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ALEXANDRE GARCIA

Soberania relativa

Soberania entrou na pauta e tem sido evocada agora com a captura de Maduro e antes com a Magnitsky em Moraes. Por um longo período defendíamos que o povo é que é soberano. Nota do governo Lula diz que a captura de Maduro foi “uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela”. Lula, no meio do primeiro ano do atual mandato, afirmou, sobre eleições na Venezuela e defendendo Maduro, que “o conceito de democracia é relativo”. Ora, quando há democracia relativa, soberania é igualmente relativa. Quem está desesperado com perigo em sua casa, não se importa que o vizinho entre para aliviar o perigo. Entre a soberania nacional e uma ditadura que censura, sequestra, tortura e mata, tira as liberdades, frauda eleição e é narcotraficante – qual é a opção?

Além disso, de quem é a soberania? Do estado? Da nação? Uma nação é o povo. O estado é um governo, que só existe para servir ao povo. Assim, a soberania é do povo, que é o soberano. Se o povo não pode fazer oposição, não tem liberdade de expressão, nem de escolha, então não tem soberania. Nesse caso, a soberania foi sequestrada por um estado opressor. E o regime deixa de ser democracia. Em democracia, a soberania é do povo. Não de um estado opressor, injusto e bandido. Maduro era um ditador típico de república bananeira. Os Estados Unidos conviveram com muitos desses, mas eles não chamavam o Irã, a Rússia e a China – nem tinham cubanos em postos-chave da segurança do país. Os Estados Unidos já têm Cuba a 170 quilômetros de Key West; não aceitam Venezuela chinesa no sul do Caribe, sustentando outras ditaduras com seu petróleo.

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O Brasil não defendeu a soberania da Guiana quando Maduro anexou Essequibo no mapa da Venezuela. Nem ligou para a soberania do Uruguai quando cercou Montevidéu para tirar o presidente blanco Atanasio Aguirre e entronizar o colorado Venancio Flores. Só quem protestou foi Solano Lopez – e essa foi uma das causas da Guerra do Paraguai. O governo Lula não se importou com a soberania nacional quando Evo Morales ocupou as dependências da Petrobras na Bolívia, nem enquanto partes do território, inclusive amazônico, foram sendo ocupadas pelo PCC e pelo Comando Vermelho. Quem condena a prisão de Maduro, por ordem de um juiz federal americano, defende a opção de manter um ditador narcotraficante; defende a legitimidade de uma fraude explícita na eleição venezuelana.

Cumprida a ordem judicial, o governo americano engole o paradoxo de manter como interlocutora a vice-presidente Delcy Rodriguez, oriunda da mesma eleição fraudada em que Maduro se proclamou vencedor. O irmão dela, Jorge Rodriguez, é o presidente da Assembleia Nacional e ambos têm controle sobre as forças armadas, o controle político e dos postos de estado preenchidos por bolivarianos fiéis. Trump opta pelo realismo. Delcy anunciou caça aos que apoiaram a captura de Maduro e ainda não há calmaria para convocar eleição tendo Maria Corina como candidata, nem é oportunidade de submetê-la a um desafio desgastante.

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As forças armadas, aliás, enfraquecidas pela ideologia, demonstraram não ter capacidade de garantir a soberania. Seu comandante supremo foi levado sem baixas dos captores. Um país sem força militar dissuasória só é capaz de ter a soberania relativa da saliva. Maduro temia isso; sua segurança era de cubanos. Que também fracassaram. A Venezuela nos mostra que ter abundante riqueza natural não basta. Com socialismo e ditadura não há petróleo que dê bem-estar e liberdade. E mostra também que fraude em eleição é fraude na democracia.

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