Por mares nunca dantes navegados partiram os portugueses, ainda no século 15, para inaugurar novos mundos e estabelecer um império, que Luís Vaz de Camões (1524-c.1580) cantou em Os Lusíadas (1572). Por caminhos nunca dantes palmilhados partiu a escritora norueguesa Erika Fatland, 42 anos, numa longa jornada a fim de dimensionar, em pleno século 21, o legado daqueles pioneiros. Agora, o que ela descobriu pode ser conferido no espetacular Navegadores: uma viagem através do império perdido de Portugal, que a editora Todavia coloca nas livrarias brasileiras a partir do dia 9 de março, com tradução de Leonardo Pinto Silva. O volume, de 608 páginas, com muitas fotografias, estará à venda por R$ 169,90, valendo cada centavo investido.
Nascida em 1983 em Haugesund (terra natal também do Prêmio Nobel Jon Fosse), Erika é uma das principais autoras de livros de viagens, mescla entre a investigação jornalística e a pesquisa histórica, em realidade mundial. O projeto em torno das navegações lusitanas é apenas o mais recente de fôlego a ser desenvolvido por ela. Antes, três obras de sua autoria lançadas no Brasil pela editora Aiynè dão conta da amplitude de seu olhar: em Sovietistão, contemplou as antigas repúblicas soviéticas situadas na Ásia Central; em A fronteira, contornou toda a imensidão do território russo; e em Nas alturas ocupou-se do Himalaia, a maior cordilheira do mundo.
Na iminência do lançamento de Navegadores no mercado editorial brasileiro, Erika concedeu entrevista exclusiva à Gazeta do Sul, por e-mail. Durante o encaminhamento das respostas, ela se encontrava em Kiev, na Ucrânia, em meio ao levantamento de informações para seu próximo livro, que, como anuncia, deve ser publicado ainda no segundo semestre deste ano.
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Entrevista
Gazeta do Sul – Seu livro mais recente, Navegadores, está prestes a chegar às livrarias brasileiras, com foco na expansão do Império Português pelo mundo, a partir do século 15. Qual foi a principal motivação para o seu interesse por esse tema?
Erika Fatland – Nosso mundo moderno e globalizado começou com as expansões marítimas portuguesas. Os navegadores portugueses desbravaram os oceanos, encontraram a rota marítima para a Índia e, assim, mudaram o mundo.
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Após a primeira viagem de Vasco da Gama, a antiga Rota da Seda tornou-se irrelevante, por assim dizer, da noite para o dia. Os oceanos tornaram-se a rota preferida para o transporte de mercadorias e assim permaneceram até os nossos dias. O mundo se globalizou e se interconectou, para o bem e para o mal.
Seus livros anteriores de história e de viagens voltaram-se particularmente para a Ásia ou para a Europa Oriental. Como foi o processo de agora mudar o foco para o outro extremo na Europa, no caso, Portugal?
O Império Português foi o primeiro império global. Durante a pesquisa para o livro, visitei 29 países em quatro continentes, incluindo alguns dos mais pobres do mundo, como Guiné-Bissau e Moçambique, e alguns dos territórios mais ricos, como Macau e Japão. A pesquisa geográfica foi enorme e exigente, assim como a pesquisa histórica – abrangendo o período de 1415, quando os portugueses conquistaram Ceuta, até os dias atuais.
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O que alimenta seu interesse pessoal e profissional pela região das ex-repúblicas soviéticas? O mundo ocidental tende a ter uma mistura de repulsa e enorme atração por essa região, não é?
É uma parte muito fascinante do mundo, mas também muito diversa. As antigas repúblicas soviéticas foram todas moldadas e marcadas pelo seu passado como parte da União Soviética, e foi por isso que escolhi o título Sovietistão para o meu livro sobre Turcomenistão, Cazaquistão, Tadjiquistão, Quirguistão e Uzbequistão, publicado em 2014.
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Hoje, 12 anos depois, pergunto-me por quanto tempo continuaremos a nos referir a esses 15 estados como antigas repúblicas soviéticas. A União Soviética desintegrou-se há 25 anos, um quarto de século atrás, e uma parte significativa da população já não se lembra da União Soviética, simplesmente porque nunca viveu lá.
