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AMEAÇAS CLIMÁTICAS

Sul do Brasil se tornou corredor de tornados, afirma especialista

Tornado foi registrado no interior de Encruzilhada do Sul no dia 15 de fevereiro deste ano, um domingo, e deixou muitos estragos em várias localidades | Foto: Suzeti Angeloni Casteller/Divulgação

Há 30 anos, em meados de junho de 1996, era lançado no circuito brasileiro um filme que causava sensação na cena internacional. Twister, no original, era dirigido pelo cineasta Jan de Bont e trazia a atriz Helen Hunt no papel de uma professora universitária que se ocupava, com seus alunos, de monitorar tornados. E Tornado, título adotado no Brasil, de fato atraiu multidões ao cinema. O mesmo fizeram outras produções, como No Olho do Tornado, de 2014; ou Caçador de Tormentas, de 2023.

Se no cinema essas ocorrências climáticas severas são mote recorrente, na vida real são ameaça nem um pouco agradável. E, para inquietação da população, cada vez mais frequentes na região Sul da América, o que compreende em especial o Sul do Brasil. De tempos em tempos, quando uma combinação de circunstâncias se estabelece, esse furioso cone giratório de vento que antes só se via na televisão afligindo regiões do planeta, dos Estados Unidos à Ásia, começa a ser registrado perto, muito perto, em pleno Rio Grande do Sul.

Um dos mais recentes na região foi fotografado e filmado por moradores no interior de Encruzilhada do Sul há exatamente um mês, ao final de domingo, 15 de fevereiro, e atingiu ainda áreas de Canguçu, deixando muitos estragos após sua passagem. Se é difícil prever ou intuir o seu surgimento e a sua ocorrência, mais dramático ainda se torna dispor de informações ou de orientações que possam facilitar às pessoas saírem do caminho dele.

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E é essa a missão ou a tarefa que assumiu o geógrafo paulista Daniel Henrique Cândido, 47 anos. Por seu empenho no sentido de estudar e mapear a emergência de tais fenômenos no Brasil, ele já foi apelidado de “caçador de tornados”, ainda que nunca tenha presenciado, in loco, a passagem de um, como conta à Gazeta do Sul. Bacharel e licenciado em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em 2004, tem mestrado (2007) e doutorado (2012) pela mesma instituição, com inúmeros artigos publicados sobre o tema.

Possui ainda experiência na área de geociências, com ênfase em climatologia, geoprocessamento e sensoriamento remoto, atuando na área de cartografia digital e na análise de desastres naturais, sobretudo nos eventos deflagrados por elementos do clima. A partir dessa vivência, concedeu entrevista exclusiva à Gazeta, na qual descreve, de forma didática, o que leva à formação desse quadro, e as possíveis motivações para que o Sul do Brasil e da América tenha virado um “corredor de tornados”.

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A fúria dos elementos

Quando uma cena como a da fotografia acima se apresenta diante de alguém, pode-se prever muitos estragos no rastro do caminho percorrido por esse cone giratório de vento na superfície do solo. Árvores, casas, animais, outras benfeitorias e, claro, pessoas são colocados em grande perigo. Um tornado, nome que recebe essa formação, é uma enorme ameaça e tem registros recorrentes em muitas regiões do planeta. Para inquietação dos brasileiros, tem sido frequente em vários pontos do País, marcadamente na região Sul.

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Por esse aumento na indicação de sua ocorrência, inclusive no Rio Grande do Sul, ganham mais relevância estudos sobre o tema. E pesquisar tornados é, justamente, uma das áreas de interesse do geógrafo paulista Daniel Henrique Cândido, cuja formação deu-se no âmbito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Natural de Santa Bárbara do Oeste, na região de Campinas, em São Paulo, e hoje residente em São José dos Campos, a 100 quilômetros da capital paulista, desde muito jovem sentiu-se atraído por esses fenômenos naturais.

