Já sabem que vivi minha infância em Iraí, bem ao norte do RS, às margens do Rio Uruguai. Foi um período de muita inocência, ingenuidade e um que outro desapontamento. No último caso, está a história de um funcionário do meu pai que gostava de conversar conosco, crianças, e me perguntou, um dia, se eu já conhecia a sopa de pedra.
À época, eu tinha só um irmão para as travessuras. O outro era bebê e ele tinha uma babá para brincar com ele. O meu irmão Beto, uns amigos dele e eu costumávamos brincar de cozinhar sobre uma lata de querosene, deitada de lado: dentro da lata, o Beto fazia o fogo e, na “chapa”, eu cozinhava sopas e arroz com passarinhos, em latas de aveia Quacker. As sopas, eu comia; os passarinhos, nunca. Os meninos caçavam e eu cozinhava para eles. Não achava tão errado eles caçarem, mas eu não conseguia comer. Minhas sopas eram bem gostosas. Adulta, gostaria de saber se minha mãe imaginava o perigo que corríamos – nossa cozinha era à beira do mato que havia nos fundos de casa.
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Bem, quando o funcionário me perguntou se eu já tinha comido sopa de pedra, eu ainda não sabia nada sobre Pedro Malasartes e suas histórias. Eu respondi que não. Então, ele me disse que ia me dar a receita:
Ingredientes:
- 1 pedra bem bonita
- 1 batata ou chuchu
- 1 cenoura
- Folhas de couve ou espinafre
- Sal a gosto
- Temperos verdes
Modo de fazer:
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- Lavar muito bem a pedra,
- Deixar ferver na água por bastante tempo,
- Acrescentar os legumes aos poucos e a couve ou espinafre bem no final.
- Salgar e salpicar com temperos verdes.
É claro que, o mais breve possível, comecei a fazer a tal sopa. Escolhi uma pedra quase lisa, que escovei bem e pus a ferver, enquanto Beto e seus amigos saíram a caçar. Aos poucos, conforme as instruções, fui acrescentando os legumes e o espinafre, o sal e os verdes. Ficou linda e colorida.
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– Fiz uma sopa nova, hoje – anunciei.
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Sentamo-nos sobre a grama para comer.
– E então, gostaram? – eu quis saber.
“Igual às outras”, todos acharam. Menos eu que senti o gostinho de pedra. E gostei.
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Hoje, não posso escapar à lembrança de Drummond:
Nunca me esquecerei desse acontecimento
(Carlos Drummond de Andrade, No meio do caminho)
na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra
Obrigada, sempre, por me lerem.
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