadas compramos ali e ajustamos as contas no final do mês. Até aí, nenhuma novidade, nenhum problema. Escolhidos os produtos, a atendente pega o bloquinho, anota o valor e pergunta o nome da conta. Assim começa o drama.

Seu nome, pergunta. Digo Carmen, e se instala um primeiro impacto. Ela me olha desconfiada, meio incrédula. Outros clientes nas proximidades reagem da mesma forma, desconfiam levemente, ouve-se até um certo burburinho. Nunca vi um homem se chamar Carmen, sussurra um; outro suspeita de que possa se tratar de um golpe, um calote ou, quem sabe, um jeito de lavar dinheiro. Um clima muito estranho se instaura na frente e atrás do balcão. E eu ali, pivô da confusão.

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O pequeno conflito cessa momentaneamente quando esclareço que a conta está no nome da minha mulher. A atendente escreve Carmen e pergunta: de quê? Respondo: Schneider. Pronto, outro impasse criado. Consegue soletrar? Vamos lá. Mas, nem todas perguntam e escrevem como imaginam. Às vezes, até mostram para saber se escreveram certo.

Costumo não discordar. Até comecei a colecionar alguns registros: Xinaider, Scheder, Chinaider, Scheneder, Schaider, por aí vai a coisa. Quando digo que não se preocupe, escreva do jeito que acha, porque faço coleção, a atendente se justifica. Vim de outra cidade e lá esses nomes complicados não existem, diz ela, e com toda a razão. Ela não imagina que ainda possam surgir os Halmenschlager, os Hillesheim, os Bohnenberg, os Schwarzbold, Fangmeier, Diefenthaeler, e tantos mais.

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Pior seria se caísse numa colônia polonesa e tivesse que escrever Wisniewski, Kowalczyk, Szymansky, Gryzbowski, ou russa com seus Kuznetsov, Medvedev, Sokolov, Vassiliev, Dostoyesvky. Nem sugiro nomes chineses ou japoneses, porque aí ultrapassaríamos os limites. Tudo seria mais simples se houvesse apenas Silva, Santos, Tavares, Porto, Cunha, Rodrigues, embora Sousa também possa virar Souza.

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Ariano Suassuna, com seu imbatível humor, conta que numa sessão de autógrafos apareceu uma moça lhe solicitando essa gentileza. Como é seu nome? Whemytta. Pode soletrar? Na sequência, outra moça. Como é seu nome? Wheydja. Aí Ariano disse: você dever ser irmã de Whemytta. Como você adivinhou? Pode soletrar? Um rapaz veio a seguir. Tendo ouvido a conversa anterior, supôs que eu era analfabeto, falou Suassuna. Como é seu nome? Hugo, e foi logo soletrando: H… U… G…O.

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Não preciso ir longe para encontrar exemplos. Principalmente quando muitos contatos ou compras vinham pelo correio, meu nome (um tanto raro, é verdade), aparecia de todas as formas. Houve época em que recortava as etiquetas, até para não perder minha identidade. Eleonor, Eleonora, Leonor, Elionor, srta. Elionora, Elonor e, no meu tempo de pró-reitoria na Unisc, era bastante citado como Elinor. Felizmente, sobrevivi. Ao menos até o momento.

Na padaria, podem seguir escrevendo à sua maneira, desde que o pão continue saboroso e saciando nossa fome.

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