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Ele nasceu em 23 de maio de 1979 e recorda que, quando era menino, tinha verdadeiro fascínio por ficar olhando, em dias de tempestades, as variações climáticas e meteorológicas. Quando todo mundo queria se esconder ou fugir, ele adorava ficar assistindo. Tanto que seus pais até o levavam para testemunhar esses eventos. O resultado é que, no momento de se decidir por uma área de estudos na faculdade, não hesitou em optar por Geografia. Nela, além do enfoque social, podia se aprofundar na área física, dos fenômenos, atendendo a seu interesse pessoal.

Assim, já na graduação, tendo como orientadora a professora Luci Hidalgo Nunes, especializou-se em investigar manifestações climáticas e meteorológicas severas. E seguiu com esse mesmo enfoque no mestrado e no doutorado, atento a fenômenos como inundações ou deslizamentos causados por tempestades intensas, em diferentes regiões do país. E, nesse contexto, também os tornados.

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Cândido recorda que o Brasil, por suas dimensões continentais, nem sempre registra ou reporta devidamente as ocorrências. Se não são tão comuns na região central, tropical, as zonas temperadas ao Sul são propícias a esse fenômeno. Entende que dois motivos fazem com que cada vez mais se tenha comunicados de tornados: de um lado, as mudanças climáticas recentes levaram a um aumento de casos neste início de século 21; de outra parte, houve a popularização dos recursos tecnológicos que facilitam o registro, em fotos ou vídeos.

Há ainda o fato de que quase todas as regiões nacionais hoje estão povoadas, de maneira que, muito provavelmente, a cada tempestade que se forma, alguém estará com um celular em mãos para documentá-la “Em outros tempos, isso não era possível, até porque ninguém pode adivinhar onde um tornado vai se formar”, comenta. “Por isso, em décadas anteriores, em geral só se conseguia conferir os estragos depois que um tornado havia passado.”

Também por essa razão, o próprio Cândido não chegou a testemunhar a passagem de um, até porque normalmente se formam rápido e se deslocam igualmente rápido. E deixam um rastro de devastação. Em reportagens, ele tem sido apresentado como um “caçador de tornados” e brinca que, de fato, tal situação é um grande desafio. Em sua carreira, já visitou áreas que haviam sido afetadas por tal fenômeno, dias depois.

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Atualmente, afastado da universidade, Daniel trabalha como geógrafo em uma empresa, a Imagem Geosistemas, da área de geotecnologias em softwares utilizados em mineração, de atuação nacional. Mas a atenção e o interesse acerca dos tornados seguem muito latentes: tanto que acompanha os relatos associados a ocorrências recentes em todo o Sul do Brasil. Nunca chegou a vir ao Rio Grande do Sul para investigar nessa área, mas já participou de eventos acadêmicos, como na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Em seu entender, além de hoje ser mais fácil haver o registro em foto e vídeo, por celular, o que fica evidente, segundo ele, é que as ocorrências têm aumentado. E justamente por isso estratégias de prevenção devem ser consideradas muito a sério por organismos públicos e privados. Em entrevista à Gazeta do Sul, ele descreve de maneira didática o contexto que leva à formação de um tornado e também manifesta sua preocupação com o impacto social e econômico e dos efeitos que podem advir deles, a curto e médio prazos.

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Entrevista exclusiva

Daniel Henrique Cândido
Geógrafo, especialista em tornados

Gazeta do Sul – Como se deu ou de que forma nasceu o interesse do senhor acerca de eventos como os tornados?
Daniel Henrique Cândido –
Meu interesse surgiu na década de 1990, quando era adolescente. Na época, presenciei uma série de episódios de tempestades severas na região próxima a Campinas. A força da natureza, a complexidade dos elementos do clima e a dinâmica atmosférica envolvida, associadas ao impacto que tudo isso exerce na vida das pessoas, sempre me fascinaram. Comecei estudando climatologia na adolescência por conta própria, lendo livros e artigos científicos que encontrava na biblioteca municipal de minha cidade natal. Posteriormente, ao entrar na universidade, cursando Geografia, me aprofundei com cursos, participação em grupos de pesquisa e acompanhamento de eventos reais. Nessa fase, contei com o apoio de uma professora, a dra. Lucí Hidalgo Nunes, a qual foi minha orientadora e me ensinou muito sobre climatologia, metodologias científicas e técnicas de pesquisa.