Quando falamos das antigas repúblicas soviéticas, também falamos de países muito diferentes, desde estados autoritários, como a Rússia e o Turcomenistão, até países democráticos da União Europeia, como a Letônia e a Estônia.
Seus livros oferecem uma mistura muito interessante de história e relato pessoal de uma região. Como é o seu processo de trabalho? Envolve muita pesquisa prévia ou as viagens acabam por determinar o rumo dos acontecimentos?
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Eu sempre viajo antes de escrever e geralmente tento concluir o máximo possível da pesquisa de viagem antes de começar a escrever, para ter um mapa mental das histórias que tenho à disposição. Obviamente, faço algumas pesquisas antes de viajar, para saber para onde ir e em quais tópicos me concentrar, mas realizo a maior parte da pesquisa histórica e da leitura aprofundada enquanto escrevo o livro. Portanto, são dois processos muito diferentes. Primeiro eu viajo e depois refaço a jornada, mas escrevendo.
No caso de Navegadores, o processo de coleta de conteúdo foi semelhante ao de seus livros anteriores, envolvendo muitas viagens?
Todos os livros são diferentes e trazem seus próprios desafios. No caso de Nas alturas, por exemplo, o principal desafio foi a própria natureza – a altitude e as estações do ano –, enquanto a pesquisa para Navegadores apresentou uma série de desafios, simplesmente porque os países que visitei eram muito diferentes entre si e muito distantes uns dos outros.
Pela primeira vez, tive que levar em consideração os altos índices de criminalidade – Luanda e Manaus, por exemplo, são consideradas cidades bastante perigosas nesse aspecto. No Japão, o idioma foi um desafio, e em um país como a Guiné-Bissau, simplesmente ir do ponto A ao ponto B tornou-se um grande desafio.
Ao longo de sua jornada, qual foi sua relação com o Brasil e as Américas (América Latina ou todo o continente)? E como você vê essa região a partir de suas origens na Noruega? Seus livros foram publicados aqui pela Ayinè, e você já veio para lançamentos antes, não é?
Passei três meses na Guatemala estudando espanhol há cerca de 20 anos e visitei minha irmã, que na época estudava no Brasil, há cerca de 15 anos, mas, fora isso, viajei muito pouco pela América Latina. Eu realmente gostaria de explorar mais este continente, e, quem sabe, talvez haja até uma ideia para um livro surgindo em algum lugar.
Participei de um evento literário em São Paulo enquanto pesquisava para o livro Navegadores no Brasil, para a editora de Nas alturas. Foi muito bom conhecer leitores brasileiros e espero ter a oportunidade de participar de mais eventos no Brasil.
Os leitores brasileiros são muito simpáticos; além dos leitores italianos, os brasileiros são os que mais me enviam mensagens no Facebook e no Instagram. Mesmo que eu nem sempre tenha tempo para responder, leio e agradeço cada mensagem que recebo.
E quais aspectos do Brasil mais chamaram a sua atenção durante a pesquisa e a elaboração de Navegadores? Como você vê o país agora que o livro está concluído?
O Brasil foi um desafio. Refleti bastante sobre o que fazer com o Brasil. O país é tão grande que mereceria um livro só para ele, mas eu precisava encaixar o Brasil em um livro que já era muito extenso. Resolvi o problema focando a Amazônia, um dos lugares para onde os portugueses continuaram se expandindo depois de começarem a perder territórios para os holandeses na Ásia.
O Brasil é muito interessante, pois continuou sendo uma monarquia após a independência, e talvez essa seja uma das razões pelas quais o Brasil não foi dividido em estados menores, como as colônias espanholas. Um aspecto pouco divulgado das expansões portuguesas – pelo menos na minha região – é o seu papel no tráfico transatlântico de escravos.
Estima-se que os portugueses foram responsáveis por cerca de metade desse tráfico, e a maioria dos escravos a bordo dos navios portugueses acabou no Brasil. O tráfico transatlântico de escravos alterou profundamente a demografia de muitos países africanos e do próprio Brasil, e esse também é um tema que exploro no livro.
