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LUÍS FERNANDO FERREIRA

Sem sentidos

A ficção às vezes antecipa a realidade. Em 2011, em dois filmes diferentes, o cinema retratou uma pandemia que mudou o mundo. O mais conhecido é Contágio, de Steven Soderbergh, que tem várias semelhanças com a crise da Covid-19. Tudo começa na China, com o desmatamento de uma floresta. A destruição do ecossistema leva morcegos a conviverem com porcos, que serão destinados para consumo humano. É assim que um novo e fatal vírus começa a se disseminar, processo que acompanhamos em detalhes: como ele se espalha por meio do toque, do espirro ou tosse, do contato casual com superfícies como torneiras e corrimãos. A peste avança além das fronteiras, e o colapso global é apenas uma questão de tempo.

O outro filme é Os Sentidos do Amor, com Eva Green e Ewan McGregor (o jovem Obi-Wan de Star Wars). De repente, no mesmo dia, dezenas de pessoas no mundo inteiro perdem seu olfato. Ninguém sabe o motivo, mas é só o início de uma situação que se degradará cada vez mais. Em pouco tempo, o sentido do paladar também deixa de existir. As populações são forçadas a enfrentar um “novo normal” em que não há mais cheiros nem sabores.

Como não ocorrem mortes nem quadros de saúde mais graves, ninguém adota medidas preventivas. Nem os governos se mobilizam para eliminar ou evitar o vírus, pois todos acreditam que “vai passar” e é preciso tocar a vida. Até o momento em que a audição desaparece, de forma assustadora, e as regras de contenção se impõem: uso de máscaras, isolamento dos infectados, distanciamento social, essa rotina que já conhecemos.

Ficamos sem saber como as coisas irão se resolver na ficção, assim como não vemos ainda, na vida real, um desfecho definitivo. Ainda há muita gritaria no lugar do diálogo, muito confronto em circunstâncias que exigem cooperação. O que não faz sentido, pois favorece apenas a doença, como observa o historiador israelense Yuval Noah Harari no livro Notas sobre a pandemia: “Quando os humanos batem boca, os vírus se multiplicam”. A desunião é o maior obstáculo, bem como a falta de noção da realidade. Quando muitos não querem ouvir nem enxergar o que é necessário fazer, nós sabemos quais sentidos já desapareceram. 

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