De maneira didática, o que configura um tornado, como se caracteriza, ou como se diferencia de eventos parecidos?
De maneira simples, podemos dizer que um tornado basicamente consiste em uma coluna de ar em rotação violenta que conecta uma nuvem de tempestade (geralmente cumulonimbus) ao solo, em movimento similar ao observado quando a água escoa pelo ralo em uma pia. Os ventos gerados nessa movimentação se caracterizam por serem extremamente fortes, muitas vezes visíveis na forma de um funil descendo do céu.

Diferencia-se de:

  • Ciclone extratropical: é um sistema de baixa pressão em grande escala (centenas de quilômetros), com ventos fortes mas não rotativos em funil.
  • Ciclone tropical (furacão): além de terem origem diferentes, os ciclones tropicais consistem em eventos de grandes proporções, atuando em áreas geograficamente muito mais intensas que tornados. Embora possuam ventos rotacionais, esses ciclones apresentam atuação em áreas muito mais extensas (na ordem de centenas ou até milhares de quilômetros) e duração bem mais prolongada.
  • Vendaval: ventos lineares fortes, sem rotação vertical concentrada.
  • Tempestades severas: assim como os tornados, podem ocorrer acompanhadas de granizo, raios e ventos fortes, mas sem o funil tocando o solo.
    O tornado é classificado pela Escala Fujita Aprimorada (EF), que varia de EF0 (65-117 km/h, danos leves) a EF5 (>320 km/h, destruição total).

Qual as condições climáticas ou ambientais, ou mesmo geográficas, que levam ao surgimento de um tornado?

Tornados exigem:

  • Atmosfera instável: ar quente e úmido próximo ao solo e ar mais frio em altitude.
  • Cisalhamento do vento: mudança brusca na direção e velocidade do vento conforme a altitude, o que atua como motor da rotação inicial do sistema.
  • Mecanismo de elevação rápido do ar: passagem de frente fria intensa, convergência de massas de ar ou convecção decorrente do aquecimento junto ao solo.
  • Supercélulas: tempestades rotativas persistentes, as quais são as mais propensas a gerar tornados fortes.
    No Brasil, essas condições ocorrem principalmente quando ar quente/úmido vindo principalmente da Amazônia encontra-se com massas de ar frio oriundas do extremo sul do continente (Patagônia), originando frentes frias ou ciclones extratropicais.

A partir de que dimensões se tem a configuração de um tornado? A duração deles pode variar de quanto a quanto tempo, ou mesmo tamanho?

Não há tamanho mínimo rígido, mas geralmente:

  • Diâmetro: de poucos metros (tornados fracos) a mais de 1-2 km (raros e intensos).
  • Duração: a maioria dura de segundos a poucos minutos; tornados fortes podem persistir por 10-30 minutos ou mais.
  • Trajetória: de dezenas de metros a dezenas de quilômetros.
    A classificação depende da intensidade dos ventos e danos, não só do tamanho visível.
    O senhor tem acompanhado de algum modo as manifestações recentes de tornado em realidade de Brasil? Para que essa recorrência sinaliza?
    Sim, tenho acompanhado atentamente, especialmente os eventos intensos de 2024 e 2025 no Sul (como os múltiplos tornados em novembro de 2025 no Paraná e em Santa Catarina, incluindo o devastador em Rio Bonito do Iguaçu). Essa recorrência sinaliza maior frequência de condições atmosféricas favoráveis, mais calor, umidade e instabilidade. Também reflete melhor registro e monitoramento (rádios, redes sociais, câmeras), mas os impactos reais parecem estar aumentando, até mesmo porque a densidade populacional do centro-sul brasileiro está aumentando.

