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Ricardo Düren

Será a melhor hora?

Reza a mitologia que, certa vez, uma bela jovem de nome Eurídice sucumbiu, vítima da picada de uma cobra. Em desespero, seu esposo, Orfeu, partiu em uma perigosa jornada rumo ao submundo dos mortos, disposto a trazer a amada de volta. O herói levou consigo a arma mais perigosa que tinha – uma lira, antigo instrumento de cordas. Sim, pois Orfeu não era um guerreiro, mas o melhor músico da Grécia. Diziam por lá que até os pássaros paravam, extasiados, para ouvi-lo tocar.

Não foi diferente em sua missão de resgate. O primeiro a render-se aos encantos da lira e da voz de Orfeu foi o barqueiro Caronte, o encarregado do transporte dos recém-falecidos. Seduzido pela música, o velho navegante concordou em levar Orfeu para o mundo dos mortos e, pouco tempo depois, lá estava o artista, dedilhando sua lira diante de Hades, o chefão do lugar. Hades, deus do submundo, tinha fama de durão, mas balançou ante a canção triste de Orfeu.

Como se não bastasse, a esposa de Hades, Perséfone, insistiu que ele deveria atender às súplicas do músico. Sujeito vivido, sabedor de que contra a esposa nunca há argumentos, Hades concordou então em libertar Eurídice. Contudo, impôs uma condição maluca, bem ao gosto dos antigos deuses gregos: Orfeu deveria seguir à frente da amada e só poderia olhar para ela quando ambos estivessem sob a luz do sol, fora do submundo.

– Se olhares para ela antes disso, a moça volta para cá – advertiu o deus.

E lá se foi Orfeu, feliz da vida, cantando vitória e tocando canções alegres pelos túneis da terra dos mortos, até desembocar no mundo dos vivos. Mas então, quando estava prestes a terminar a missão e libertar a amada, o herói fraquejou. Para ter certeza de que a esposa o seguia, Orfeu olhou na direção de Eurídice. E a bela jovem, que então preparava-se para atravessar a boca do túnel e deixar os domínios de Hades, converteu-se em uma nuvem fantasmagórica e foi sugada de volta ao submundo.

Orfeu percebeu então que falhara por um detalhe, por um segundo, vítima da própria ansiedade ou, talvez, da certeza da vitória. E isso custou-lhe a amada.

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Por mais que possam parecer malucos nos dias de hoje, os mitos sempre exerceram função pedagógica na história da humanidade. Ou seja, eles ensinam lições válidas para o mundo real, para que não cometamos os mesmos erros de determinados heróis e semideuses. A desgraça de Orfeu lembra muito aquele vexame de certo atleta norte-americano que, a poucos metros da linha de chegada, distraiu-se acenando e atirando beijinhos para o público. Focado na comemoração prematura, foi ultrapassado e perdeu a corrida. E tem ainda aquele episódio famoso do goleiro que, ao defender um pênalti, abandonou a meta para vibrar com a galera sem perceber que a bola, caprichosamente, seguira depois o curso para o gol.

Hoje, temo que estejamos bancando Orfeu em determinadas decisões relacionadas à pandemia. De fato, os gráficos indicam que, tendo alcançado um platô, os números de infectados e de vítimas estão em queda no País. Porém, me parece cedo demais para cantar vitória, para descuidar das regras de higiene/distanciamento ou mesmo para tomar certas medidas, guiadas pela ansiedade em voltar ao normal. Como pai, angustiam-me particularmente os planos de reinício, para logo, das aulas presenciais das crianças. Creio que tal medida merece, no mínimo, mais análise, reflexão e embasamento científico.

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Por falar em aulas, lá em casa a galerinha está virando craque nos macetes do sistema de ensino a distância – o qual, como tudo na vida, exige boa vontade, treino e insistência. A caçula, Ágatha, já teve até aula por videoconferência. E fez questão de arrumar-se toda antes de aparecer diante da webcam: colocou roupa “de sair” e penteou os cabelos.

– Não pensem que vou aparecer de pijama – avisou-nos.

Contudo, na hora em que a aula começou, meio que apatetou-se. A professora quis saber se estava tudo bem com ela e o que vinha fazendo durante a pandemia, mas as respostas saíram lacônicas.

– Aham… tudo bem… aham… sim… isso… aham…

Depois, confidenciou-nos que ficou deslumbrada e sem palavras ao rever na tela, depois de tanto tempo, a prô e os coleguinhas. Perguntamos então se estava com vontade de voltar às aulas convencionais e a caçula revelou que, por enquanto, preferia matar as saudades e aprender via computador.

– Por medo do coronavírus? – insistimos.

– Não. Por preguiça mesmo – e, bocejando, voltou para a cama.

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Mas, afinal, será que Ágatha e os coleguinhas voltarão logo às aulas presenciais? De minha parte, como assinalei acima, penso que a volta às aulas neste momento exige, no mínimo, mais análises e estudos de especialistas. Como leigo, mantenho um pé (ou os dois) atrás. E se tal decisão, no fim das contas, recair sobre os pais, farei o que certamente faria o sábio Hades: perguntarei a minha esposa.

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Hora do merchandising.

Pessoal, segue à venda o meu último livro, Crônica policial, que reconta casos de polícia reais que chocaram a região nos últimos 70 anos. A versão impressa chega pelos Correios e pode ser encomendada no link clubedeautores.com.br/livro/cronica-policial. Também é possível baixá-lo no Kindle. Qualquer dúvida, é só me chamar pelo e-mail [email protected].

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