Seu livro Nas alturas descreve o extenso relato de sua jornada pelo Himalaia. Você também tem experiência em esportes de aventura, como escalada? Como foi a preparação para tal empreitada?
Eu gosto de fazer trilhas, mas não pratico alpinismo. Já existem livros suficientes sobre escalar o Monte Everest e outros picos altos, e eu não tinha interesse em escrever outro livro sobre “vencer” montanhas. Eu queria escrever sobre as pessoas que vivem no Himalaia, e esse é o foco principal de Nas alturas.
Foi bastante complicado me preparar para essa jornada, tanto pela altitude extrema e pelas condições climáticas – muitas estradas só ficam abertas no verão – quanto pela política. Algumas áreas do Paquistão são relativamente inseguras e instáveis, e o Tibete é rigidamente controlado pelas autoridades chinesas, então cada lugar que você queira visitar precisa ser cuidadosamente planejado com bastante antecedência.
Você acredita que a importância do Império Português, com suas conquistas e legados, é devidamente mensurada ou reconhecida hoje?
O Império Português é, em muitos aspectos, o império esquecido. Foi o primeiro império global e os portugueses mudaram completamente o mundo, influência que permanece até hoje, mas foram posteriormente ultrapassados pelos holandeses e pelos britânicos. Isso provavelmente também está relacionado ao idioma. Fora do mundo lusófono, poucas pessoas dominam o português, enquanto quase todos falam inglês, pelo menos no hemisfério ocidental.
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O que particularmente a atrai ou a desafia, como escritora e jornalista, e o que a motiva a embarcar em um novo projeto?
Eu preciso ser curiosa. Sou sempre movida pela curiosidade e pelo desejo de aprender mais e me aprofundar em um tema específico. E sempre há uma pergunta, ou várias, para as quais quero encontrar respostas, sempre há um tema que quero explorar. Em Navegadores, havia pelo menos duas: como um pequeno país como Portugal se tornou um império global no século XVI e quais vestígios restam desse império hoje?
Você me respondeu de Kiev. É impossível não mencionar o conflito na região. O que a levou a Kiev?
Atualmente, estou escrevendo um livro sobre a Ucrânia em tempos de guerra. Viajei pela Ucrânia desde o início de novembro, conversando com diversas pessoas, de pilotos de drones a cantores de ópera, sobre como estão lidando com a guerra.
Como você vê o cenário global no início de 2026? A tensão se estendeu até a Escandinávia…
O mundo está mudando rapidamente e precisamos nos adaptar com agilidade às novas realidades. A Europa não pode mais depender dos EUA para proteção; precisamos ser capazes de nos defender. A realidade da guerra também está mudando rapidamente – tornou-se uma guerra de drones, uma guerra de alta tecnologia. É um pensamento desconfortável, mas é importante entender que a guerra pode acontecer em qualquer lugar, até mesmo na Escandinávia.
Com base em tudo o que você viu em suas viagens, e em tantos lugares, o que realmente pode nos salvar como civilização e o que parece estar nos levando na direção oposta?
Em todos os lugares que vou, encontro gentileza. É importante lembrar que a maioria das pessoas é gentil e hospitaleira e que o mundo, em sua maior parte, é um lugar seguro. Fiquei profundamente impressionada com a coragem, a capacidade de adaptação, a criatividade e a resiliência dos ucranianos que conheci – isso também me dá esperança.
Mesmo em tempos de guerra, os atores continuam a apresentar peças em abrigos antiaéreos. A vida continua e, sob pressão, quase não há limites para o que as pessoas podem fazer e alcançar. Essa capacidade de adaptação e inovação é o que espero que nos salve da iminente crise climática. Tento manter o otimismo, mas, em tempos sombrios como os atuais, às vezes pode ser difícil.
Você tem algum evento de lançamento do livro planejado no Brasil?
Espero ter a oportunidade de participar de um evento de lançamento da obra no Brasil quando terminar o livro sobre a Ucrânia, que será publicado já em outubro.




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