O senhor entende que houve um aumento ou incremento na ocorrência de tornados e outros eventos desse gênero ou porte? A que se deverá tal situação?

Sim, há evidências de aumento nos últimos anos. Parte deve-se a melhor detecção, mas especialistas apontam influência de possíveis alterações na dinâmica das massas de ar induzidas por atividades humanas.

Quais as regiões nacionais que, na avaliação do senhor, são mais suscetíveis a registrar tornados, e por quê? O Sul da América tem histórico de incidências?

As mais suscetíveis são o Sul (Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul) e partes do Sudeste/Centro-Oeste (oeste de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraná). A maioria dos casos ocorrem nesse setor devido à colisão de massas de ar (quente/úmido amazônico e frio/seco pampeano/argentino). Por isso essa área forma o que chamamos de Polígono dos Tornados da América do Sul.

Sim, o Cone Sul da América (sul do Brasil, Uruguai, Paraguai, norte da Argentina) tem histórico significativo, com condições semelhantes às do “corredor dos tornados” dos EUA, mas em escala menor.

O senhor chegou a investigar em território gaúcho ou sul-brasileiro? Como é sua relação com o Rio Grande do Sul?

Acompanho os eventos pela mídia, acrescentando-os em meus arquivos de ocorrências.

Há sistemas de alerta confiáveis para a ocorrência de tornados, como há para outras ocorrências climáticas? O senhor entende que deve haver maior investimento nesse sentido?

Os tornados são eventos de curta escala e surgem rápido, dificultando alertas precisos de localização. Assim, os alertas ainda são ineficientes e sujeitos a imprecisões espaciais. A melhoria desse sistema envolveria maior investimento em tecnologias climático-meteorológicas e geoespaciais, incluindo: adoção de tecnologias GIS (Sistema de Informações Geográficas), adensamento da rede de radares meteorológicos, fomento à criação de redes de câmeras e de observadores voluntários, criação e manutenção de apps gratuitos de previsão do tempo contando com alertas em tempo real e ações de educação da população.

Como a população em geral pode se preservar ou se precaver da forma mais rápida e segura de um tornado?

  • Fique atento aos sinais da natureza.
  • Ao ver nuvem escura rotativa ou receber algum alerta, vá imediatamente para local seguro.
  • Melhor encontrar algum abrigo fechado. Mas, se for surpreendido em área aberta, evite ficar sob árvores ou em áreas próximas a detritos que possam voar com o vento.
  • Após a ocorrência, evite circular. Fios caídos e estruturas danificadas oferecem sérios riscos.

Qual foi o maior em realidade nacional que foi documentado?

Mais intenso em danos: o de Itu (SP) em 1991 (classificado até F4/F5 por alguns estudos, 16 mortes). Recentemente, o de novembro de 2025 em Rio Bonito do Iguaçu (PR) foi um dos mais devastadores, destruindo grande parte da cidade.

As avaliações ou investigações pós-tornado são úteis ou podem contribuir no sentido de entender melhor esse fenômeno? Como a academia lida com tal estudo?

Sim, são essenciais: equipes vão ao local coletar dados de danos (para estimar intensidade na escala EF), testemunhos, fotos/vídeos e radares. Isso melhora modelos de previsão e entendimento de formação. A academia estuda via levantamentos históricos, simulações e plataformas de registro, o que contribui para a geração de mapas e modelos de risco e políticas públicas.

O Brasil deve investir mais em estudos e em prevenção a tais eventos? A prevenção poderia mitigar gastos ou custos?

Sim, urgentemente. Investir em pesquisas, mais radares, IA para alertas, monitoramento e educação salva vidas e reduz custos decorrentes das tempestades. Técnicas de prevenção, incluindo o incentivo à elaboração de construções mais resistentes, evitaria gastos vultuosos envolvendo reconstrução. Estudos mostram que cada real investido em prevenção evita o gasto de R$ 10,00 na recuperação dos danos. Isso se aplica especialmente no Centro-Sul do país, onde eventos extremos estão mais frequentes.

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