João Lucas Kipper Rocha tinha 7 anos quando conheceu Flávia Conceição Miguel de Miguel – a mulher que, nos retratos sobre a cômoda da sala, aparece aos risos do seu lado. Doze anos após aqueles tímidos primeiros encontros, João se considera um jovem de sorte. Não só mantém contato assíduo com o pai, como tem o privilégio de conviver com duas mães.
A história sobre este vínculo familiar começou em 2004 quando a esteticista Cristiane Kipper, já separada do marido, apresentou a veterinária Flávia ao filho. “Na época, introduzi ela como uma amiga. Não teve um dia em que disse: ‘somos namoradas’. O tempo fez ele compreender o que estava acontecendo”, lembra.
A preocupação de que o filho enfrentasse obstáculos para entender a situação foi tanta que a mãe, inclusive, levou o pequeno a psicóloga. Mas João demonstrou firmeza e maturidade. “A psicóloga comentou que ele era uma criança super bem resolvida e que tinha a plena noção do que estava acontecendo.”
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E foi de mansinho que Flávia conquistou a confiança de João. Cristiane trabalhava à noite no Hospital Santa Cruz (HSC) e Flávia cuidava do menino. Se, de um lado, a mãe emprestada disponibilizava tempo e dedicação para atender o pequeno, do outro era João que apresentava para Flávia um mundo novo chamado infância. “Sempre fui sozinha e, de uma hora para outra, tive que aprender a conviver com uma criança. Para mim foi um grande aprendizado.”
Ao longo dos anos, Flávia, hoje com 50, incorporou importante papel para auxiliar a mãe na hora de participar da vida do pequeno. Tanto que passou a acompanhar Cristiane nas reuniões de pais e demais confraternizações da escola. Hoje, porém, as incumbências são outras. Próxima, digamos assim, da ‘galera’, fica responsável por levar e buscar a ‘gurizada’ nas festas e, vez que outra, é eleita a assadora oficial de churrasco da turma.
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Convivência
João Lucas lida com naturalidade com a relação homoafetiva da mãe. Sempre recebeu amigos em casa e, em nenhum momento, alguém manifestou preconceito. “Desde pequeno eu sempre trouxe a minha turma para fazer festinhas ou churrascos aqui. Nunca existiu essa história de esconder”, esclarece. O ponto de encontro da turma, inclusive, se mantém em Rio Pardo – com direito à sucursal no Litoral. No CTG que a família frequenta, a relação também é respeitada.
Neste domingo, o Dia das Mães vai ser comemorado na casa da bisa. Cabe a João decidir se vai dar um ou dois presentes. No fim das contas, essa história de mimos fica em segundo plano. Afinal, num arranjo onde os laços de afeto já estão mais do que consolidados, o bom e velho abraço prova que a família acontece independente de orientação sexual.
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Limites
Desde o início da relação, a esteticista Cristiane Kipper buscou manter discrição para que João Lucas não sentisse preconceito ou qualquer mal-estar dentro dos círculos de convivência. “Teve um momento em que eu e Flávia batemos de frente. Ela tem um gênio forte e queria impor certas coisas. Naquele momento eu disse: até aqui tu vais, agora é comigo”, lembra. E Flávia complementa: “Eu só queria que ele se tornasse um guri ‘decente’. Tudo o que sugeri foi por preocupação. Ainda bem que deu tudo certo.”
Hoje, moço feito – como diz a mãe –, João Lucas reside em Santa Cruz, cursa Química Industrial e está prestes a morar sozinho. Por enquanto mora com a bisavó.
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Nem por isso, os cuidados com o filhote são esquecidos. Com Flávia no pedaço, algumas informações ‘básicas’ ainda são exigidas. Principalmente quando se trata das paqueras ou namoricos. “Ah, mas isso aí eu vou atrás. Quero saber quem é, ora”, diz a ‘superprotetora’ aos risos. Envergonhado, João Lucas balança a cabeça e dá risada. “Ela investiga tudo mesmo.”
Casamento surpresa em fevereiro
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Flávia e João Lucas foram cúmplices. Enganaram direitinho a mãe e, às escondidas, organizaram um casamento surpresa. Foi de Rio Pardo – local onde o casal reside – que a veterinária chamou os poucos convidados, entrou em contato com o cartório e planejou a cerimônia na casa de praia, em Nova Tramandaí.
“Seguidamente, eu tocava no assunto de querer casar. Mas ela era mais resistente. Dizia que não precisava”, lembra Cristiane. Foi então que, no dia 20 de fevereiro, os amigos chamaram a esteticista para ser testemunha de um suposto empréstimo.
Chegando ao cartório, a história era outra. “Como eu sabia que ela queria, planejei tudo em pouco tempo”, diz Flávia. Depois houve festa com direito a balões, champanhe e muita alegria.